Tourinho quer superar conflitos em grandes obras

Em 2001-2002, durante o segundo governo Fernando Henrique Cardoso, o Brasil o Brasil foi obrigado a racionar 20% de energia elétrica, porque a geração era insuficiente para dar conta do consumo, produto de vários anos de investimentos no setor aquém das necessidades. O baiano Rodolpho Tourinho foi ministro de Minas e Energia de 1999 a fevereiro de 2001, deixando o cargo quando a crise já era inevitável e afirmando ter alertado, em vão, que ela aconteceria.

Agora, dez anos depois, Tourinho assume outra tarefa complicada, dessa vez com viés positivo: na condição de presidente do Sindicato Nacional da Indústria da Construção Pesada (Sinicon), a entidade que reúne as grandes empreiteiras, tem a missão de mudar as relações de trabalho nos canteiros de obras, marcadas historicamente por conflitos, péssimas acomodações e por semearem o germe de futuros bolsões de pobreza.

Tourinho será, do lado do capital, o responsável pela operacionalização do acordo tripartite assinado no dia 1º de março, em Brasília, pelas empresas, governo e centrais sindicais para aperfeiçoar as condições de trabalho na construção. “Eu não iria ficar de D. Quixote nisso. Senti o total apoio das empresas”, disse em entrevista ao Valor.

Embora historicamente ligado ao antigo PFL (hoje DEM) e ao grupo político do ex-senador Antonio Carlos Magalhães, morto em 2007, Tourinho recebeu no dia da assinatura do acordo o aval da petista, também especializada em energia, Dilma Rousseff. A presidente da República, que na crise de 2001 era secretária de Energia do Rio Grande do Sul, chamou Tourinho de “amigo” e disse que graças às suas ações preventivas “as consequências (do apagão) foram muito menores”.

Com avalista de tal porte, Tourinho ganhou confiança para buscar, na presidência do Sinicon, dois ambiciosos objetivos: fazer com que o trabalhador das grandes obras deixe o canteiro mais qualificado do que era no começo da empreitada. E conseguir que a comunidade em torno da obra chegue ao final mais próspera do que era no começo.

A mesa permanente, formada por representantes das três partes envolvidas, depende de uma portaria da Secretaria Geral da Presidência da República para ser formalmente instalada. Tourinho aguarda ainda para este mês a publicação do ato. Segundo ele, o fórum não vai tratar de reivindicações salariais, competência dos sindicatos de cada região, mas, fundamentalmente, das condições de trabalho, estopim da crise que explodiu em violência no canteiro da hidrelétrica de Jirau, Rondônia, no começo do ano passado.

Como a participação na mesa permanente dá-se por adesão, o ex-ministro sugere que o contratante, ao acertar a execução da obra, exija da construtora a adesão ao acordo. Seguindo ele, não haverá dificuldade para a adesão das grandes construtoras, devendo exigir maior esforço a atração das pequenas para o que se pretende seja o novo paradigma do trabalho na construção pesada no Brasil.

Tourinho disse que caberá ao Serviço Social da Indústria (Sesi) e ao Serviço Nacional de Aprendizado Industrial (Senai) a tarefa de disseminar o conhecimento nos canteiros de obras. O primeiro, à noite, cuidando do ensino formal aos operários, enquanto o Senai ficará encarregado do ensino profissionalizante ao longo do dia.

Quanto às relações com o entorno das obras, o ex-ministro propõe que sejam contratadas certificadoras independentes para atestarem se os compromissos assumidos pelos responsáveis pelas obras durante as audiências públicas com as comunidades próximas estão sendo efetivamente cumpridos.

Segundo os novos conceitos propostos por Tourinho, as grandes obras passariam a ser polos de irradiação de desenvolvimento para as regiões em torno delas. Seria a inversão de velhos e amargos exemplos históricos. O presidente do Sinicon que tanto na hidrelétrica de Jirau como na de Santo Antônio, também em Rondônia, já é assim.

Por: Chico Santos
Fonte: Valor Econômico 

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