Ambientalistas arriscam a vida pela salvação do meio ambiente no Brasil

Vista aérea da construção da usina de Belo Monte, no Brasil, e os efeitos do projeto no meio ambiente

Na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, nesta semana, no Rio de Janeiro, o Brasil pretende apresentar-se como um país modelo no que se refere ao meio ambiente. Mas a devastação ambiental generalizada continua na Amazônia, uma região na qual os ambientalistas são ameaçados por pistoleiros.

Ela removeu o seu colete à prova de balas e os soldados de elite designados para protegê-la partiram. Em troca, Nilcilene Miguel de Lima, 45, teve que prometer às autoridades que manteria sigilo quanto à sua localização e que não retornaria à sua região nativa, na floresta amazônica brasileira, onde um pistoleiro contratado estava à espreita para assassiná-la.

Um grupo mafioso de comerciantes de madeira e pecuaristas ofereceu uma recompensa equivalente a 8.000 euros (US$ 10,8 mil) pela morte desta mulher. Ela é a presidente da Deus Proverá, uma associação de agricultores e seringueiros do sul do Estado do Amazonas, onde madeireiros e ambientalistas estão em pé de guerra. Nilcilene teve a audácia de denunciar à justiça a atividade de extração ilegal de madeira.

Cinco anos atrás, o governo assentou 300 famílias na floresta, onde elas estão conduzindo um dos 21 projetos para promover a exploração sustentável da região amazônica. Os colonos retiram o látex das seringueiras, coletam castanhas-do-pará e plantam abacaxi, banana e mandioca. “Nós somos os guardiões da floresta”, afirma Nilcilene Miguel de Lima. As famílias moram a 42 quilômetros de distância da estrada federal mais próxima. Na selva elas carecem de eletricidade, da escola que lhes foi prometida, de assistência de saúde e de proteção policial.

Os madeireiros e os pecuaristas estão se aproveitando da ausência do governo na região. Eles dividem a floresta em várias áreas, falsificam as escrituras e usam armas para expulsar os pequenos agricultores. Dezenas de famílias já fugiram da região, abandonando as suas terras ou vendendo-as aos latifundiários. “Se Nilcilene retornar ela será assassinada”, afirma o companheiro dela, Raimundo Alexandrino de Oliveira.

“Lista de atrocidades”

Na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável Rio+20, que teve início na última quarta-feira (20), o Brasil, que é o país anfitrião, pretende se apresentar como uma nação moderna, promissora e ecologicamente consciente. Um pacote inteiro de projetos para a proteção do meio ambiente foi criado com o objetivo de demonstrar que o país se constitui em um modelo de desenvolvimento sustentável. No Dia Mundial do Meio Ambiente, a presidente Dilma Rousseff participou de uma entrevista coletiva à imprensa usando um vestido verde, e gabou-se de que o desmatamento no Brasil despencou para um nível historicamente baixo.

Mas os especialistas dizem que essa iniciativa ambiental do Brasil não passa de propaganda. “Após a conferência, o governo irá implementar uma lista inteira de atrocidades ambientais”, avisa Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente. “O governo está eliminando sistematicamente a legislação ambiental que nós implementamos nos últimos 24 anos”.

Oito grandes organizações ambientais e sociais uniram forças para elevar a consciência pública em relação aos problemas. Elas acusam Dilma Rousseff de ser responsável pelo “maior retrocesso na área de política ambiental desde o fim da ditadura militar em 1985”.

Uma reforma do código florestal do país concede anistia a madeireiros ilegais. No futuro, fazendeiros da região amazônica terão permissão para desmatar 50% das suas terras, contra os atuais 20%. Além disso, o governo está acelerando a construção de centenas de represas na região. Isso provocará o alagamento de milhares de quilômetros quadrados de floresta e destruirá aldeias nativas e assentamentos agrícolas.

Dilma Rousseff reduziu grande parte dos poderes da agência ambiental brasileira. O governo deseja acelerar grandes projetos, permitir a mineração em reservas indígenas e construir novas estradas. A regulamentação da posse de terra, o maior problema na região amazônica, caminha a passos de tartaruga. Enquanto isso, fazendas que foram criadas ilegalmente são compradas e vendidas na Internet.

As reservas de moeda estrangeira obtidas com a exportação de carne e soja se constituem em um dos pilares do milagre econômico brasileiro, e isso explica porque a presidente Dilma Rousseff cede sistematicamente à vontade do poderoso lobby agropecuário. Mas o Brasil não precisa de novas pastagens ou da abertura de novas terras agrícolas, argumenta Marina Silva, a ex-ministra do Meio Ambiente. “Nós poderíamos dobrar a nossa produção caso cultivássemos as áreas existentes de forma mais intensiva”, explica ela.

“Crimes não são punidos”

Mas destruir a floresta é mais barato e lucrativo, especialmente porque essa atividade geralmente não é punida. A destruição segue sempre o mesmo ciclo: primeiro os madeireiros cortam as árvores mais valiosas e, a seguir, derrubam o restante da vegetação com tratores ou simplesmente fazem queimadas. Após a destruição da selva, eles plantam capim, e logo as primeiras cabeças de gado podem ser vistas vagando em meio aos tocos de árvores derrubadas. As fazendas de soja também estão avançando sobre certas áreas da Amazônia.

Fazer frente aos latifundiários pode ser muito perigoso. No ano passado, 29 pessoas foram assassinadas no Brasil devido a disputas agrárias. “Os crimes não são punidos”, lamenta Francineide Lourenço, da Comissão Pastoral da Terra em Manaus, uma organização vinculada à igreja. Os funcionários da organização ambiental Greenpeace só se deslocam pela selva em veículos utilitários esportivos (SUV) blindados.

No ano passado, 49 ativistas do meio ambiente e pequenos proprietários de terra foram ameaçados de morte apenas no Estado do Amazonas. O governo colocou policiais armados à disposição de três deles, incluindo Nilcilene Miguel de Lima.

Esta mulher de estatura baixa saúda os visitantes na sua casa que fica a mais de mil quilômetros da sua região nativa. Ela toma calmante, e os seus olhos enchem-se de lágrimas de revolta enquanto conta a sua história. “Eles queimaram a minha propriedade”, diz ela, mostrando fotos dos restos carbonizados da sua residência.

Ela fugiu da região um ano atrás, depois que um pistoleiro contratado pelos latifundiários e madeireiros descobriu o seu paradeiro. O governo ofereceu a ela uma escolta armada da Força Nacional, ou Força Nacional de Segurança Pública, uma unidade especial compostas de soldados da força armada e policiais. Nilcilene retornou em novembro, sob a proteção de nove soldados, e usou um colete à prova de balas dia e noite. “Não adianta usar colete. Nós atiramos na cabeça”, ameaçou depois disso a máfia de madeireiros e latifundiários.

Na sua ausência, as fazendas de gado aproximaram-se da propriedade dela. Os fazendeiros bloquearam as estradas com cercas e destruíram as seringueiras.

Mas Nilcilene Miguel de Lima recusou-se a se deixar intimidar. Os pais dela eram seringueiros, e ela vem da mesma área que Chico Mendes, um ativista ambiental e seringueiro que foi assassinado por dois fazendeiros em 1988, quatro anos antes da primeira conferência do meio ambiente da Organização das Nações Unidas (ONU) no Rio de Janeiro. A morte dele fez com que fosse desencadeada uma companha de âmbito mundial contra o desmatamento, mas os seus assassinos encontram-se novamente em liberdade.

Os guarda-costas ficaram com medo

Dinhana Nink, uma amiga de Nilcilene Miguel de Lima, foi executada a tiros em abril último. “Ela era proprietária de um barzinho que funcionava como ponto para troca de informações, e ela conhecia os planos e as rotas de madeireiros e latifundiários”, explica Nilcilene. “Ela desejava denunciá-los à polícia”. Os assassinos de Nink chegaram ao amanhecer. Quando o pai dela a encontrou horas depois, o filho dela estava enxugando o sangue do peito da mãe.

Pouco dias depois da morte de Nink, um homem armado pilotando uma motocicleta posicionou-se em frente ao esconderijo de Nilcilene Miguel de Lima. Os guarda-costas dela ficaram com medo e a obrigaram a deixar a região. “Os madeireiros mataram um boi para comemorar”, diz Nilcilene.

Enquanto isso, a devastação continua como sempre. Pecuaristas estão penetrando mais profundamente na região sul do Estado do Amazonas, e caminhões carregados de soja passam pela BR-364, o último segmento da famosa rodovia Transamazônica. O governo financiou a construção da estrada até perto da fronteira peruana. Ela conecta o Brasil a portos no Oceano Pacífico.

Fazendas de gado e terras devastadas podem ser vistas dos dois lados da estrada, e os restos queimados de castanheiras são a única coisa que faz lembrar que antigamente esta área era coberta pela selva. A capital do Estado de Rondônia, Porto Velho, às margens do Rio Madeira, um afluente do Rio Amazonas, era no passado um sonolento vilarejo no meio da selva. Mas atualmente as caminhonetes de filhos de fazendeiros fazem fila à noite em frente ao Broadway Bar, um clube noturno local.

A cidade é cercada de acampamentos de trabalhadores a perder de vista. Migrantes de todo o Brasil se deslocaram para Porto Velho, onde eles estão trabalhando na construção das represas de Santo Antônio e de Jirau, duas gigantescas usinas hidroelétricas. Milhares de hectares de florestas e terras ao longo do Rio Madeira serão inundados nos próximos anos.

Caminhões de madeira a cada 15 minutos

Em Vista Alegre, a alguns quilômetros do assentamento de Miguel de Lima, os caminhões de madeira emergem da floresta a cada 15 minutos, acompanhados por uma escolta de motociclistas armados. Os motoristas usam rádios para anunciarem a sua chegada.

As toras de madeira são transformadas em tábuas em serrarias ilegais no entorno da cidade, e o restante da madeira é deixado a apodrecer na lama. “Eles forjam documentos falsos para a madeira, que é transportada para o sul”, diz Nilcilene Miguel de Lima. As árvores gigantescas da Floresta Amazônica acabam servindo de madeira para construção na megacidade de São Paulo.

Enquanto isso, as bananas estão apodrecendo na propriedade de Nilcilene Miguel de Lima, e o mato cresce desimpedido sobre as ruínas carbonizadas da sua casa.

A Anistia Internacional lançou uma campanha mundial para denunciar o caso de Nilcilene, e o governador de Manaus recebe todos os dias cartas do mundo inteiro. Ela sonha em retornar, e fala por telefone com os seus aliados na floresta sempre que possível.

Enquanto isso, os ambientalistas estão esperando obter ajuda da distante Noruega. O governo norueguês disponibilizou US$ 1 bilhão para o “Fundo da Amazônia” para a proteção da floresta. Na conferência das Nações Unidas no Rio de Janeiro, essa nação escandinava produtora de petróleo apresentará o projeto como um modelo para a preservação sustentável da Floresta Amazônica.

Por: Jens Glüsing
Fonte: Portal UOL

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3 comentários em “Ambientalistas arriscam a vida pela salvação do meio ambiente no Brasil

  • 10 de outubro de 2012 em 10:17
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    Moro em minas gerais, e aposto que muita gente do resto do Brasil não tem idéia do que acontece na Amazônia. As vezes penso se compensa o Brasil continuar a cuidar da segurança dessa região…está na cara que o único interesse é financeiro, dane-se a idéia de preservação. Acredito que devería-se deixar nas mãos de quem realmente pensa no meio ambiente.

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  • 21 de janeiro de 2014 em 1:12
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    UM DESCASO COMO PODER eSSES GOVERNANTES DE MERDA AMazonia e do brasil kkk,esses gringos de merdA JA SE ACHAO DONOS DA AMAZONIA CADE UM PATRIOTA QUE LEVANTE A BANDEIRA FAZER LOGO A BOMBA ATOMICA POVO BRASILEIRO ACORDA KKK OU BRASIL VAI VIRAR, COLONIA DOS ESTADOS UNIDOS

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