Presença estrangeira se combina com especulação

O maior produtor de soja do Brasil não é mais um brasileiro. Desde a safra passada (2010/2011), quem detém o posto é justamente a empresa argentina El Tejar, a mesma que a Famato denunciou às autoridades trabalhistas como possível exploradora de escravidão.

A El Tejar, que controla a empresa brasileira “O Telhar”, instalada no país há mais de oito anos, não confirma oficialmente a área plantada e a soma total da produção relativas ao período. Fontes do mercado asseguram, porém, que foram mais de 206 mil hectares de soja cultivada apenas no Mato Grosso e algo em torno de 680 mil toneladas produzidas do grão no ano agrícola que se encerrou em 2011.

Os números superam outro conhecido produtor que até então detinha o título de “rei da soja”: Eraí Maggi, do Grupo Bom Futuro, que na safra passada ocupou 178 mil hectares para produzir cerca de 577 mil toneladas de soja. Antes de Eraí, o senador e ex-governador Blaro Maggi (Amaggi), primo de Eraí, foi quem ocupou o posto, que permaneceu na família nos 10 anos anteriores que antecederam a supremacia argentina.

Por meio da “O Telhar”, a El Tejar, fundada há 23 anos na Argentina, mantém atividades em 21 unidades produtivas próprias no Estado. Na América do Sul, segundo dados da própria companhia, a El Tejar dispõe de uma área superior a 700 mil hectares (na Argentina, no Brasil, no Uruguai e também na Bolívia) de áreas compradas. À imprensa, a maior empresa produtora de grãos da América Latina reforça que tem a intenção de permanecer “pelo menos por 700 anos” nos mercados onde está instalada, inclusive no Brasil.

Baseado em terceirizações e em muitos arrendamentos, o modelo produtivo de “O Telhar” é bastante controverso. Mesmo sendo líder em plantio e produção de soja no país, a companhia mantém um quadro fixo de apenas 300 funcionários, que equivale, por exemplo. A 6% do conjunto de 5 mil funcionários do Grupo Bom Futuro. Com essa estratégia, os argentinos crescem em um ritmo avassalador que, além de incomodar a Famato, também já andou a receber críticas (inclusive de concorrência desleal) vindas da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado do Mato Grosso (Aprosoja).

Todavia, a gigante do agronegócio (que atua também no plantio de milho e algodão) também tem recebido reconhecimento. Javier Angio, argentino naturalizado brasileiro que responde pela operação brasileira da El Tejar, recebeu a láurea de cidadão honorário de Primavera do Leste (MT), onde está localizada a sede d’O Telhar, que costuma arrendar terras (obrigatoriamente sejam aptas a dupla safra) de terceiros pelo prazo de um a seis anos.

Outro grupo argentino que vem atuando com vigor no Mato Grosso é o Los Grobo, de Gustavo Grobocopatel. O Los Grobo, que tem uma parceria com um fundo de investimento nacional (Pactual Capital Partners) e adquiriu empresas brasileiras (Ceagro, Selecta etc.) aposta, no Mato Grosso, em campos de produção de soja em Nova Xavantina (MT), Querência (MT) e Canarana (MT). Na safra 2010/2011, o grupo contou com uma área plantada de cerca de 300 mil hectares em países do Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai). Estima-se o faturamento do grupo em US$ 700 milhões, dos quais metade viria de terras brasileiras, escolhidas como foco principal para o grupo. No final de janeiro de 2012, a Los Grobo Ceagro anunciou que vendeu 20% de seu capital social para o conglomerado japonês Mitsubishi.

Informações divulgadas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) ainda em 2010 revelaram o Estado de Mato Grosso é o que tem a maior porcentagem da área explorada por estrangeiros no país – que chega a 4,35 milhões de hectares, o que equivale a 0,47% do território nacional ou a extensão de todo Rio Grande do Norte. Desse total, 20% (cerca de 844 mil hectares) estavam no Mato Grosso. Em seguida, apareciam São Paulo (13,5%) e Mato Grosso do Sul (11,7%), que tem sido palco de seguidos e constantes casos de violência contra indígenas do povo Guarani.

Cassino financeiro

Outro traço bastante comum nas monoculturas do agronegócio (não só na soja, mas na cana, entre outras) é o entrelaçamento com o setor financeiro e, inevitavelmente, da intrínseca especulação a ela associada. Além do suporte de investidores de fundos (tanto no caso da El Tejar como da Los Grobo), algumas grandes empresas do agronegócio brasileiro possuem ações negociadas diretamente na BM&FBovespa – casos, por exemplo, da Vanguarda Agro e da Agrenco.

Intensas disputas acionárias e jurídicas se deram, no início de 2012, em torno da Vanguarda Agro (VAGR3). A queda de braço entre o banco BTG Pactual, Otaviano Pivetta – produtor, ex-deputado estadual (PDT) e ex-prefeito do município de Lucas do Rio Verde (MT) e empresas e fundos de investimento bilionários – entre eles o Veremonte, do espanhol Enrique Bañuelos – dá uma noção das “generosas” fatias do “bolo” que está sendo disputado.

O caso da Agrenco (AGEN11) mostra, por sua vez, os perigos por trás dessa junção entre agronegócio e especulação financeira – e fundiária. Em janeiro de 2012, as ações da empresa, que mantinha duas usinas (inclusive com produção de biodiesel) – uma em Alto do Araguaia (MT) e outra em Caarapó (MS) -, experimentaram uma guinada espetacular de 147% em um único dia (04/01), mais que dobrando de valor, mesmo com a já conhecida situação complicada da empresa em termos econômicos e jurídicos. No final de novembro do mesmo ano, a Agrenco teve de demitir 85% de seus funcionários e suspendeu o funcionamento das duas plantas industriais no Centro-Oeste.

Por Antônio Biondi e Maurício Hashizume
Fonte: Repórter Brasil*

O texto faz parte do Especial “Mapa Social” divulgado hoje pela Repórter Brasil e que apresenta reportagens que tratam de cada uma das cinco regiões do país sob perspectivas singulares e, ao mesmo tempo, complementares.

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