Falso pastor é indiciado por ter mantido índios em cárcere privado

Antonio Alenquer Pereira Pontes foi preso em Lábrea. Foto: Armando Soares/Funai

O falso pastor Antonio Alenquer Pereira Pontes, que passou 10 dias desaparecido com 14 índios da etnia Paumari (cinco adultos, sete adolescentes de 12 a 16 anos, um menino pequeno e um bebê de colo) , foi indiciado em Lábrea (AM) por cárcere privado, ameaça, estelionato e falsa identidade.

Pontes é acusado de ter mantido os índios sob terror e intimidação durante uma viagem supostamente destinada a ir buscar material e mercadorias prometidas por ele aos habitantes da aldeia Crispim, no Rio Purus.

– Toda hora ele dizia que ia me bater com uma corda. Meu pai nunca me bateu. Eu não entendia por que esse homem queria me bater, nem por que ele dizia que seríamos todos presos. Nós não matamos ninguém. Nós tínhamos que ficar o tempo todo escondidos na canoa e cada vez que passava um motor ele dizia que era a polícia nos procurando. A gente não podia conversar, nem olhar um para o outro. Ele só deixava a gente sair do barco para fazer as coisas que ele mandava – relatou uma adolescente.

Os indígenas contaram que não chegaram a passar fome, mas não podiam dormir por causa do medo e dos carapanãs (pernilongos) no rio.

– Agora passo o dia chorando porque foi muito sofrimento que passamos nas mãos desse homem – relatou à antropóloga Oiara Bonilla a adolescente paumari que viajava com o falso pastor.

Pontes dizia aos índios que era filho de desembargador e que mandaria matar a todos na aldeia caso fosse preso. Os índios eram obrigados a servi-lo, tendo, por exemplo, que retirar seus sapatos e meias, sem reclamar.

– Ele também disse para nós que era um “mentalista”, que ele lia a mente das pessoas. Disse que ensinaria as mulheres a se tornarem “mentalistas” como ele.

Alguns paumari estão prestando novos depoimentos na delegacia de Lábrea nesta quarta-feira (25). A polícia quer esclarecer alguns pontos e obter mais detalhes sobre o ocorrido ao longo dos dez dias em que os índios estiveram viajando com o falso pastor.

A prisão dele aconteceu após a antropóloga Oiara Bonilla denunciar o caso no Blog da Amazônia. A antropóloga é pesquisadora do Museu Nacional e trabalha junto aos Paumari desde 2000.

– Nos próximos dias, os paumari estarão voltando para a aldeia, e provavelmente conversarão e refletirão muito sobre o ocorrido, para que fatos como esse nunca mais se reproduzam. O triste episódio também serve como alerta para todos nós, pois aponta para a extrema fragilidade e exposição que a região do Sul do Amazonas vive. Ela estará cada vez mais exposta com o avanço do desmatamento e da frente agropecuária do norte de Rondônia – comentou a antropóloga.

Por: Altino Machado
Fonte: Blog da Amazônia 

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