Ribeirinhos não querem sair do Xingu

Se os índios próximos à chamada Volta Grande do Xingu temem a secagem do rio e a interrupção da navegação e o fim de formas tradicionais de vida, como a pesca, para os ribeirinhos o temor é o de como recomeçar a vida depois que os locais onde vivem forem inundados, consequência das barragens da hidrelétrica. A indenização não garante futuro e já há morador temendo que o dinheiro não virá. “Sabe aquela história do cachorrinho e do cachorrão? O cachorrinho põe o rabo no meio das pernas. Poder é poder, moço, mas não é com muita vontade que a gente vai sair daqui não”, diz Manoel Neves de Araújo, 65, morador da comunidade do Paratizinho, às margens do rio Xingu.

Leia também: No Xingu, indígenas convivem com a incerteza

Araújo mora com a irmã em uma casa de madeira na parte um pouco mais alta do terreno. Ali a cheia sazonal do rio não os alcança. Há quatro décadas morando no mesmo lugar, Manoel de Araújo ri quando lembra a visita dos técnicos da empresa Norte Energia ao local. “Já vieram, mediram, filmaram e piquetaram bem ali, dizendo que é onde vai ser inundado. Mas ali já inunda todo ano, eu disse, mas eles são engenheiros, nem falei mais nada, fiquei só olhando a arrumação”, lembra. Conhecedor dos ‘humores’ do rio Xingu, Manoel diz que sabe pouco das negociações. É a irmã quem participa das reuniões. “Só sei que sair assim, sem saber para onde se vai é que nem ficar como pau na água. Pelo gosto dos ribeirinhos a gente não aceitava, mas a terra é do governo e o governo quer que a gente saia”.

Há locais do rio que secarão. Outros serão inundados. Garantir a navegabilidade na Volta Grande do Xingu, principal local a ser afetado durante e depois da construção da barragem, foi uma das condicionantes impostas pela Agência Nacional de Águas (ANA), Funai e Ibama à Norte Energia – empresa responsável pela construção e operação da hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu (PA) – para que a obra fosse autorizada.

A Norte Energia pretende agora fechar o último trecho do rio que ainda corre livre, para começar a construção da barragem. A partir daí não será mais possível às comunidades chegar a cidade de Altamira a partir da Volta Grande por via fluvial. Como solução paliativa a empresa apresentou um projeto de instalação de um sistema que permitisse aos barcos transpor as ensecadeiras – nome dado aos barramentos provisórios – enquanto a obra estiver em andamento. Se vai dar certo ou não, ninguém sabe. Ibama e a ANA ainda alimentam dúvidas sobre a eficiência do sistema. Se o mecanismo não funcionar, milhares de ribeirinhos e indígenas ficarão sem ter como chegar à cidade de Altamira (PA) ou outras regiões rio acima.

Albino Pessoa dos Santos, o ‘Fininho’, 49, sobrevive transportando pessoas rio abaixo, rio acima. Faz isso há 25 anos e mesmo tendo esperança de que não irá perder o que tem, mostra-se preocupado. “Tá tudo cadastrado para que seja paga a indenização, mas se fosse do meu gosto não saia não. Ali tem as nossas coisas. Sair de um lugar para outro é difícil. É por isso que a cidade está dividida com esse negócio de hidrelétrica. E depois que eles fizerem a barragem a gente vai ter que sair de qualquer jeito. Quem garante que irão nos pagar mesmo?”, questiona.

Enquanto persistem dúvidas, há certa pressão pela aprovação do sistema pelas comunidades afetadas. As consultas às comunidades afetadas pelo barramento definitivo do rio já tiveram início, mesmo com objeções feitas pelo Ministério Público Federal. “As negociações para indenização na área rural prosseguem normalmente, sintonizadas com as necessidades da obra. Nessas áreas, o cálculo considera o valor da terra nua e o valor das benfeitorias, como plantações, animais, casas etc”, informa a Norte Energia em relação às indenizações aos ribeirinhos.

Segundo a empresa, na área urbana de Altamira, o pagamento das indenizações ainda não começou. “As famílias decidirão se querem indenização em dinheiro ou se preferem receber uma nova casa em área urbanizada construída em local próximo de onde estão as atuais palafitas (menos de 2,5 km). Nestes casos, a indenização também considera a área ocupada e construções feitas”, explica a Norte Energia. “Eu já tô até de barriga cheia de tanta ajuda”, ironiza Sueli, moradora de uma palafita. São entre 4 mil a 6 mil moradores de lugares assim em Altamira, dependendo de quem fizer avaliação. Para essas pessoas, a construção de casas em outros locais pode ser até vantajosa, devido às condições subumanas a que estão submetidas. Não é o caso dos ribeirinhos.

O casal Manoel Matos da Cruz, 82 e Laura de Souza, 72, está junto há mais de 40 anos. Desde 1980 vive no Paratizinho. Pobres e analfabetos, os dois são a parte invisível da equação. A indenização que receberem pode não ser suficiente para quem já está no fim da vida. Manoel não tem uma das pernas. Mal sabe dizer sobre o que pode vir a acontecer. “Não sei onde vão botar a gente. Aqui tava bom de morar”, diz. “Não é por gosto não que a gente vai sair daqui, se sair”, diz a mulher Laura de Souza. Depois pega uma vassoura velha e sai para varrer a frente da casa. Menos de 200 metros adiante, o Rio Xingu segue o próprio curso. Até quando?

Fonte: Diário do Pará

Deixe um comentário