Aquecimento global: o agnosticismo é moral?

Elimar Pinheiro do Nascimento é professor associado do Centro de Desenvolvimento Sustentável da UnB.

Agnóstico é aquele que, em face de uma situação complexa, reconhece humildemente sua incapacidade em compreendê-la. Assim ocorre na religião. Os agnósticos, inversamente aos crentes e ateus, reconhecem que não têm condições de afirmar se Deus existe ou não. Existem indícios de sua existência, mas também de sua inexistência. O mundo é extremamente complexo e muitos de seus processos são de difícil compreensão. O que são os buracos negros? A antimatéria? O mundo paralelo? Até há pouco, acreditava-se que o universo estivesse em retração. Cientistas acabam de descobrir que ele está, inversamente, em forte expansão.

O agnóstico não adota uma posição de neutralidade, apenas reconhece que certas questões, eventos ou processos são despidos de provas suficientes, pelo menos momentaneamente, para se ter uma compreensão ou aceitação plena. Isso não ocorre apenas em face do mistério divino, mas também de muitas questões científicas.

Uma dessas questões, que têm ocupado a mídia nos últimos anos, é a do aquecimento global. A maioria esmagadora dos cientistas acredita que estamos em uma fase de aquecimento. Outros, poucos, advogam que se trata de um mito, pois os dados são precários e, sobretudo, não se tem uma série suficientemente longa no tempo para dar robustez ao argumento. Nas questões científicas o princípio da maioria não tem validade, ao contrário da política. Na ciência contam apenas os fatos, os argumentos, a lógica e, sobretudo, a demonstração — as provas.

Do ponto de vista geológico, o mundo deve estar ingressando em nova fase glacial e, portanto, de esfriamento, embora em ritmo lento, como indicado pelos registros pré-históricos do clima. No entanto, as medições de temperatura distribuídas em todo o mundo, e desde o século 19, parecem indicar o contrário — pelo menos é o que consta do relatório do IPCC (Painel Intergovernamental de Controle Climário) de 2007, cuja leitura esteve um tanto restrita aos meios especializados.

Al Gore tratou de divulgar a questão por meio de filme e livro. Os dados são contundentes e a responsabilidade humana parece patente, pois o aquecimento adviria do acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera produzidos pela natureza e pela ação antrópica. Contudo, os registros deixam lacunas. Por exemplo, nos 20 e poucos anos após a Segunda Guerra Mundial, a temperatura que indicava movimento de ascensão, mostra estagnação — isso em um período de intensa atividade econômica.

Por seu lado, como o IPCC é uma agregação de cientistas em conversação com governos no âmbido das Nações Unidas, seu relatório tende a adotar uma posição de consenso. Algo estranho e de pouco valor na ciência. Seus cenários são sempre contínuos na elevação da temperatura ao longo deste século. Ora, a possibilidade de uma inflexão com rápida mudança climática não é contemplada e, no entanto, é uma hipótese razoável. Na verdade as hipóteses são muitas.

Isso pelo fato de que a questão climática é, por um lado, extremamente complexa e a maioria dos que falam sobre ela não entende, de fato, os modelos utilizados para seu estudo. Por outro lado, os limites desses modelos são apontados pelos especialistas. Os próprios termos utilizados no relatório do IPCC de 2007 revelam a presença de fortes incertezas.

Em face da incerteza, algumas pessoas tomam uma atitude agnóstica. Declaram que não sabem se de fato estamos ingressando em uma fase de crescente aumento de temperatura. E como a elevação ocorrerá e, mesmo, se ocorrerá. Para o agnóstico, o aquecimento global é apenas uma hipótese. Contudo, no caso de vir a se confirmar, não haverá retorno. Nem arrependimento.

Por isso, a postura do agnóstico merece respeito, mas, em relação ao aquecimento global, só poderá ser moralmente sustentável em um caso. Se houver concordância de que as medidas para evitar os piores cenários das mudanças climáticas devem ser tomadas na maior brevidade possível. Caso contrário, ter-se-ia uma atitude irresponsável. Afinal, o pior pode acontecer e com ele a ameaça à espécie humana, se não tomarmos as devidas precauções. Apenas nesse caso garantiremos que as futuras gerações e as populações mais vulneráveis da atualidade não terão as condições de vida ainda mais degradadas.

Fonte: Correio Braziliense

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