Guerreiras amazônicas

Laísa escrevendo o discurso que leu na ONU, durante a cerimônia da premiação Heróis da Floresta, em homenagem a sua irmã Maria e seu cunhado José Cláudio. Vive ameaçada. Mas não deixa a luta

Amazonas é um mito grego de uma sociedade matrilinear, politicamente dominada por mulheres, e que ao longo do tempo foi se transformando em um termo para designar mulheres guerreiras, e mais recente, mulheres montadoras de cavalos. De mulheres poderosas, a sociedade europeia moderna reduziu o mito a simples montadoras de cavalos.

Os cavalos foram extintos do continente americano cerca de 10 mil anos atrás, e não foi por isso, certamente, que o saqueador espanhol Francisco de Orellana apelidou alguns povos que encontrou quando desceu o rio Amazonas, na primeira viagem de um Europeu pela região. Descreve ele ter encontrado, nas margens do Marañon, com mulheres guerreiras, que atacavam suas embarcações com flechas e dardos de zarabatana. Uma história fantástica que chegou com força para o sexista continente europeu, em uma época na qual mulheres eram queimadas vivas em praça pública por ordem de líderes religiosos locais, uma religião quase tribal conhecida por catolicismo.

Essa brutalidade europeia teria chocado as complexas e sofisticadas sociedades americanas que existiam no continente cerca de 500 anos atrás. E, muitas delas, lideradas por mulheres.

Muito provavelmente, Orellana certo. É provável que existissem sociedades matrilineares na Amazônia, cujo papel guerreiro das mulheres fosse fundamental. A arqueologia da ilha de Marajó e da região de Santarém é repleta de estatuetas representando figuras femininas, muitas vezes durante a gravidez. A linhagem passa pelo sangue da mãe. E se alguém tem dúvida do papel fundamental das mulheres na guerra, os kayapó estão aí hoje para provar. Conheçam a história de Tuíra, liderança feminina que passou um facão no rosto do presidente da Eletronorte, em 1989, em meio a debates sobre a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte.

Orellana dizia ter visto elefantes. Mas como descrever uma anta, senão um pequeno elefante?

Orellana dizia ter visto grandes cidades, que provavelmente existiam antes de sua trupe ter espalhado varíola pelo continente. E a moderna arqueologia, como ensina o professor Eduardo Neves, da USP, cada vez mais tem demonstrado que existiram, na Amazônia, grandes e complexas sociedades. Núcleos urbanos no Xingu, um aglomerado com milhares de pessoas no interflúvio Tapajós-Amazonas deixaria qualquer feudo europeu no chinelo. Não só grande, porém complexas e sofisticadas sociedades que deram origem aos atuais povos indígenas (igualmente complexos e sofisticados).

E por que não teriam existido as guerreiras que Orellana dizia ter visto?

Talvez, apenas após a revolução sexual iniciada no século passado é que a sociedade contemporânea começa a entender o fundamental papel das mulheres guerreiras na Amazônia. E quem for hoje na Amazônia, vindo da Europa ou do sudeste, regiões sociologicamente pouco complexas comparadas à diversidade indígena, vai se surpreender com o que encontrar.

O violento arco do desmatamento da Amazônia, um cinturão de sangue que corta o continente do Maranhão ao sul do Acre, é povoado por histórias sinistras de violência e morte. E em todo esse arco, figuras expressivas femininas como lideranças políticas, como guerreiras que lideram povos e comunidades se destacam.

Uma descrição contemporânea da Amazônia não iria parecer menos fantástica do que o relato, talvez preciso, de Orellana. As guerreiras amazônicas possuem um papel fundamental na região. Tem mulheres castanheiras e extrativistas que lideram organizam política de comunidades. Lideranças indígenas, que seguem tradições com mais igualdade, ou então que romperam as tradições sexistas, muitas vezes aprendidas com a exploração seringalista ou cristã.

Secretária da Mulher do Conselho Nacional dos Seringueiros, Célia, vem do Marajó. Aprendeu com sua mãe a ser parteira. Além de fazer inúmeros partos, ensinou tantas outras a dar a luz, e organiza mulheres extrativistas para assumirem um papel bem mais fundamental nas discussões políticas das comunidades. Outra organização de grande importância do campo na Amazônia, a Fetagri, no Amazonas, é comandada por uma mulher, já em seu segundo mandato: Ivete.

Vanderleide, de Lábrea, tem enfrentado uma batalha muito grande em uma terra onde a frente de expansão está avançando a passos rápidos e violentos contra a população tradicional. É a representante do CNS no local, onde, por toda a região, “ninguém aceita falar mal dela”, comenta-se no CNS. Todos os extrativistas na região têm muito respeito por Vanderleide, além das comunidades do médio Purus, de onde ela vem.

Também extrativista, mas castanheira, Laisa é uma figura ímpar e de destaque em Nova Ipixuna, no sul do Pará. Casou-se com 15 anos, teve 5 filhos cedo e, também cedo, desfez sua relação com o antigo marido, foi cuidar de sua vida. Arregaçou as mangas. Costurou, cozinhou, garimpou, estudou. Foi para a Guiana Francesa, uma das poucas mulheres em um isolado garimpo de ouro. Retornou, criou os filhos. Apaixonou-se novamente, casou. Com o dinheiro que juntou, comprou um lote, vizinho ao de sua irmã, Maria. Matriculou-se numa pós-graduação, passou em um concurso e hoje é professora no assentamento onde vive.

Maria foi assassinada com seu marido, Zé Cláudio, em 24 de maio de 2011. Laisa assumiu a frente de lutar contra a impunidade no crime de sua irmã. Passou a sofrer ameaças, e ao invés de correr, cobra, do governo federal, proteção para sua vida. Permanece no assentamento, ensinando as crianças a amar a floresta, a viver em harmonia com a floresta através do extrativismo. Crianças que não têm culpa do que seus pais fazem, como aqueles que vendem carvão ou árvores de forma ilegal. Ou mesmo crianças da família dos assassinos de sua irmã e seu cunhado. “São crianças, apenas”, ela me diz.

Recentemente, acompanhei Laisa até a ONU, onde ela foi receber uma homenagem póstuma à luta de Maria e Zé Cláudio. Diante de todo o mundo, na representação das nações do planeta, ela declarou que “a Amazônia é manchada de sangue”. Voz firme. Olhar cerrado. O público presente, pelas expressões que tombaram em seus rostos, não estava preparado para estar diante de uma guerreira amazônica, que lhe dissessem profundas verdades. Houve uma grande comoção.

Ali perto de onde vive Laisa, Maria Joel, conhecida como Joelma, é testemunha da morte de seu marido, o sindicalista José Dutra da Costa, o Dezinho, em Rondon do Pará. Rondon, ao contrário do pacifista militar que defendia os índios, é terra violenta. Terra onde os fracos não têm vez, para fazer uma analogia ao Oeste americano. Joelma lidera um assentamento e enfrenta o mesmo fazendeiro que matou seu marido. Vive com escolta policial, e vive sob ameaças de morte. Mas não há quem, na guerra, viva com medo de morrer. Enfrenta, com coragem e dignidade, a agonia de viver.

Nesse mesmo sul do Pará, Aninha, figura aparentemente frágil, é personalidade forte na Comissão Pastoral da Terra em Xinguara. E dali para o Oeste, andar pela Transamazônica é escutar histórias de guerreiras.

Aquela que envenenou garimpeiros que a estupraram em Itaituba. Ou a que mandou matar o marido picareta, tornou-se líder comunitária e prefeita de uma cidade na fronteira com o Mato Grosso. Altamira é comandada pela prefeita Odileida, que recentemente pediu a suspensão das obras de Belo Monte.

Em Jaciparana, Rondônia, cidade dormitório das obras da usina Jirau, encontrei Neusa, que já passou por grande parte da Amazônia. Após livrar-se de um violento marido, teve a responsabilidade de criar os filhos. Foi garimpeira em mina de cassiterita. Invadiu uma terra para tentar conseguir um lote em Colniza, no norte do Mato Grosso, um dos lugares mais violentos da face da terra. Foi expulsa sob a mira de uma pistola empunhada por pistoleiros e policiais.

Em Rondônia, Neusa se diz barrageira. Nos últimos anos, passou a montar bordel em cidades periféricas a obras de hidrelétricas. Disse nunca ter se prostituído, imaginando ser isso algo negativo em sua biografia. Moças que Neusa defende. Um dia antes de ter me servido uma cerveja em seu bar, na rua do Amor em Jaci, Neusa havia partido para a força bruta contra um homem. Bêbado, ele começou a perturbar as mulheres que trabalham ali. Neusa partiu para cima, empurrou o rapaz, que caiu de cabeça no meio fio. As marcas de sangue ainda estavam por ali.

Mulheres que possuem tanta força no olhar que deixam hipnotizado. Foi assim que escutei o drama de Nilcilene. Encontrei com colete a prova de balas, sempre cercada por dois fortemente armados homens da Força Nacional. Nova Califórnia, o local, é um dos cinco distritos da violenta ponta do Abunã, uma ponta de terra cercada por tensas violentas, distante do centro político de Porto Velho. “No dia que a Força for embora, eu sou matada e estrangulada pelos madeireiros, grileiros e pistoleiros”, ela disse. “Quem matou o Dinho foi o estado. Porque se o estado quisesse acabar com esse conflito, regularizava as terras”, reflete.

Nilcilene tem grandeza numa terra violenta. Muita gente enlouquece com as ameaças. Nilcilene teve o marido assassinado. Vem de Xapuri, no Acre, onde mataram Chico Mendes. “Sabe quantas malárias deu só na Gleba Iquiri? 150 malárias!” Ela conta de sua luta, uma guerra para melhorar as condições de vida das comunidades extrativistas. “A minha luta é assim, Mas eu não posso fazer mais porque eu não tenho ajuda.”

Nem só no terror, no entanto, destaca-se a força das guerreiras.

Onde a Amazônia pode ser mais Amazônia, senão, com menos medo de existir, como no povo indígena Yawanawa, no Acre, também as amazônidas assumem um papel de destaque na vida comunitária. Hushahu e Putani são duas irmãs que romperam com paradigmas sexistas tradicionais para alcançar um poder que nunca, na história, uma mulher teve na violenta igreja católica: o poder espiritual.

Orientadas pelo shamã Tata, e com ajuda do irmão Tashka, elas passaram a receber os ensinamentos sagrados de seu povo. Passaram meses reclusas e isoladas na floresta. Quando entrevistei Putani, alguns anos atrás, ela disse: “Quando os homens vão discutir algum assunto, a gente vai lá, senta junto e fala, dá opinião, briga, se achar que está errado. É um papel importante, porque antes não tinha isso na nossa aldeia, as mulheres não eram ouvidas no nosso povo.”

Não se sabe se a opressão às mulheres sempre existiu entre os yawanawa até a revolução interna provocada por Hushahu e Putani, ou se foi algo que se desenvolveu a partir da relação com a sociedade colonizadora, como os seringais e as missões evangélicas ¿ nenhuma delas exemplo de igualdade de gêneros.

Guerreira amazônica pode ter vindo de fora, e aprendido a lutar na floresta. Foi assim com Carmen Junqueira, uma das maiores antropólogas do Brasil, que começou a ir para o Xingu no início dos anos 1960. Nos 1970 estava entre os cinta-larga, povo tupi, de guerra. Visitou garimpos onde mulheres nunca haviam estado, pôs dedos em riste frente a garimpeiros, e fez-se forte frente aos índios, acostumados a combater fragilizados homens ocidentais.

Conta ela que, um dia, percebeu que poderia ser atacada pelos próprios índios amigos. E que talvez pudesse servir a um ritual antropofágico. Olhou para aqueles que miravam a ela e perguntou: “Que gosto tem a carne humana?” Ao olho assustado de quem achava que branco era tudo fraca, o índio ouviu de volta, ainda, daquela pequena e bela mulher: “É doce; e é gostosa.”

Em Colniza, um madeireiro me disse numa mesa de bar: “Na Amazônia, terra não tem dono, homem não tem palavra, mulher não tem honra e árvore não tem raiz.”

Nessa visão um tanto particular para descrever uma terra arrasada, ele, que havia sido abandonado por sua esposa, preferiu atacar a “honra” das mulheres, pois de fracas ele sabia que não podia acusá-las.

Orellana pode ter confundido antas com elefantes. Mas certo é que ele encontrou grandes civilizações e mulheres guerreiras, e nesse caso, tanto os índios são descendentes dessas ricas sociedades, como as mulheres amazônidas permanecem fortes guerreiras.

Felipe Milanez é jornalista e advogado, mestre em ciência política pela Universidade de Toulouse, França. Foi editor da revista Brasil Indígena, da Funai, e da revista National Geographic Brasil, trabalhos nos quais se especializou em admirar e respeitar o Brasil profundo e multiétnico.

O texto foi publicado na página do Terra Magazine

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