Retorno econômico é fundamental

Depois de anos de luta pela preservação da floresta na coordenação da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), Virgílio Viana está mais convencido do que nunca de que a exploração sustentável na região só pode ser viável se for demonstrado do ponto de vista econômico que a preservação é mais vantajosa do que o desmatamento.

E isso só vai acontecer quando a sustentabilidade deixar de ser restrita a áreas em que a relação é imediata (consumo local de produtos da floresta) e passar a ocupar espaço maior nas cadeias produtivas. “A transformação desse conceito em realidade não é fácil, existem entraves tecnológicos, tributários e legais, mas podemos contabilizar alguns avanços”, afirma.

Virgílio Viana cita como exemplo positivo a produção de borracha, que ganhou impulso com o programa de subvenção econômica do governo do Amazonas para cooperativas e associações de extrativistas. Por esse programa, o quilo da borracha passa a ter um preço mínimo de R$ 4,50, sendo outro R$ 1,00 da subvenção federal e R$ 2,50 pagos pelos usineiros. A proposta é ampliar de 18 para 29 o número de municípios que integram a cadeia produtiva da borracha e evoluir de 1,7 mil para 10 mil produtores cadastrados.

Atualmente, a produção dos seringueiros dos 18 municípios que trabalham na cadeia produtiva da borracha tem registrado uma média de 800 toneladas ao ano. A expectativa é alcançar 5 mil toneladas/ano até 2014. Isso porque a produção agora tem um destino certo: a fábrica Levorin Pneus, no polo de duas rodas de Manaus, que foi inaugurada em fevereiro com o compromisso de comprar a matéria-prima do Amazonas.

A unidade da empresa tem demanda de produção inicial de 300 toneladas de borracha por mês e planos para produzir, quando estiver funcionando em plena capacidade, 700 mil pneus de bicicleta e 100 mil pneus de motocicletas mensalmente.

A Levorin recebe a borracha produzida pelas famílias por intermédio das usinas que foram instaladas nos municípios de Iranduba e Manicoré e têm capacidade de processamento de 600 e 300 toneladas por mês, respectivamente. “É importante que se diga que o programa não implica apenas pagamento em dinheiro, é investimento na floresta em pé”, afirma Viana.

A ideia é identificar o produto, tanto com a floresta como com o seringueiro, por meio de um selo de origem amazônica. Se der certo, poderá ser ampliado para outros produtos em que a borracha esteja presente.

O programa de apoio do Estado conta com a colaboração da FAS, que mantém o compromisso de investir no Bolsa Floresta, um auxílio financeiro destinado a estimular a geração de renda por meio da produção sustentável nas unidades de conservação do Estado. As famílias que participam do programa recebem um complemento de renda mensal para continuar preservando a floresta. Já as comunidades que trabalham com produtos regionais de maneira sustentável – como o extrativismo e beneficiamento de borracha – também recebem um subsídio.

No caso da extração do látex, o Bolsa Floresta articula com as associações agroestrativistas dos municípios o desenvolvimento de infraestrutura, capacitação e o contato direto para comercializar a produção pelo qual também recebem pagamento.

Da mesma forma, a FAS participa de outras oportunidades de negócios verdes na região, como a cadeia produtiva de castanha do Pará e do pirarucu, comercializados mediante um acordo assinado com o Grupo Pão de Açúcar; a andiroba fornecida como insumo para a fabricação de cosméticos da Natura; e, mais recentemente, o cacau, que começa a ser utilizado na fabricação de chocolate para a merenda de escolas públicas, por meio do programa de incentivo à aquisição de gêneros alimentícios produzidos em âmbito local da Agência de Desenvolvimento Sustentável da Amazônia.

Fonte: Valor Econômico

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