Educação para a vida sustentável

Se há um  conceito que está na boca de muita gente, mas poucos realmente o  praticam, é o termo sustentável. Segundo o dicionário Aurélio,  sustentável é algo capaz de se manter mais ou menos constante, ou  estável, por longo período. Vida sustentável é algo muito mais profundo e  comprometedor, pois trata de valores universais e profundos, sem limite  temporal ou espacial. Fato é que manter viva a vida não é algo simples e  rápido que, uma vez feito, não precisa ser revisto ou atualizado. A  vida, em todas as suas manifestações, para ter garantida sua  sustentabilidade, requer cuidados humanos compatíveis com as “outras  vidas” que constituem o planeta, cujo padrão de desenvolvimento deve  envolver o ecologicamente correto, o economicamente viável, o  socialmente justo e o culturalmente diverso.

A preocupação com a  sustentabilidade da vida ganhou força na década de 1980, quando a ONU  encarregou a primeira-ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland, de  chefiar a Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento com o  objetivo de retomar a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio  Ambiente Humano, realizada em Estocolmo, em junho de 1972. Coube a ela  aprofundar o tema e produzir um relatório que apontasse possibilidades  “pacíficas” de convivência entre as necessidades sociais e as  econômicas. O documento, apresentado em 1987, ficou mais conhecido como  Relatório Brundtland, enquanto o nome oficial era Nosso futuro comum.  Nele se propôs o desenvolvimento sustentável: “aquele que atende às  necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações  futuras atenderem às suas necessidades”.

A ex-primeira-ministra,  presente na Rio+20, foi enfática ao dizer que “as situações sobre as  quais voltamos a falar, e as mudanças que julgamos como necessárias, são  as mesmas mensagens que viemos repetir no Rio, 25 anos depois”. Para  ela, é necessário sair do discurso e investir na mobilização da  sociedade global para garantir o comprometimento das nações com as  propostas do documento final da Rio+20, que renova o compromisso com o  desenvolvimento sustentável, fundamental para a vida no planeta. Para  tanto, é preciso educar “uma nova geração de estudantes nos valores,  disciplinas-chave e abordagens holísticas e multidisciplinares  essenciais para a promoção do desenvolvimento sustentável”.

A  educação se coloca, então, como principal via para dar oportunidades às  pessoas de se tornarem cidadãos do século 21, ou seja, de desenvolver as  competências necessárias para viverem num mundo em que as formas de  ser, conviver, conhecer e produzir sejam, cada vez mais, definidas por  padrões sustentáveis. Trata-se não somente de ampliar o acesso aos  conhecimentos básicos, mas principalmente de pensar o currículo das  escolas em torno da sustentabilidade da vida, em que educadores  comprometem-se com o sucesso dos alunos e com seu próprio  desenvolvimento profissional, e estudantes assumem o papel ativo na  história de sua vida e na de sua comunidade.

Em sua formação,  crianças e jovens precisam aprender a ser criativos e curiosos, a  resolverem problemas cotidianos, a acessarem e selecionarem informações e  a posicionarem-se criticamente enquanto cidadãos, mas sua educação  plena deve incluir valores e atitudes para que possam colaborar com os  outros, respeitar as diversidades culturais, religiosas e políticas e  entenderem que a vida no planeta vai depender de vivermos com o  “suficiente para todos e para sempre”.

Mudar a postura fundamental  de cada um diante de si mesmo, dos outros e da natureza não é tarefa  fácil, mas também não é tarefa impossível. Em 2011, por meio de parceria  com a Nestlé e diversos governos estaduais e municipais, o Instituto  Ayrton Senna levou à escola pública um projeto com foco na educação para  a vida sustentável. O eixo dessa aprendizagem foi o cuidado — cuidar de  si, cuidar do outro, cuidar da coletividade, cuidar do meio ambiente e  da Terra. Professores foram orientados e apoiados, com materiais  específicos, no desenvolvimento do tema de forma transversal em sala de  aula.

O projeto mobilizou cerca de 500 mil alunos do ensino  fundamental de redes públicas de ensino que adotam programas  educacionais do instituto, suas famílias e mais de 20 mil educadores em  1.197 escolas das cinco regiões do Brasil, ou seja, todo o bioma  brasileiro estava representado. Essa experiência demonstrou que é  possível levar para as escolas, em larga escala, a educação para o  desenvolvimento sustentável. Para tanto, em 2012 o projeto ganhou força e  duplicou sua mobilização: serão mais de 1 milhão de alunos envolvidos.  Mas o sucesso dessas práticas depende principalmente de políticas  educacionais que integrem esse tema ao cotidiano da escola, com  educadores preparados para trabalhá-lo na rotina educacional, em  contínuo processo de reflexão e ação no respeito pela vida, presente e  futura.

INÊS KISIL MISKALO Coordenadora da área de  educação formal do Instituto Ayrton Senna e membro da cátedra Unesco/IAS  de educação e desenvolvimento humano

MARIA REGINA BARONI Gerente  de projetos da área de educação formal do Instituto Ayrton Senna e  organizadora da Ação de Educação para a Vida Sustentável

Fonte: Correio Braziliense

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