Grupo se reconcilia com antigos inimigos

Sentado em frente ao computador, em uma sala na TV Rio Branco, o empresário Narciso Mendes termina o artigo a ser publicado no jornal “O Rio Branco” com críticas ao candidato do PSDB à prefeitura da capital, Tião Bocalom. Dono do jornal impresso e da retransmissora do SBT no Acre, Mendes rasga elogios aos irmãos Jorge e Tião Viana. “Esses caras fizeram o Acre. Todas essas ruas que estão aí foram eles que fizeram”, diz, batendo com a mão na mesa para enfatizar. A afirmação nem parece ser do empresário que se apresentava como “inimigo número um do PT” até meados dos anos 2000. “Deixei de ser antipetista”, comenta. “Eu me adapto às circunstâncias”.

O empresário, com trajetória na Arena, PDS, PFL, PPB e PP, atuou contra a Frente Popular quando o grupo ascendeu ao governo estadual com Jorge Viana (PT), em 1998. Mendes foi acusado por Jorge por intimidá-lo e por desmoralizar as investigações sobre o narcotráfico no Acre.

A aproximação de Mendes com rivais petistas se deu ao longo das gestões da Frente Popular. O jornal do empresário, que não recebia verba publicitária estadual, hoje publica matérias favoráveis ao governo. A empreiteira da família de Mendes presta serviços à gestão estadual.

O senador Jorge Viana (PT) minimiza essa aproximação. ” Não posso achar que isso tem algum problema”, diz. O governador do Estado, Tião Viana (PT), segue na mesma linha. “Se a empresa participa da licitação e ganha dentro dos termos da lei, que problema tem nisso? Nunca vi ninguém pegar um aliado e expulsar, desde que ele não interferira na honra de um projeto”.

Outro exemplo de inimigo que se transformou em aliado é o ex-governador Orleir Cameli, cuja gestão foi marcada por denúncias de corrupção e desvios, combatidos pela Frente Popular. Atualmente, o governo estadual mantém uma relação cordial com Orleir e a empreiteira do ex-rival presta serviços ao Estado. César Messias (PSB), primo de Orleir, é vice de Tião e foi vice do antecessor, o ex-governador Binho Marques (PT). “Temos uma relação democrática, sem perder a integridade. Não há incoerência”, diz Tião.

A reconciliação com empresários e políticos que foram combatidos pela Frente Popular no passado é criticada por fundadores e integrantes do grupo. Antonio Alves, o Toinho Alves, um dos articuladores da Frente, resume as reclamações. Em sua análise, o PT se “amoldou” à estrutura existente, sem de fato mudá-la. “No Acre foi feita uma conciliação parecida com a que [ex-presidente] Lula fez no segundo mandato, depois do mensalão, para ter governabilidade. Mas aqui é diferente: não precisava ter feito isso. O PT tinha base para governar”, diz Toinho.

Formulador do conceito de “florestania”, usado como bandeira da gestão de Jorge, Toinho afastou-se do grupo junto com a ex-senadora Marina Silva, a quem continua ligado. “O que lamento é ver o grupo que chegou ao poder para limpar a corrupção ter se transformado em uma oligarquia”.

Fonte: Valor Econômico

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