CNA quer estender ao mundo a ‘rigidez’ ambiental do Brasil

“Os ambientalistas europeus, que mais nos cobram, viram as costas para seus próprios problemas”, diz Kátia Abreu

Passado o debate acalorado sobre a revisão do Código Florestal, a principal entidade ruralista brasileira prepara-se para lançar um documento mostrando o ta

manho do impacto à produção agrícola europeia caso regras ambientais vigentes no Brasil fossem aplicadas também àquele continente.

O foco da ação da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) está nas chamadas matas ciliares, a cobertura vegetal que margeia os cursos d”água. Nos próximos dois meses, técnicos da entidade mapearão, através de imagens de satélite, propriedades que beiram cinco grandes rios da Europa – Reno, Danúbio, Tâmisa, Sena e Douro – e simularão quanto os produtores rurais perderiam em valor bruto de produção se tivessem de dispor de áreas semeadas para recomposição florestal.

A conclusão desse relatório será a carta na manga da senadora Kátia Abreu (PSD-TO), presidente da CNA e mentora da ideia, a ser puxada sempre que o momento político exigir. Há anos, ela defende que o Código Florestal, hoje cumprido à risca por pouquíssimos produtores, imporia uma perda de competitividade do campo brasileiro em relação a seus concorrentes. Transpondo o cenário nacional a outros países, a senadora ruralista tenta agora dar números a isso.

“Os ambientalistas europeus, que são os que mais nos cobram, viram as costas para os seus próprios problemas”, diz Kátia Abreu, referindo-se ao fato de que parte significativa das florestas nativas da Europa já terem sido derrubadas. “Nesse estudo, não estamos levando em conta nem as Reservas Legais [florestas que devem ser mantidas intactas dentro das propriedades privadas], porque nós não concordamos com elas. Estamos olhando apenas para as matas ciliares, porque todo agricultor sabe da importância que elas têm”.

Com esse argumento, a CNA lançou no início deste ano, no Fórum Mundial da Água, em Marselha (França), uma campanha em defesa da recomposição global de matas ciliares. Na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, a entidade voltou a jogar a proposta. O discurso oficial, nas duas ocasiões, foi o de preocupação com o ambiente associado à necessidade desse bem precioso às lavouras e, portanto, à segurança alimentar.

A campanha foi amarrada com outras duas entidades brasileiras de peso, na tentativa de dar um caráter menos político e mais técnico à discussão – Embrapa e Agência Nacional de Águas (ANA). Mas o pano de fundo está lá: “Por que só nós vamos cumprir regras? Queremos simetria entre os países. Afinal, é um objetivo justo. Água não é bom para o planeta?”, diz Kátia Abreu, com um riso contido de quem aproveita a deixa para cutucar críticos antigos. Na Rio+20 ou fora dela, dificilmente alguém iria contra a uma causa tão nobre como salvar matas e água no mundo.

“Nem o ruralista mais radical discute a necessidade de mata ciliar. O que se debatia no Brasil era a largura dessas matas”, afirma. O novo Código Florestal, aprovado este ano, mexeu nesses tamanhos e diminuiu a espessura da vegetação necessária dependendo do tamanho do rio e da propriedade rural – desagradando ambientalistas e ruralistas mais sedentos por terra.

O relatório da CNA sobre o impacto aos bolsos europeus se fossem sujeitos às mesmas exigências de matas ciliares que os brasileiros (que chegam a 100 metros para cada margem do rio) vem no momento em que a Comissão Europeia rediscute as bases de sua Política Agrícola Comum (PAC). Reformulada a cada sete anos, a cartilha de regras para concessão de US$ 75 bilhões ao ano em subsídios rurais propõe atrelar até 30% dos aportes a contrapartidas ambientais.

Uma das ideias cogitadas é devolver terras hoje agricultáveis para fins ecológicos. A proposta tem arrancado críticas de associações ruralistas. Segundo o Comitê do Reino Unido para Ambiente, Alimentos e Assuntos Rurais, um dos mais críticos à medida, “esverdear o PAC feriria os produtores, os consumidores europeus e também reduziria a segurança alimentar”.

A presidente da CNA agora ri abertamente. “Viu só como é?”.

A ofensiva pelas mata ciliares globais será trabalhada por equipes de comunicação contratadas nos Estados Unidos e em Londres, como parte da estratégica de ampliação do lobby agrícola brasileiro no exterior. Além disso, a entidade deverá inaugurar no segundo semestre escritórios em Bruxelas e Pequim, “porque é lá que está o mercado e o dinheiro do mundo”. Kátia Abreu explica ser prioritário abrir novos mercados mas também mudar a imagem do agronegócio brasileiro lá fora. “Precisamos mostrar a imagem verdadeira do nosso setor”, diz.

Segundo ela, paralelamente a essas ações para “encurralar” adversários, uma campanha de marketing de três anos terá início este ano para promover carros-chefes da pauta agrícola brasileira, como o café, o suco de laranja e as carnes. O garoto-propaganda será Pelé. “Propus a Dilma [a presidente Dilma Rousseff] uma parceria para promover nossos produtos. E também falei à Izabella [Teixeira, ministra do Meio Ambiente], na Rio+20, sobre a ação global das águas. Elas nos apoiam”. A senadora parece estar só sorrisos.

Por: Bettina Barros
Fonte: Valor Econômico

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Um comentário em “CNA quer estender ao mundo a ‘rigidez’ ambiental do Brasil

  • 11 de julho de 2012 em 7:31
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    Parabens Senadora.

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