Brasil tenta reverter percepção de fracasso

O Brasil fez ontem uma tentativa de reverter a imagem de fracasso da Rio+20 depois de reações negativas no exterior e também por parte de organizações não-governamentais, insatisfeitas com o texto, considerado de baixa ambição e sem nenhum compromisso novo relevante. “Não se pode ter ambição de ação se não há ambição de financiamento”, disse o embaixador Luiz Alberto Figueiredo Machado, secretário-executivo da Comissão Nacional da Rio+20. “Quem exige isso está sendo, no mínimo, incoerente”.

Foi uma resposta do principal negociador brasileiro às críticas da União Europeia de que o documento-base da Rio+20 é pouco ambicioso. Mais do que isso, foi a tentativa brasileira de desfazer a ideia predominante no Riocentro de que a conferência fracassou.

As negociações entre os 193 países das Nações Unidas na conferência do Rio poderiam ter se estendido mais, o que tiraria a imagem de que o Brasil queria chegar à cúpula com a lição feita, mesmo se às pressas, diz um diplomata internacional. “A impressão é que o Brasil quer algo na Rio+20 sem drama.”

Figueiredo e a ministra brasileira do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, se esforçaram, em entrevista, em mostrar aspectos positivos do documento. A intervenção de Izabella começou com a leitura de manchetes feitas pelos jornais depois da Rio92, e que falavam em fracasso da conferência — hoje considerada um marco nas negociações internacionais.

“A Rio+20 não é uma conferência que tenha fracassado. Ela assegura um documento, sinaliza novos caminhos de debate e de convergência da agenda de desenvolvimento sustentável e mantém os princípios de 1992”, disse Izabella. Ela afirmou que o documento adota a decisão de estabelecer um novo critério para mensurar a riqueza considerando aspectos ambientais e sociais. E indicou ainda que o texto adota um plano marco de dez anos sobre produção e consumo sustentáveis.

As organizações não-governamentais reagiram, porém, com ceticismo ao documento. “O problema fundamental é que o texto não contém nenhum compromisso novo com grande significado. Não há nada que indique que os governos vão fazer algo diferente na próxima semana”, disse Antonio Hill, porta-voz da Oxfam International para a Rio+20.

Um exemplo da natureza frouxa do texto, segundo a Oxfam, está na parte que trata de alimentos. Há ali referências a muitas prioridades, mas o documento apenas reconhece e enfatiza a importância desses temas. “A única palavra operativa nessa seção diz que se resolve aumentar investimento para a produtividade agrícola, mas não especifica. Então não sabemos se é para biocombustíveis, palma africana ou outra coisa”, disse Hill.

Ele afirmou que nesse capítulo também não há referência à agricultura familiar, tema importante para resolver o problema da segurança alimentar. “Esse é, portanto, apenas um exemplo da falta de compromisso político desta conferência.”

Desde segunda-feira, circularam no Riocentro rumores segundo os quais o Brasil poderia tentar fazer uma emenda ao texto mediante uma declaração, a ser aprovada pela conferência, e que poderia dar maior ênfase a pontos do documento que os chefes de Estado considerassem mais importantes como mensagem para o mundo. Seria uma forma de dar maior clareza e foco ao texto tão criticado pela sociedade civil.

O governo brasileiro, via Itamaraty, se apressou em desmentir essa hipótese: “O entendimento político é que esse é o texto, o texto que está negociado e concluído”, disse em entrevista o embaixador Luiz Alberto Figueiredo Machado. O principal negociador brasileiro na Rio+20, o embaixador André Correa do Lago, disse ao Valor que não haverá qualquer emenda ao texto da conferência. “O documento é o que está aí”, afirmou. O texto da Rio+20 deverá ser adotado pelos chefes de Estado na sexta-feira.

Por: Daniela Chiaretti e Francisco Góes
Fonte: Valor Econômico

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