Futuro incerto

A receita para o Brasil manter-se como superpotência mundial em biodiversidade e transformar esse patrimônio em oportunidade de negócios parece feita de vários ingredientes. Um pouco de cada foi apresentado segunda-feira no Forte de Copacabana, na zona sul do Rio, por gestores públicos, ambientalistas, representantes de organizações empresariais e pesquisadores do processo histórico de desmatamento do país. Reunidos em três seminários do fórum Humanidade 2012, centrados em temas como preservação e valoração de riquezas como a Amazônia, eles desfilaram conhecimentos sobre o que pode ser feito para compatibilizar sustentabilidade ambiental e negócios.

“Lideranças empresariais de todo o mundo já identificaram pelo menos quatro áreas de recursos naturais do Brasil interessantes para fazer negócios”, disse Margaret Adey, representante da Plataforma de Líderes para o Capital Natural da Universidade de Cambridge, da Inglaterra. “O desafio no Brasil é manter um crescimento econômico sustentável por longo prazo sem degradar os recursos naturais”, afirmou Helena Pavese, diretora de relações corporativas da Conservação Internacional (CI) no Brasil. “Temos que olhar a Amazônia não só pela natureza, mas também pelas pessoas”, defendeu Craig Hanson, diretor do World Resources Institute (WRI). “Nos padrões atuais de desenvolvimento dos negócios no país, a área degradada da Amazônia passará de 20% para 50% em 20 anos”, alertou Maria Cecília Wey de Brito, secretária-geral da organização ambientalista WWF-Brasil.

Pelos menos dez palestrantes analisaram números sobre o potencial econômico da biodiversidade brasileira no evento paralelo à Cúpula das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável promovido pelas federações das indústrias de São Paulo (Fiesp) e do Rio de Janeiro (Firjan). Indicadores que apontam para os riscos que a degradação ambiental no Brasil pode representar para o colapso do planeta também não faltaram. A Amazônia, que estoca 120 pentagramas (mais de 120 bilhões de toneladas) de carbono e regula o clima da região, é também o foco de processos de desmatamento responsáveis pela emissão de cerca de 750 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera.

“A degradação ambiental, segundo estudo internacional, pode ter limitado o crescimento econômico do Brasil a 3% desde 1990, contra os 34% registrados quando se considera apenas o Produto Interno Bruto”, disse Helena Pavese, da Conservação Internacional, no seminário “O Valor Econômico e Social da Biodiversidade”. O relatório “Teeb (The Economics of Ecosystems and Biodiversity/A Economia dos Ecossistemas e Biodiversidade) para o setor de negócios brasileiro”, coordenado por ela e apresentado na Rio+20, aponta que o valor econômico global da biodiversidade é estimado em US$ 33 trilhões. O trabalho informa ainda que o país perde US$ 108 por hectare desmatado ao ano na Amazônia, de acordo com o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea). “Atribuir um valor à biodiversidade nos negócios, tornar o invisível visível, é muito importante”, completou.

“Se a gente continuar gastando os recursos naturais, não vai poder considerá-los como ativos”, afirmou Margaret Adey, da Plataforma de Líderes para o Capital Natural. O projeto tenta identificar boas oportunidades de negócios e desenvolver ferramentas práticas de controle de situações críticas e de valorização da biodiversidade, embora o patrimônio ambiental nem sempre possa ser traduzido em valor monetário. “Estou empolgada de estar no Rio porque também vieram lideranças empresariais interessadas em algumas áreas de negócios.”

A necessidade de lançar um foco diferenciado sobre a Amazônia, como território com o maior patrimônio ambiental do Brasil e potencial equivalente para os negócios com recursos naturais, foi quase unanimidade entre os palestrantes do fórum Humanidade 2012. Os riscos da ocupação urbana e da ampliação das fronteiras agrícolas, que poderiam duplicar a degradação da região em duas décadas, podem ser agravados por mudanças na legislação de preservação ambiental.

“Se o Congresso Nacional fizer o que alguns parlamentares pretendem se perderão 5 milhões de hectares de áreas hoje protegidas”, alertou Maria Cecília Wey de Brito, da WWF-Brasil, no seminário “A Preservação da Amazônia no Contexto da Sustentabilidade”. Em nenhum lugar do mundo existem mais espécies de animais e de plantas que na Amazônia. Apesar de toda essa riqueza, os especialistas acreditam que pouco se sabe sobre a biodiversidade da região. A cada três dias uma nova espécie é descoberta. A Amazônia estoca um quinto da reserva de água potável do planeta e 45% da água subterrânea do Brasil. “Não podemos olhar a Amazônia apenas pela biodiversidade ou pelos planos de expansão agrícola porque ela é também território de boa parte da água do planeta, de reservas de minérios, de povos e culturas.”

“É preciso focar na Amazônia para além da biodiversidade”, endossou o americano Craig Hanson, do World Resources Institute. Segundo ele, o mundo hoje já olha para a região de três formas diferentes. A primeira parte das empresas, que já teriam percebido que a Amazônia e outros ecossistemas brasileiros são importantes para a diversificação e ampliação de seus negócios. A segunda visão aponta para o fato de que as áreas degradadas da região também podem ser recuperadas em projetos sustentáveis para alimentar a população do planeta que logo chegará a 9 bilhões de pessoas. O terceiro olhar é o da transparência. Muitos países da Europa se preocupam em saber se a madeira que importam da Amazônia foi derrubada legalmente. Nos Estados Unidos a questão é se as commodities agrícolas que chegam da região não foram plantadas em áreas desmatadas. “A transparência é algo que os governos querem e as empresas também”, disse Hanson. “Transparência é essencial e indispensável ao desenvolvimento sustentável da Amazônia.”

Por Paulo Vasconcellos
Fonte: Valor Econômico

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