Bertha Becker pede valor e tecnologia para preservar a floresta

A presença de Bertha Becker na tarde desta segunda-feira do Mercado Floresta foi marcada por uma abordagem crítica e propositiva da gestão política e econômica da região amazônica. A geógrafa, Professora Emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), apresentou a palestra “Cadeias tecno-produtivas para uso da biodiversidade”.

Termos tão cheios de significados se tornaram claros quando Bertha passou à sua exposição, explicando que “cadeias tecno-produtivas” consistem no beneficiamento tecnológico das cadeias produtivas e que só com a inclusão de tecnologias avançadas pode-se conservar a biodiversidade de maneira racional e eficiente.

“É uma triste constatação, eu sei, mas não se pode negar que a floresta só vai ser conservada se ela ganhar valor para competir no mercado com as commodities que estão tomando seu espaço”, disse a Professora. Ela apontou que, atualmente, o mundo vive o fenômeno da mercantilização de todos os espaços e substâncias, como a água, considerada o “ouro azul”, ou como o ar e mesmo o conhecimento. Esse fenômeno não necessariamente é ruim, pois, segundo Bertha, o que se vê são “mercadorias fictícias gerando mercados reais”. Ela explica: a partir da valorização da natureza, vista como um conjunto de bens naturais, cria-se um ambiente de novas atividades humanas e novos mercados de trabalho e de consumo. Assim, a vida humana, que é naturalmente dinâmica, vai se modificando e se adaptando.

A própria Amazônia, como espaço geográfico e humano, vem passando por uma série de modificações: a população se modificou com a chegada do sistema de telecomunicações avançado que já se instalou por lá. Então por que não se adaptar a outras atividades que podem se inserir e se desenvolver ali no espaço econômico da região, com um potencial enorme?

“A região quer se desenvolver”, diz a geógrafa. “E a população local se depara com dois modelos distintos de desenvolvimento: ao mesmo tempo que quer o desenvolvimento econômico, sente a necessidade de um modelo ambiental”. Bertha aponta ainda que a consequência disso é uma nova idéia de gestão ambiental; a idéia de que a política ambiental de preservação da natureza não vai dar conta do recado, pois não gera trabalho e renda, nem conhecimento. Precisa-se de novas práticas, de um novo conceito.

Tecnologia

O que propõe Bertha é que se beneficiem tecnologicamente, sem exceção, todas as etapas produtivas do modelo de desenvolvimento. Desde as relações locais de trabalho até as atividades dos laboratórios de biotecnologia e das pesquisas científicas sobre a Amazônia. Tecnologia, nesse sentido, serve para o modelo de organização humana. Precisa-se de modelos que priorizem a gestão e a distribuição do conhecimento, das relações entre os agentes da produção desde a mercadoria e até a informação. “Há muita pesquisa na Amazônia, de ponta, da fronteira da ciência, até; mas os pesquisadores estão fragmentados, não compartilham a ciência que produzem”.

Ela aponta também a necessidade de se modificar o modelo institucional de controle da região. Na prática, as corporações vão produzindo de acordo com a sua lógica e o pequeno produtor fica em desvantagem. Isso porque “as regras do jogo não estão claras”. O governo não deixa claras quais são as regras e muito menos fiscaliza a obediência a essas regras que, tacitamente, estão em favor dos grandes produtores, principalmente de soja e de gado.

Criar um sistema de “logística do pequeno”, com ênfase em facilitar a permanência do produtor na terra, diferentemente do grande produtor, que terceiriza sua produção, demanda não só um fortalecimento institucional, mas principalmente uma mudança desse modelo institucional. Precisamos de um projeto “neoinstitucionalista”, defende – “é com esse parâmetro que o mundo trabalha hoje”, diz. E continua, defendendo que precisamos de um projeto que tenha como finalidade o desenvolvimento e a eqüidade. Que rompa com o modelo assistencialista e trate do empoderamento do pequeno produtor. Que forme capital social.

Cultura e regionalização

Tudo isso causa, ao mesmo tempo que demanda, uma mudança cultural. Primeiro, propõe, é preciso romper com a idéia do valor da terra como patrimônio. Uma herança que se traz desde o período colonial é de que a terra tem valor por si, e vale a pena acumulá-la por seu valor rentável. Isso não está certo: terra é para produzir.

E mesmo a população local tem que passar por um processo de mudança cultural, defende, dizendo que há traços de clientelismo nas pessoas, ainda se reconhecem nelas atitudes submissas. E não é simples promover mudanças que as beneficiem: para interagir com a população local é preciso compreender sua linguagem, sua cultura. E não perder de vista a regionalização, em todo esse processo.

“Não se aplica uma idéia a dois diferentes lugares. A Amazônia é diferenciada, como outra região”, diz a Professora. Promover mudanças, introduzir tecnologia no cotidiano sócio-econômico local, implica criar essa tecnologia localmente, também a partir do conhecimento local.

Fonte: Amazônia.org.br

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4 comentários em “Bertha Becker pede valor e tecnologia para preservar a floresta

  • 20 de novembro de 2015 em 8:34
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    Concordo que os americanos dos estados unidos devem parar de poluir o mundo.

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  • 12 de dezembro de 2016 em 11:11
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    Particularmente sou muito ativista no quesito em preservação ao meio ambiente, atualmente sou técnico de lavadora e muitos aparelhos denigrem o ambiente, por isso sempre dou uma opção e reposição de peças ecológica para meus clientes.

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