Preço reduz competitividade das pequenas centrais hidrelétricas

Vistas como alternativas de menor impacto do que as grandes hidrelétricas, as pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) não passam por seu melhor momento. Nos últimos leilões de energia do governo, não houve negociação de nenhum megawatt proveniente dessa fonte, enquanto o mercado foi inundado de eólicas. O principal motivo é o preço da energia, menos competitivo que das eólicas. Enquanto hoje uma PCH só se viabiliza com a energia vendida a R$ 160/MWh, muitas eólicas negociam energia a valores na casa dos R$ 100/MWh.

As projeções futuras também não são animadoras. Hoje são 58 PCHs em construção, num total de 705 MW, segundo dados da Aneel. Muitas delas enfrentam problemas com licenciamento ambiental e é somente uma parte deve entrar em operação nos próximos anos. A previsão é que pelo menos 100 MW tenham alguma dificuldade para ter seus projetos viabilizados.

Há hoje em construção 59 eólicas, que vão adicionar ao sistema uma capacidade instalada de 1,5 GW. Grande parte desses projetos foi viabilizada nos últimos leilões da Aneel voltados para o atendimento do mercado cativo. Existem ainda outras 197 eólicas com outorga que não iniciaram a geração comercial num total de 5,6 GW contra 134 PCHs nesta mesma situação, mas que vão adicionar ao sistema, se saírem de fato do papel, apenas 1,8 GW.

O ritmo de entrada em operação dessas usinas vem caindo após 2008, quando houve o pico da entrada em operação desses empreendimentos. Naquele ano, foram instalados mais de 600 MW em PCHs. No ano passado, essa potência ficou na casa dos 400 MW. Para os próximos anos, a previsão da Aneel é decrescente – 370 MW em 2012, 181 MW em 2013, 36 MW em 2014 e 18 MW em 2016. Essa projeção não leva em conta usinas que ainda não iniciaram construção.

Para reverter esse quadro, o governo deveria adotar leilões de energia separados por fonte, opina o diretor de comercialização da Trade Energy, Luis Gameiro. “Seria interessante que o Ministério de Minas e Energia promovesse leilões separando as fontes, ou apresente pesos diferentes. É importante ter uma PCH com sazonalidade diferente de uma eólica, porque elas se complementam”, diz.

Gameiro avalia que as pequenas centrais foram impactadas pela isenção de impostos e a importação de equipamentos, que beneficiaram a indústria eólica. A crise europeia, que fez com que a demanda por aerogeradores no continente despencasse, também contribuiu, na medida em que aumentou a oferta de equipamentos para o Brasil a preços mais baixos.

No médio e longo prazos, o setor ainda enxerga possibilidades para as PCHs conquistarem seu espaço. O mercado livre seria uma saída. Nos últimos anos, isso vem ocorrendo através dos consumidores especiais, que compram energia de PCHs com desconto nas tarifas de transmissão e distribuição. Agora, a tendência é de que isso ocorra com novos empreendimentos.

Um dos cenários vislumbrados é a manutenção do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) – preço calculado pela CCEE para que geradores e consumidores liquidem diferenças na geração e no consumo contratados – em um patamar maior do que nos últimos anos,

Em 2011, o PLD esteve bem perto do nível mínimo a maior parte do tempo, devido ao nível de chuvas e a uma folga estrutural no sistema. Essa folga, contudo, está acabando na medida em que alguns dos projetos previstos estão atrasando. Além das sobras estruturais do sistema, há sinais de que alguns consumidores livres estão sobrecontratados e não têm o que fazer com essa energia porque a lei impede o repasse para terceiros. Com isso, há espaço para o PLD ficar em níveis elevados.

Por Carlos Silva
Fonte: Valor Econômico 

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