AM: Justiça garante salário-maternidade às mães indígenas menores de 16 anos

A Justiça Federal no Amazonas determinou, em caráter liminar, que o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) deixe de exigir idade mínima de 16 anos para concessão do benefício previdenciário salário-maternidade às mulheres da etnia kanamari.

O pedido, feito em ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público Federal (MPF), tem por base a característica diferenciada do povo kanamari em relação à maternidade, apontada em laudo antropológico elaborado pelo analista pericial da Procuradoria da República no Amazonas.

Conforme o parecer que fundamentou a ação, as características culturais e sociais da etnia levam as indígenas menores de 16 anos a trabalhar em regime de economia familiar e a ter filhos.

A decisão liminar destaca que o pedido foi precedido de representação do pesquisador Stefan Dienst, o qual esteve nas aldeias kanamari a serviço do Ministério da Ciência e Tecnologia para desvendar a linguagem e cultura daquele povo e pôde constatar as peculiaridades socioculturais.

Na decisão, a juíza federal Jaiza Fraxe destaca que o tratamento diferenciado aos povos indígenas kanamari se justifica em razão do fato de que as mulheres “nasceram e cresceram, há centenas e centenas de anos, com a única realidade que conheceram pela tradição de seus antepassados: trabalho na roça da aldeia, em combinação com vida sexual precoce e reprodução antes dos 16 anos”.

A decisão ressalta que situação similar foi constatada em relação às indígenas kaigang, no Rio Grande do Sul.

A Justiça Federal determinou também que o INSS revise todos os requerimentos de concessão de salário-maternidade das mulheres kanamari apresentados nos últimos cinco anos e conceda o benefício a todas que tiveram o pedido negado por não terem a idade mínima exigida pelo instituto. Em caso de descumprimento da decisão liminar, há a previsão de multa diária de R$ 1 mil.

De acordo com o mais recente censo feito pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa), de 2010, pouco mais de 3,1 mil índios kanamari vivem no Amazonas, a maior parte deles na região do rio Juruá e seus afluentes. Conforme informações do programa Povos Indígenas no Brasil, também habitam regiões mais distantes, como no médio rio Javari e rio Japurá.

O procurador da República Julio José Araujo Junior, autor da ação, destaca que os costumes do povo indígena kanamari incluem um modo de produção coletivo e padrões culturais diferenciados, em que as concepções de família, maternidade, casamento e papéis sociais são totalmente distintas daqueles da sociedade não indígena.

– Por essa razão, o entendimento do INSS se mostra incompatível com a Constituição da República e com convenções internacionais firmadas pelo Brasil, além de contrário à legislação infraconstitucional correspondente, pois está dissociado da visão multicultural prevista na lei fundamental, por meio da qual o direito à igualdade não pode ser visto apenas como fonte formal ou material de equiparação de indivíduos, mas também como diretriz para o reconhecimento da diferença – afirmou o procurador.

Por: Altino Machado
Fonte: Terra Magazine / Blog da Amazônia 

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