Soja avança sobre pastagens no Tocantins

A estrada que liga o município de Sandolândia, no sudoeste do Tocantins, à capital Palmas, é um retrato da rápida e intensa transformação da produção rural do Estado. Considerado um dos berços da pecuária brasileira por sua relevância na criação de bezerros, Tocantins não consegue mais resistir à rentabilidade proporcionada pela agricultura.

Conforme o percurso da rodovia João Lisboa da Cruz – a TO-070 – avança e o relevo acidentado do Araguaia fica para trás, as áreas de pasto, notadamente a partir do município de Brejinho de Nazaré, dão lugar às lavouras de soja.

Entre os dias 22 e 25 de agosto, o Valor acompanhou, a convite das consultorias Agroconsult e Bigma, a primeira etapa do “Rally da Pecuária”, expedição que no total percorrerá 40 mil quilômetros do país para avaliar as condições de pastagens e da produção de gado. Num roteiro (ver mapa) em que percorreu os Estados de Goiás e Tocantins, a reportagem visitou sete fazendas, participou de trabalhos de campo e conversou com pecuaristas da região.

“Provavelmente, esse é o último ano que faremos amostras nesse pasto. Em 2013, essa área será lavoura”, afirmou André Debastiani, analista da Agroconsult, em uma das análises de pastagens realizadas em Brejinho de Nazaré. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as pastagem em Tocantins ocupam 10 milhões de hectares. No país, os pastos cobrem cerca de 170 milhões de hectares.

Com uma área plantada com grãos de 743,1 mil hectares na safra 2011/12, Tocantins é apenas um exemplo de uma tendência que atinge as principais regiões de pecuária do Brasil, como as porções norte e leste de Mato Grosso, os Estados de Goiás, Mato Grosso do Sul e algumas regiões do Pará, segundo Debastiani.

A área plantada com grãos, cana-de-açúcar e reflorestamento no Brasil deverá aumentar 15,3 milhões de hectares nos próximos dez anos, conforme estimativa da Agroconsult e da Bigma. E a maior parte desse avanço virá da conversão de áreas de pasto. Pelos cálculos das duas consultorias, a agricultura abocanhará 12,4 milhões de hectares que hoje servem à pecuária bovina.

Acompanhando esse movimento, o agricultor Luciano Rosa Nascimento deixou o Paraná em 2005 para ser um dos consolidadores da fronteira agrícola brasileira conhecida como “Mapitoba” – confluência entre os Estados do Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia. De lá para cá, ampliou sua área plantada com soja na região de Porto Nacional (TO) para 800 hectares.

No último ano, o produtor deu mais um passo, ao adquirir a Fazenda Nova Esperança, no mesmo município, até então concentrada na engorda de animais de corte. “Em três anos, vamos transformar a maior parte em lavoura”, conta. Com uma área de 600 hectares, Nascimento pretende converter 500 hectares para o plantio de soja. Na área restante, o agricultor manterá o confinamento com capacidade para 750 animais. “Vou aproveitar a estrutura que já existia”.

Depois de resistir a propostas de agricultores por três anos, o pecuarista Valdofredo Gonçalves de Paula, proprietário da Fazenda Carolina, de Paraíso (TO), arrendou 100 hectares de sua propriedade de 3,3 mil hectares. “Não entendo nada de soja. O que eu gosto mesmo é pecuária, mas a tendência é que o grão avance”, reconhece Gonçalves de Paula.

Segundo ele, o arrendamento lhe proporcioná ganhos superiores aos que teria com a criação de bezerros. Pelos termos do arrendamento, o pecuarista ficará com 5 sacas de soja por hectare plantado. Em Ipueiras (TO), o catarinense Alexandre Ferrari, da Fazenda Brasil, seguiu o mesmo caminho e destinou 100 hectares de pasto degradado para a soja.

Em grande medida, a cessão de áreas para agricultura é um resultado da baixa rentabilidade da produção de gado. “Está cada vez mais difícil aumentar renda na pecuária. A agricultura rende dez vezes mais que a pecuária. É por isso que cede área”, disse Maurício Nogueira, sócio-diretor da Bigma.

De acordo com o agrônomo, o pecuária brasileira deveria ter uma produtividade anual de 15 arrobas por hectare para “ficar competitiva e não mudar para a agricultura”. Atualmente, a produtividade média da pecuária nacional é de 3,65 arrobas por hectare, segundo previsão da Bigma.

Diante da iminente perda de área para a agricultura, os pecuaristas precisarão superar uma tradicional resistência do setor se quiserem permanecer na atividade: o uso de tecnologias como a adubação de pastagens. “O ritmo de adoção de tecnologia vai ter que ser maior nos próximos anos”, afirma Nogueira.

E não só a sobrevivência dos pecuaristas está em jogo. Com a redução da área de pastagens, a tecnologia também será fundamental para que a produção de carne bovina consiga atender a demanda projetada para os próximos anos. De acordo com estimativas da Agroconsult e da Bigma, a demanda por carne bovina produzida no Brasil saltará das atuais 9,3 milhões de toneladas para 13 milhões em 2022.

Apesar das dificuldades, Nogueira acredita que a pressão sobre a atividade estimulará o setor a avançar em tecnologia e produtividade. “Vamos ter que acelerar o uso de tecnologia porque a agricultura vai tomar área de qualquer jeito”, diz ele. Em suas projeções, o país elevará a taxa de animais abatidos sobre o rebanho total dos atuais 19,3% para 23,2% até 2022 – nos Estados Unidos, esse percentual chega a 38%. Já a produtividade da pecuária brasileira atingirá a 5,36 arrobas por hectare em dez anos.

Nesse cenário, o analista prevê que os abates no país crescerão 38,3% em dez anos, para 53,6 milhões de cabeças. A participação dos confinamentos nos abates, por sua vez, deverá dobrar, para 20%.

Além de incrementar a produção, o maior uso de tecnologia também pode reduzir a necessidade de pastagens no país. Segundo cálculos de Agroconsult e Bigma, se toda a pecuária brasileira – e não só as áreas que competem com a agricultura – ampliassem a produtividade anual para 15 arrobas por hectare, a necessidade de pastagem no país seria de apenas 41,4 milhoes de hectares, ante os 170 milhões atuais.

“Nós vamos demorar muito para ver esse cenário, mas o uso de tecnologia vai aumentar ano a ano”, assegura Maurício Nogueira. Ainda assim, o analista garante que a disponibilidade de pastagem – um pouco menor, talvez – seguirá como uma das vantagens comparativas do Brasil em relação à seus concorrentes como Estados Unidos e Austrália, que utilizam o confinanamento na quase totalidade dos abates, encarecendo o custo de suas respectivas produções.

Por: Luiz Henrique Mendes
Fonte: Valor Econômico

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Um comentário em “Soja avança sobre pastagens no Tocantins

  • 12 de outubro de 2013 em 20:09
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    Para, Luiz Henrique Mendes:
    Caso seja possível, gostaria de receber informativos seu sobre soja no Brasil.
    Gostaria de saber se é necessário fazer assinatura e pagamento para você, para receber seus comentários.
    Ailton

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