Desmatamento ainda “não fugiu do controle”, diz pesquisador

Um sobrevoo pelos três canteiros de obras de Belo Monte exibe a abertura de clareiras, alojamentos de funcionários, caminhões e máquinas posicionadas e uma grande língua de terra avançando pelo Xingu. Trata-se da base do paredão que irá formar o reservatório no sítio Pimental. Nas margens do rio há muitos remanescentes florestais, mas também muitas pastagens e terras que já não têm mata alguma há muito tempo.

“No primeiro momento, o desmatamento não disparou em Altamira, na área do entorno de Belo Monte. Ainda não”, analisa Adalberto Veríssimo, pesquisador sênior do Imazon, instituto de referência em estudos sobre a Amazônia. “Embora tenha aumentado, não se pode dizer que o desmatamento seja explosivo, nem que fugiu do controle”, continua. “Mas eu diria que é cedo. As pessoas não estão chegando lá para desmatar, mas para trabalhar na obra.”

Veríssimo lembra que a análise do que ocorre em Rondônia, com as usinas do Madeira, é diferente. “Lá não há outra explicação além do efeito da hidrelétrica”, continua. Ele argumenta que os processos de desmatamento não acontecem tão rápido, e que o governo conhece a vacina – mecanismos de controle e criação de unidades de conservação. “Na região de Altamira, temo pelo pior, pelo aumento dos conflitos sociais e pelo desmatamento, mas torço para que não aconteça”, continua. “O governo sabe o que tem que fazer.”

No Plano Básico Ambiental (PBA), a Norte Energia sugeriu a criação de duas unidades de conservação como compensação ambiental, explica Valéria Saracura, superintendente de projetos dos meios físico e biótico da empresa. “A ideia é preservar o máximo possível e ter ambientes iguais aos que serão perdidos”, diz. Uma das áreas, contudo, foi solicitada pela Funai para a criação de terra indígena. A empresa está concluindo os estudos para apresentar uma área alternativa, informa.

“É uma obra de grande impacto direto, que já está a todo vapor e represando o rio, mesmo sem que todos esses impactos estejam resolvidos”, observou Marcio Astrini, da campanha Amazônia, do Greenpeace, no sobrevoo que a reportagem acompanhou. “Pode até se ter mexido no projeto de engenharia, mas a concepção de Belo Monte é de 20 anos atrás. Por isso gera tantos questionamentos”, diz. “Será que Belo Monte vai acabar só nessa usina, só nessa intervenção?”, questiona.

Em fevereiro, o Ibama multou o consórcio em R$ 7 milhões por não cumprir o cronograma de implementação do PBA da obra. A decisão se baseou em relatório de dezembro de 2011, quando os técnicos do instituto constataram atraso em nove condicionantes da usina. A Norte Energia apresentou defesa administrativa e o processo segue em análise.

“A opção energética que diz que, se não se tem hidrelétrica, então só pode ser térmica, não é verdadeira”, diz Ricardo Baitelo, coordenador da campanha de energias renováveis do Greenpeace, questionando o argumento do governo sobre a necessidade de aproveitar o potencial dos rios da Amazônia.

“Não é uma opção binária. É um negócio múltiplo.” Baitelo lembra que o conceito moderno de “smartgrid”, que apenas começa a ser discutido no Brasil, sugere que se gerencie melhor a demanda e o equilibrio dos diferentes tipos de energia.

Segundo o Ibama, o controle do desmatamento necessário para a execução da obra de Belo Monte (rotas de acesso e canteiros) tem respeitado as regras do Código Florestal, envolvendo a fiscalização de pátios de estoque e transporte do material retirado. Apesar de todo o desmatamento na construção da usina, o Ibama garante que haverá um aumento de reserva ambiental na região.

“Com a formação do reservatório, o Ibama exigiu a recuperação e preservação de uma faixa média de Área de Preservação Permanente de 500 metros de largura, ao passo que a anterior seria de 300 metros ao longo das margens do rio Xingu, já bastante antropizado em sua margem esquerda”, informou o instituto, por e-mail.

Fonte: Valor Econômico

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