Mato Grosso começa a mensurar perdas na colheita de grãos

Os produtores mato-grossenses esbanjam satisfação com o curso da colheita de milho safrinha, que termina em agosto – estimada em 14,2 milhões de toneladas, o dobro do ano passado, e que ocupou 2,5 milhões de hectares do Estado -, mas reforçam por meio dela uma preocupação antiga. Quanto da colheita de grãos (milho e soja) é perdida do campo até seu escoamento? “Não sabemos dizer. Esse número não existe”, afirma Carlos Fávaro, presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado (Aprosoja).

Por isso, a segunda safra do milho marca uma nova fase para os produtores, já que dará início a um projeto que tem a meta de mapear o tamanho do desperdício. A proposta foi feita pela Universidade de Illinois (EUA), que investiu US$ 10 milhões para medir os prejuízos causados por essas perdas em países agrícolas como o Brasil.

A Aprosoja se apoia no trabalho de universidades e da Embrapa, entre outras instituições, para chegar a um nível aceitável de 1% a 2% no máximo por safra. Mas os produtores têm ciência que o índice está longe de refletir a realidade no campo. “Acreditamos que em alguns lugares se chegue a 4%”, comenta Fávaro. Esse percentual significa comprometer 1,4 milhão de toneladas das colheitas de milho e soja no Estado que, juntas, somam 36 milhões de toneladas. Gravidade maior só mesmo a estiagem causada pelo fenômeno La Niña que provocou uma redução de safra da ordem de 11 milhões de toneladas na região Sul do país.

O cálculo do presidente da associação não é exagerado diante da avaliação do pesquisador Rouverson Pereira da Silva, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu (SP) – integrante do projeto da Aprosoja -, que aponta perdas de 5% nas colheitas desses grãos do país, que causam prejuízos de R$ 257,6 milhões por safra. Para outras culturas mecanizadas o índice alcança entre 7% e 10%.

Apenas o Paraná escapa desse cenário, ao chegar ao 1% aceitável. “O êxito se deve a um programa de monitoramento instalado na década de 80”, afirma. Propriedades menos extensas e distâncias mais curtas até o porto de Paranaguá (PR) são fatores extras que beneficiam os agricultores paranaenses em relação aos mato-grossenses. “Só sei que precisamos valorizar tudo o que colhemos”, acredita Fávaro.

Por isso, o programa da Aprosoja vai avaliar os principais gargalos da produção por meio de amostragens realizadas em sete propriedades na região de Sinop, norte do Mato Grosso. Um deles está ligado à eficiência das máquinas agrícolas. Para que não se ultrapasse o índice de perda tolerável de 1 saca (60 quilos) por hectare, os equipamentos utilizados para teste vão receber uma armação de madeira implantada na largura da plataforma deles. A estrutura irá reter os grãos que cairiam do maquinário.

Outro ponto a ser avaliado é o desperdício durante o transporte pelas estradas. Estima-se que de cada carga de 27 mil quilos – capacidade média de um caminhão -, 1% fique pelo meio do caminho. “O tolerável é 0,2%”, diz o professor Carlos Canepelli, da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT). Segundo ele, a sobrecarga dos veículos, adaptações improvisadas com carrocerias de madeira e estradas ruins são os principais fatores que colaboram com o desperdício.

Para Edeon Vaz Ferreira, coordenador-executivo do Movimento Pró Logística – que reúne dez entidades do Estado, como a própria Aprosoja – os problemas das estradas brasileiras são velhos conhecidos do setor. Segundo levantamento do órgão, existe a necessidade de investimento de R$ 266 milhões para a manutenção e conservação de 120 trechos de rodovias estaduais considerados como rotas prioritárias para o transporte de grão. “Esperamos um outro Mato Grosso em cinco anos”, planeja Ferreira.

Para ele, o agricultor nacional encontra caminhos cheios de dificuldades porteira afora. Estudos da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), apontam que os agricultores brasileiros têm um custo de US$ 85 por tonelada para transportar seus produtos, enquanto os americanos desembolsam US$ 23 e os Argentinos US$ 20. Conforme dados de 2007 da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), o setor portuário necessita de US$ 30 bilhões em investimentos para tornar a comercialização eficiente sem depender apenas das estradas. Hoje, 60% das mercadorias passam por elas, um trajeto reconhecidamente inseguro e economicamente desvantajoso.

Por: Janice Kiss
Fonte: Valor Econômico

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