Alternativa ao desmatamento zero

A advogada Fabíola Zerbini é a defensora de uma causa da qual dependem todos os seres vivos do planeta: a preservação das florestas. Ela é a secretária-executiva do Conselho Brasileiro do Manejo Florestal – FSC Brasil, uma ONG cuja imagem mais visível está estampada nas embalagens de alimentos à venda nos supermercados. A imagem menos visível está nos seis milhões de hectares de florestas certificadas pelo FSC hoje no Brasil. Nestas florestas, é permitida a extração da madeira. Só que ela é feita de forma controlada, de maneira que a floresta tenha tempo para repor o que foi extraído. Para Fabíola Zerbini, o manejo florestal é a alternativa mais racional ao desmatamento zero, embora ela mesma admita que há áreas em que a floresta deve ser intocável. Para a secretária-executiva do FSC Brasil, que é apenas um dos 60 escritórios que a organização tem distribuídos por todo o mundo, proporcionalmente em relação à sua riqueza florestal, o Brasil tem um percentual muito pequeno de áreas certificadas. Este, segundo ela, é um dos grandes desafios que o FSC tem pela frente. O outro, de acordo com Fabíola Zerbini, é fazer com que o consumidor passe a exigir produtos com o selo da organização.

Quais foram os principais avanços obtidos pelo FSC na preservação das florestas brasileiras desde sua criação?

O FSC nasceu como uma resposta a uma demanda que se configurou muito forte na década de 80 que era de dar estímulo econômico para a preservação das florestas. O FSC nasceu como uma ferramenta que junta três pilares – o econômico, o social e o ambiental – e faz isso de uma forma muito simples, na medida em que reconhece e comunica para a sociedade quais são os produtos que vêm de florestas que olham para estes três aspectos. Ao fazer isso, começa a dar valor econômico para as florestas, o que é fundamental para mantê-las de pé, sem tirar o seu valor ambiental e social. O FCS não criou o manejo de florestas. Apenas reconhece o bom manejo.

Qual a área total de florestas certificadas que o Brasil tem hoje?

São seis milhões de hectares de florestas certificadas, dos quais mais ou menos três milhões são de florestas nativas e 3,5 milhões de florestas plantadas.

Estas florestas estão em que regiões do país?

Cem por cento das florestas nativas estão na Amazônia, em todos os estados da região. As plantadas estão concentradas em três estados: São Paulo, Paraná e Bahia.

A face mais visível do FSC é a da indústria de papel. Este é o setor que mais áreas florestais certificadas possui hoje o país?

O FSC certifica todos os recursos florestais. E o papel é um deles, ao lado de produtos como móveis, casas, óleos, cosméticos, enfim, tudo aquilo que vem das florestas. Mas o mercado que estourou e que representa a força do FSC é o de papel e celulose, que abraçou a certificação como parte de seu modo de operação.

Qual o percentual de certificação das florestas destinadas à produção de papel e celulose?

Quase 70%. Não são apenas as florestas que são certificadas. As empresas de papel também são. Todas as maiores do setor têm o selo, mas nem todas compram apenas matéria-prima certificada. Nem toda a cadeia produtiva do setor está certificada, mas esta é uma tendência irreversível. Sempre vai haver no mercado papel não certificado. Porém, é um diferencial negativo não ter o selo. Hoje, a certificação é um padrão mínimo de operação da indústria de papel e celulose, fato que eu considero um tremendo ganho para o setor como um todo. Melhorar as práticas ambientais e sociais dever ser um exemplo para todos, não apenas a indústria de papel e celulose. É preciso entender a certificação não como algo elitizado ou distante de nossa realidade, mas como algo que exige uma nova forma de produzir, que não vai trazer custos, mas novas preocupações. Não é um ônus, mas um bônus, abrindo portas para outros setores fazerem o mesmo.

O consumidor já procura pelo selo do FSC quando aquire algum produto de origem florestal?

Não. Ainda temos muito o que fazer nesse campo. A grande força motriz do aumento da matéria-prima certificada no Brasil é a indústria, que, por sua vez, é quem tem acesso ao consumidor. É, por exemplo, a Tetra Pak, que decidiu que até 2015 terá todo o seu papel certificado, da mesma forma que a Sadia ou a Batavo vão associar suas marcas a embalagens que usam o selo do FSC. Assim, quem está na ponta desse processo é o setor empresarial. Ainda é o business que o impulsiona. O consumidor, no caso do FSC, tem dificuldade de entender que o que está sendo certificado é a embalagem, não o conteúdo que está dentro dela. Há uma confusão em relação ao que está sendo certificado. Cabe, nesse ponto, um mea-culpa do FSC. Precisamos fazer campanhas que expliquem o que é o selo e por que é bacana as empresas estarem apoiando a certificação. O consumidor sabe muito pouco sobre o FSC. E cabe a nós mudar essa realidade. E isso só vai ser resolvido com campanhas de informação que expliquem o que está por trás do selo. Esse realmente é um desafio. A gente não conseguiu e a estrutura do FSC também não permite atingir o grande público. Para chegar a isso, a gente precisa ter um poder e um alcance que a gente ainda não tem.

A certificação pode ser uma alternativa ao desmatamento zero?

Sem dúvida. A certificação precisa ser entendida, antes de mais nada, como um meio, não como um fim. O fim é a preservação da floresta. E a certificação é uma ferramenta para que isso ocorra. Nós temos uma filosofia que diz que floresta manejada é floresta em pé, porque, quando você faz isso, você dá condição de vida à própria floresta, do ponto de vista ambiental, mas também àquelas pessoas que vivem dela. Uma grande falácia que precisa ser quebrada é a de que, quando você deixa de usar a madeira da Amazônia, você está preservando a floresta.

Isso não é verdade?

Não. Pelo contrário. Você está entregando a Amazônia para a ilegalidade. Isso é muito importante porque a gente vive em um quadro de fiscalização muito precário do tipo comando e controle. Vive também um quadro muito desregrado, louco mesmo, eu diria, de uso econômico dos recursos naturais. E sempre que você não dá um uso econômico sustentável, ambientalmente e socialmente, você está entregando a floresta para o campo da ilegalidade, para o pasto, para a soja, enfim, para a atividade econômica que vier a dar lucro. Não estou defendendo que certificação seja a única forma de preservação. Há áreas de florestas que devem ser preservadas e mantidas intactas. Porém, há áreas que podem ser exploradas sem nenhum dano ao seu ecossistema e, ao mesmo tempo, contribuindo para garantir que a madeira que a gente usa vem de uma produção responsável. Nesse sentido, a certificação é uma ferramenta importante para conter o desmatamento desenfreado.

Quais são os principais desafios que o FSC tem pela frente?

Um dos principais desafios é encarar, de formas distintas, a certificação de florestas nativas e a das florestas plantadas. Na nativa, e tendo muito a Amazônia como referência, a gente vive hoje uma situação de inviabilidade econômica da floresta certificada por conta da competição com o mercado ilegal e também com o falso legal, que é a madeira esquentada. Metade da madeira extraída hoje no Brasil é ilegal. Da outra metade, tem uma parcela significativa que é a da madeira legal esquentada. E hoje é impossível competir, em custo, com a madeira que não respeita a legislação fiscal ou trabalhista. É óbvio que a madeira ilegal é muito mais barata. Nosso desafio é combater a ilegalidade e, ao mesmo tempo, premiar a boa madeira, que precisa ser reconhecida, porque internaliza custos que a outra madeira – a ilegal – não internaliza. No caso das florestas plantadas, cuja área certificada tem crescido muito a cada ano, o desafio é garantir que esse crescimento aconteça com qualidade. Ao mesmo tempo, é importante continuar trabalhando junto com as empresas do setor, para que os princípios e critérios possam ser aprimorados. Temos também o desafio, para o FSC como um todo, de aproximar-nos mais do consumidor e fazer com que a informação sobre o que está sendo certificado seja compreendida e compartilhada por ele. Enfim, fazer com que ele e todos os elos dessa trama entendam o que está acontecendo.

A indústria moveleira é uma grande consumidora de madeira. Como está a posição desse setor em relação à certificação?

Nestes dois setores há uma parcela muito sólida que vê com bons olhos a madeira certificada. É uma fatia muito restrita de setores nos quais o seu uso tem aumentado de forma contínua, mas sem uma linha muito acentuada de crescimento. Por isso é que, para o segundo semestre, estamos preparando campanhas específicas para estes dois setores. O objetivo é ampliar estes nichos. A indústria de móveis e a de construção civil são segmentos que, de alguma forma, têm migrado muito do uso de madeira de matas nativas para madeira de florestas plantadas. O FSC sabe que não adianta exigir mudanças e que o que mais dá retorno é construir essa alternativa em conjunto. Vamos começar pela construção civil, com um projeto específico para o setor. Da mesma forma, no ano que vem, imaginamos fazer o mesmo com a indústria moveleira.

Como está posicionado o Brasil frente aos outros países que compõem o FSC? Estamos em que posição na certificação?

O Brasil é o quinto em área total certificada.

O percentual de florestas brasileiras certificadas é compatível com o volume dos recursos florestais que o país tem?

Não. Ainda estamos muito abaixo do nosso potencial. Poderíamos estar bem melhor, pois temos apenas 3% das florestas nativas certificadas. Esse é um percentual muito baixo, o que mostra, por outro lado, que temos um potencial tremendo de crescimento. O sistema como um todo precisa crescer na certificação de florestas tropicais, segmento no qual o Brasil tem um papel muito importante a desempenhar. Crescer na certificação de florestas tropicais é uma das prioridades do FSC.

Fonte: Correio Braziliense

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2 comentários em “Alternativa ao desmatamento zero

  • 2 de agosto de 2012 em 17:41
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    O manejo de florestas não se configura como uma alternativa ao Desmatamento Zero. O desmatamento zero se propõe a encerrar o corte raso de floresta, e não o manejo. Além disso, a proposta de desmatamento zero prevê exceção para atividades de segurança nacional, populações tradicionais, pesquisa e o próprio manejo de florestas, entre outros. O manejo florestal é um importante componente para o sucesso de uma política pelo fim do desmatamento, e não uma alternativa.

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  • 6 de dezembro de 2013 em 10:03
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    precisamos aprender um pouco mas sobre a amazônia…

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