Gaia quer emitir recebíveis com lastro em área florestal

Com um total de R$ 3,6 bilhões em emissões de certificados de recebíveis imobiliários (CRI) realizadas em 2011, a securitizadora Gaia desembarca agora no campo, mais precisamente na floresta. A empresa acaba de criar uma nova companhia para realizar emissões de certificados de recebíveis do agronegócio (CRA), um mercado ainda pouco desenvolvido no país.

Em vez de antecipar receitas de contratos de soja ou de boi – que deram problemas às empresas que se aventuraram por essa seara anteriormente – a companhia pretende antecipar receitas futuras de áreas plantadas para a produção de itens como madeira e celulose.

Batizada de Gaia Florestal, a nova empresa já nasce com quatro operações no forno, e a expectativa é estruturar até R$ 1 bilhão em operações neste ano, de acordo com João Paulo Pacífico, sócio da empresa. Se alcançado, o volume representará quase três vezes o estoque existente no mercado de CRA hoje, que encerrou janeiro em R$ 350 milhões, de acordo com dados da Cetip.

Ele não revelou o banco que ficará a cargo da distribuição dos papéis. No mercado, porém, a expectativa é de que o trabalho fique a cargo do Banco do Brasil, instituição que possui a maior experiência no setor de agronegócio. Procurada, a instituição não comentou o assunto.

Apesar das vantagens para o investidor, incluindo a isenção de imposto de renda (IR) para pessoas físicas, e da demanda por capital por parte dos produtores, as emissões de recebíveis vinculados ao agronegócio ainda não decolaram.

Os riscos envolvidos no negócio, que vão desde a quebra de safra a problemas com rebanho, desencorajaram as empresas que tentaram fazer a ponte entre o campo e o mercado de capitais. Aos poucos, porém, os investidores começam a voltar para o segmento. No ano passado, o Banco Original, do JBS, e o grupo Ourinvest entraram no capital da Brasil Agrosec, juntando-se aos bancos Fator e Indusval.

O modelo de securitização de recebíveis na área florestal é inédito no país. Pacífico vê, contudo, semelhanças com as estruturas já testadas na área imobiliária, especialmente no que se refere a prazos. “Os ciclos de safras de produtos como soja e cana são curtos e dificultam a criação de estruturas de recebíveis, ao contrário das florestas, que possuem um período longo de maturação e ganham valor com o passar do tempo”, compara.

Com relação aos riscos, o sócio da Gaia também aponta vantagens em relação aos recebíveis ligados aos produtos agrícolas tradicionais. Uma delas é o valor da terra no qual estão as florestas, que é dada em alienação fiduciária como garantia da operação.

A questão sócio-ambiental é outro fator crítico quando se fala de florestas. Ciente de que não tem conhecimento técnico sobre o assunto, a Gaia consultou especialistas e fechou um termo de cooperação com a ONG Aliança da Terra, que fará desde a adequação ao novo Código Florestal até a incidência de mão de obra irregular nas áreas que darão lastro aos recebíveis. A ONG vai preparar ainda brigadas de incêndio nos locais para evitar queimadas – um risco que, segundo Pacífico, hoje é reduzido com treinamento e novas técnicas de plantio.

Com o mercado de capitais longe dos proprietários das terras, existe uma carência grande de recursos no segmento, de acordo com o executivo da Gaia. “Fora as linhas oficiais, restam os empréstimos de bancos de médio porte, que costumam cobrar caro e por prazos curtos”, diz. Além de empresas médias, os CRA também devem se tornar uma fonte de captação de grandes produtores de commodities, como celulose.

Do lado dos investidores, além das pessoas físicas, que contam com isenção de IR, a Gaia pretende oferecer os CRAs florestais a estrangeiros. O investimento nos papéis seria uma forma alternativa de obter exposição ao agronegócio brasileiro após parecer da Advocacia Geral da União (AGU) que restringiu a compra de imóveis rurais por estrangeiros.

Por Vinícius Pinheiro
Fonte: Valor Econômico 

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