‘Não deram explicações’, diz moçambicano barrado ao tentar entrar no país para Rio+20

Barrado no aeroporto em São Paulo ao tentar ingressar no Brasil para participar da Rio+20, o ativista moçambicano Jeremias Vunjanhe diz à BBC Brasil que não foi informado do motivo do impedimento e que espera solucionar o caso a tempo de participar da conferência.

Vunjanhe integra a ONG Justiça Ambiental, que tem criticado a atuação da mineradora brasileira Vale em Moçambique, e divulgaria suas queixas na Cúpula dos Povos, evento paralelo à conferência da ONU.

“Insisti aos policiais por uma explicação, mas só me disseram que estavam a trabalhar e que tinham competência para tomar a decisão (de impedir a entrada)”, afirma o ativista.

Vunjanhe diz que portava toda a documentação necessária para ingressar no país: visto válido por 90 dias, adquirido na embaixada brasileira em Maputo, carta-convite da Cúpula dos Povos e comprovante de hospedagem.

Segundo ele, os problemas se iniciaram quando, às 22h30 do último dia 12, apresentou seu passaporte no guichê da Polícia Federal, logo após desembarcar advindo de Joanesburgo (África do Sul) no Aeroporto Internacional de Guarulhos, na Grande São Paulo.

Após escanear seu documento, diz o ativista, a agente chamou um policial, que repetiu o procedimento e pediu que ele esperasse. Após 30 minutos, o policial retornou com dois colegas.

“Disseram que eu seria reenviado a Moçambique porque eu estava impedido de entrar no Brasil. Perguntei por quê, mas não me deram detalhes.”

Razões

Caso consiga regressar ao Brasil, Vunjanhe diz que exporá a atuação da Vale na província moçambicana do Tete, onde a companhia brasileira explora uma das maiores minas de carvão a céu aberto do mundo.

A abertura da mina ocorreu em 2011, após o reassentamento de 1.365 famílias de agricultores. O ativista diz que as famílias foram deslocadas para uma área distante de serviços básicos e mercados, a 40km do território onde viviam, e que a Vale não tem cumprido o prometido durante as negociações para a exploração da mina.

Segundo ele, as casas foram erguidas de maneira grosseira, com apenas 6 centímetros de fundação. “Três anos após a construção, elas já apresentam fissuras que permitem a inflitração de água, e algumas poderão desabar a qualquer momento.”

Vunjahne diz ainda que as famílias foram deslocadas para terreno muito seco e impróprio para agricultura, atividade da qual a comunidade depende para se sustentar.

Em janeiro, em protesto contra as condições, os moradores fecharam a ferrovia pela qual a Vale escoa o carvão até o porto da Beira, no Oceano Índico.

O governo moçambicano, em resposta, enviou uma força policial especial para desbloquear a linha. Segundo Vunjanhe, a unidade agiu com brutalidade.

Indignação

Após o episódio, a Justiça Ambiental, organização integrada pelo ativista, divulgou imagens da ação policial e depoimentos que comprovariam os abusos cometidos.

“Fomos intimidados e perseguidos durante o trabalho junto a essas famílias”, diz Vunjanhe. “Chegamos a ser levados à esquadra (delegacia) para esclarecimentos, o que constituiu claramente um sinal de ameaça.”

Vunjanhe diz não saber se há relação entre sua atuação contra a Vale e o fato de ter sido barrado ao no Brasil.

“Não temos evidência, mas como o foco da minha apresentação (na Rio+20) seria o caso da Vale, é preocupante o que ocorreu. A falta de explicação nos deixou indignados.”

Procurada pela BBC Brasil, a Polícia Federal não se pronunciou sobre o caso. Um assessor disse à reportagem que a “instituição não se manifesta sobre a detenção de pessoas físicas”.

A Vale também afirmou que não comentaria o caso.

Fonte: BBC Brasil

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