Entrevista com Bertha Becker: “Como é que você vai distribuir riquezas se não tem produção?”

A pesquisadora, geógrafa e historiadora Bertha Becker é referencia nos temas relacionados à Amazônia. Possui diversas pesquisas na área e um grande currículo que consta sua atuação na região. E sua presença não podia faltar no evento que aconteceu na passada em São Paulo, para discutir os “Desafios e Perspectivas para a Integração Regional”.

Todos disputaram alguns minutos de atenção. Dos jovens estudantes que foram falar com ela, e depois saiam em grupinhos dizendo “Ai! Ela falou que fala com a gente depois. Que nervoso”, aos jornalistas e pesquisadores que estão mais acostumados com o tema.

Bertha já se habituou à imprensa e sabe conduzir uma entrevista. As perguntas planejadas de nada adiantam: ela sempre responde antes que se chegue à interrogação final. Durante sua fala, faz novas perguntas, deixando as mais difíceis para os jornalistas: “Porque que nós queremos só vender carbono e ainda com a bolsa Chicago?”.

Se tentar mudar o tema antes da hora, ela responde: “espera. Tem mais”. E quando finalmente se dá por satisfeita, também indica que é hora da próxima pergunta. “Sim agora a outra questão”.

E dessa mesma forma ela sabe terminar a entrevista quando se cansa de responder. Com seu jeito meigo e quase nada sutil diz “Ta bom?”. Mas o efeito não dura muito tempo. Em seguida aparecem outras pessoas que estavam na fila para os minutos de sua atenção.

Ao conversar com o site Amazonia.org.br, Bertha falou sobre sua proposta de bioprodução, que contempla a instalação de centros de produção em alguns locais da Amazônia. Dessa forma não haveria isolamento, e haveria produção de mercadorias não madeireiras, utilizando tecnologia avançada para transformação de matérias-primas florestais por uma cadeia completa. Esses centros se chamariam, segundo Bertha, “cidades de bioprodução, pesquisa e serviços ambientais”.

Veja aqui a opinião da pesquisadora sobre o tema.

Confira abaixo a entrevista:

Amazônia.org.br – Como seria possível conseguir integrar uma região que é tão diversa como a Amazônia?

Bertha Becker – A minha proposta é unidade na diversidade. É o meu mote. Por quê? Porque é bom. Você tem maior conectividade, é preciso ter maior informação, redes de informação.

Redes de cidades são cruciais pra você ampliar a conectividade sem destruir a natureza. Então, por que unidade na diversidade? Unidade porque nós temos que romper essa trajetória da Amazônia e do continente, uma trajetória dependente de um passado colonial. Um passado colonial que trouxe exportação de matéria-prima sem valor agregado, doenças, latifúndios, trabalho escravo ou quase escravo. Isso comparado com um quadro institucional que não ajuda a inovação e a mobilização social. Então essa situação é perpetuada com o passar dos séculos, houve pequenas mudanças, mas no sentido profundo é o mesmo.

Enquanto a gente não acabar com isso, a gente não se desenvolve, e não se desenvolvendo o risco da integração é acentuar ainda mais essa trajetória passada. Qual é o desafio? É acabar com as desigualdades socioeconômicas, essa herança do passado, e ao mesmo tempo respeitar as diferenças culturais. Esse é o desafio.

Amazônia.org.br – E é necessária também uma ligação física…

Bertha – Precisa! A grande crítica dos ambientalistas é em cima das estradas, mas eu não. O mais importante é isso que eu falei. Daí vem a questão ambiental. Claro que não pode ficar só fazendo estrada, já temos experiências de rodovias que arrebentam com a floresta e tudo mais, então você tem como grande alternativa a circulação fluvial. São maravilhosos os rios da Amazônia que até hoje não tem equipamento decente pra permitir a circulação. Primeira coisa: equipamento moderno, do século XXI, pra fazer essa circulação do rio. Apoiada pela circulação aeroviária. Aquilo que se chama de intermodalidade, que é o que mais se ajusta com a região: a intermodalidade é quando você usa rios, pequenos trechos de rodovias, quando essenciais. Intermodalidade, ajustada às condições naturais.

Amazônia.org.br – A senhora falou, das “biocidades”, que….

Bertha – Bioprodução! Cidades que estão soltas no tempo, fantasmas, vivem só do funcionalismo público, como Lábrea, Humaitá… Humaitá está até um pouco mais humanizada, Labréa e outras que escolhi, fiz uma rede. Elas devem ser equipadas para ter centros de pesquisas e centros industriais de produção extrativista não madeireira, florestal e serviços ambientais. Elas têm que ser equipadas para serem centros de pesquisa, e centros de indústria, da produção extrativista.

Amazônia.org.br – E a senhora acha que esses centros de produção…

Bertha – Como é que você vai distribuir riquezas se não tem produção? Agora a coisa mais importante é que tipo de produção. É uma produção adequada, regional e que não destrua o meio ambiente. Mas é produção! Nós vivemos em um sistema capitalista! Vai acabar com a produção? Qual é cara-pálida!

Amazônia.org.br – E a senhora acha que esses centros de produção não atrairiam mais pessoas e gerariam…

Bertha – Não! Acho que tudo tem que ser planejado. Não é assim! Eu estou tendo uma idéia! A idéia de um modelo que tem que ser ainda destrinchado, colaborado, tem que planejar. Não é? Porque é um esqueleto, cérebro…

Por: Aldrey Riechel
Fonte: Amazônia.org.br 

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5 comentários em “Entrevista com Bertha Becker: “Como é que você vai distribuir riquezas se não tem produção?”

  • 17 de julho de 2013 em 18:31
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    O Brasil é o país mais rico do mundo. Por isso existe a frase: “DEUS É BRASILEIRO”. É o único país, deste Planeta, que reúne a maior quantidade de recursos naturais. As grandes riquezas, dos outros países, são extraídas daqui e do suor do nosso povo !! Somente quem não vê com os olhos da verdade e do bom caráter, é que não quer enxergar !

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    • 25 de julho de 2013 em 18:01
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      Orlando, isso pq temos um corpo político podre, corrupto. Por isso não conseguimos industrializar nosso país, só p´rá poder enviar matérias-primas para o exterior e com isso ficamos mais pobres.

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  • 13 de dezembro de 2016 em 9:48
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    Antonio Marcos, você está acompanhando a Lava Jato, creio que em breve os políticos corruptos serão excluídos do quadro nacional e isso abrirá um grande leque para que possamos aproveitar nossas obras primas!

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  • 15 de dezembro de 2016 em 11:42
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    Precisamos de mais florestas e parar de só querer salvar a amazonia.

    Fizeram tantos negocios com essas construtoras mas não conseguiram nem reflorestar o nordeste. Quiseram fazer obras faraonicas como dar uma de hercules com essa tal de transposição do Rio Sao Francisco.

    Descentralizar poderes é o caminho!

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