Governo busca comprador para grupo Rede

O governo está se esforçando para encontrar um comprador para a Rede Energia, que é dona da Celpa, entre outras distribuidoras no Sudeste e Norte do país. O controlador do grupo, Jorge Queiróz, contratou o banco Rothschild para encontrar candidato e agora é uma questão de tempo para que a distribuidora do Pará troque de mãos. Não vai ser fácil. A solução tem que sair em dois meses, pois a concessão pode ser cassada.

Ontem, a diretoria da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) decidiu enviar uma intimação à Celpa que poderá resultar na abertura de processo administrativo de inadimplência. É o primeiro passo para que seja declarada a caducidade da concessão. O relator do processo, o diretor André Pepitone, disse que não está descartada a intervenção da Aneel na administração da empresa, a exemplo do que já ocorreu na Companhia Energética do Maranhão (Cemar). A Celpa acumula dívidas da ordem de R$ 2 bilhões e registra péssimos índices de qualidade. A partir do envio da intimação, a distribuidora terá 60 dias para apresentar novo plano de ação que eleve a qualidade do serviço, o que é quase impossível considerando o tamanho dos problemas que levaram ao pedido de recuperação judicial.

Ao ler seu voto, André Pepitone afirmou que a alternativa que resta para a distribuidora é buscar uma empresa interessada em injetar recursos. Pelos cálculos da Anell, são necessários R$ 1,7 bilhão para recuperar a distribuidora. “A Celpa precisa se capitalizar. Precisa arrumar um parceiro”, afirmou. Pepitone admite que outra solução poderia partir de um dos acionistas do grupo. “Para a Eletrobras ser parceira, depende de uma decisão de governo. Ela já é acionista e poderia aumentar sua participação”, disse o diretor, ressaltando que a decisão não cabe ao regulador.

O Valor apurou que a Brookfield Energia está analisando alguns ativos do grupo Rede. Procurada, a empresa informou que não comenta o assunto. Outro potencial interessado é a Equatorial Energia, que é dona da Cemar. A lista de interessados na Celpa ou no grupo inteiro não é grande. A chinesa State Grid, por exemplo, desistiu depois de estudar os números. A própria CPFL, que andou conversando com o grupo e teria saído das negociações, poderia ficar com as distribuidoras que atendem o interior de São Paulo, parte de Minas e Pará e ainda a Enersul. A Celtins e a Cemat teriam mais facilidade de encontrar um comprador no mercado. Já a Celpa poderia interessar à Equatorial Energia, sob certas condições, apurou o Valor, talvez em associação com a Eletrobras. A possibilidade de a estatal se associar a um parceiro privado sugere que não haverá uma solução “chapa branca”.

A holding federal tem desde 1997 participação na Celpa, resultado de uma negociação para possibilitar a privatização da estatal. Foram pagos R$ 70 milhões entre abril e outubro daquele ano. Considerando todas as participações no grupo e na Celpa, a fatia do governo na problemática distribuidora chega a quase 60%. As mais antigas são da Eletrobras e BNDES, ambas oriundas da privatização, já que o banco subscreveu debêntures e financiou o comprador na época da privatização, em 2007.

Se contabilizadas as participações acionárias diretas e indiretas, a Eletrobras tem 34,24% na Celpa, enquanto o FI-FGTS tem 15,34% e o BNDESPar tem 9,73% da distribuidora (15,86% na holding).

A operação do FI FGTS foi a mais recente e polêmica investida na holding controladora do grupo e, consequentemente, com menor liquidez. Apesar de não se manifestar sobre o assunto, tanto o BNDES, quanto MME, Aneel e Eletrobras vinham acompanhando atentamente a situação da Celpa antes dela entrar com o pedido de recuperação judicial na semana passada. O banco tem sido um participante ativo, via Luciano Coutinho.

Na sexta-feira anterior ao pedido de recuperação judicial, o governo chegou a pedir que o empresário Jorge Queiróz não tomasse a medida até a sexta seguinte. Mas não foi atendido já que o grupo Rede alegou risco de insolvência.

Ontem, na reunião da diretoria da Aneel, a Celpa teve rejeitado, por unanimidade, o seu pedido de revisão tarifária de caráter extraordinário. O diretor-geral, Nelson Hubner, disse que a recuperação financeira da Celpa somente poderá ser viabilizada se forem feitos novos aportes de recursos. Ele ressaltou a importância de o prazo fixado pela agência coincidir com o período estabelecido pela Justiça, para que a companhia execute o seu plano de recuperação financeira simultaneamente ao de melhoria da qualidade do serviço.

“Não resolver essa questão financeira pode caminhar, muito rápido, para um processo de caducidade [da concessão], que é muito ruim para todos, mas esse pode ser um caminho natural que vejo”, afirmou Hubner.

Por: Cláudia Schüffner e Rafael Bitencourt
Fonte: Valor Econômico 

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