Rios da Amazônia não serão alvo de “grandes reservatórios”, diz MME

Se por um lado o governo planeja acionar permanentemente as usinas térmicas, medida de causar pânico entre ambientalistas, por outro, ele admite que o tempo de o Brasil construir hidrelétricas com grandes reservatórios, como fez durante as décadas de 70 e 80, já passou.

O esvaziamento dos reservatórios atuais fez reacender a discussão sobre a necessidade de se construir grandes represas, com o propósito de ter mais controle sobre a vazão da água e, assim, da geração de energia. Essa polêmica, no entanto, já não tem razão de existir, segundo Altino Ventura Filho, secretário de planejamento e desenvolvimento energético do Ministério de Minas e Energia (MME).

“A próxima fronteira hidrelétrica do Brasil está na região Norte, nos rios da Amazônia, mas esses rios não têm vocação para grandes reservatórios. São rios de planície. Eles não têm, portanto, condições de ser fazer reservatório de regularização”, disse Ventura.

O governo tem conseguido avançar com usinas na região Norte baseado em hidrelétricas a fio d”água. Nesse tipo de projeto, em vez de as turbinas aproveitarem uma forte queda do nível da água, elas utilizam a própria força de vazão do rio para gerar energia. Isso não significa, porém, que não exista uma barragem por trás das máquinas. Belo Monte, por exemplo, em construção no rio Xingu, no Pará, é uma usina a fio d”água, mas que se apoia na construção de um canal com cerca de 20 km de extensão e um lago com mais de 500 km quadrados de área.

Segundo Ventura, os principais rios da Amazônia voltados para o aproveitamento hidrelétrico – Xingu, Tocantins, Teles Pires, Juruena e Tapajós – não possuem condições topográficas e ambientais que viabilizem a construção de um “reservatório de regularidade”. Esse tipo de represa de grande porte é construído pontos iniciais dos rios para que, ao longo de seu trajeto, uma sequência de usinas aproveite o fluxo da água para a geração de eletricidade.

É o que foi feito na década de 70 na Bacia do Rio São Francisco, com a construção da barragem de Sobradinho. A Chesf, do Grupo Eletrobras, ergueu uma sequência de usinas abaixo da barragem, um complexo que hoje responde por cerca de 15% da energia do país. “Os projetos do São Francisco permitem uma gestão com o aproveitamento máximo dele. Se decidíssemos fazer essa barragem hoje, ela certamente não seria feita por conta de restrições ambientais”, disse Altino Ventura Filho.

Quando o sertão virou mar em Sobradinho, foram inundados 4,2 mil km quadrados de terra, oito vezes a área que será alagada por Belo Monte, encarado hoje como o mais polêmico projeto hidrelétrico do país, ou do mundo.

A bacia do rio Paraná é outra que, além do São Francisco, possui reservatório de regularidade, onde foram instaladas as hidrelétricas de Furnas, Itumbiara e Nova Ponte. Com esse tipo de reservatório, explica Ventura, é possível fazer uma “gestão plurianual” da água, utilizando o estoque por até três anos, enquanto em usinas a fio d”água trabalha-se com apenas meses de controle da água.

Com ou seu regularidade, o fato é que grandes reservatórios vêm por aí. No rio Tapajós, as usinas de São Luís e Jatobá – ambas a fio d”água – estão projetadas para inundar um total de 1.368 quilômetros quadrados de floresta virgem, uma área quase do tamanho da cidade de São Paulo.

Os dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) apontam que o Brasil é dono do terceiro maior potencial hidrelétrico do planeta. O país detém 10% de todo o recurso hídrico mundial, só atrás da China (13%) e da Rússia (12%). De todo esse potencial, segundo a EPE, apenas um terço é utilizado até hoje para geração de energia. Ocorre que 66% do que ainda não foi explorado está na região Norte. Segundo o Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), atualmente há 30 usinas hidrelétricas planejadas ou em fase de construção na Amazônia.

O governo estima que, entre 15 e 20 anos, todo o potencial hídrico do país já estará aproveitado. “Não temos outra saída. Vamos buscar outras formas de geração”, disse Altino Ventura Filho, do MME. (AB e RB)

Por Valor Econômico 

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5 comentários em “Rios da Amazônia não serão alvo de “grandes reservatórios”, diz MME

  • 23 de janeiro de 2013 em 16:16
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    Ventura, parabéns: o texto põe fim às estéreis discussões sobre o aproveitamento dos potenciais da Amazônia.
    “Para fazer [usinas com] reservatórios, é preciso que os locais físicos comportem reservatórios”. Por essa razão, ele descartou que usinas desse tipo sejam construídas na região norte amazônica, que é uma área de planície.
    A construção de grandes reservatórios é técnica e ambientalmente inviável, porque os reservatórios são baixos e largos, inunda áreas imensas e estão situados em planícies de baixa altitude.
    O que caracteriza a eficácia do campo topográfico são a altitude e a altura dos potenciais. Por isso o potencial dos rios amazônicos é muito menor do que muitos imaginam, embora ainda seja grande se aproveitados de forma racional, sob regime de sub-aproveitamentos (low profile). Muitos famosos já quebraram a cara em empreendimentos na Amazônia (Ford, Hermann khan, etc): A Amazônia não é para principiantes.

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  • 28 de janeiro de 2013 em 13:56
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    As usinas de fio d’água da Amazônia são extremamente baratas justamente pelo fato de dispensarem reservatório e extensa barragem. Conta apenas o custo de equipamento que são turbinas de bulbo submersas de pequenas dimensões em grande número de unidades como as de Jirau e Santo Antônio. Os maiores inconvenientes estão associados aos riscos com a transmissão de grandes blocos de potência por longas distâncias até os centros consumidores que requerem redundância de linhas para ter caminhos alternativos.

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  • 6 de fevereiro de 2013 em 14:12
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    Construir ou não mais reservatórios não é uma questão objetiva. Primeiro, é preciso que existam locais apropriados que vão se tornando cada vez mais escassos. Não podemos menosprezar o trabalho dos ambientalistas, pois foi graças à ação dos mesmos que se tornou possível a redução do reservatório de Belo Monte para ridículos 516 km² de área alagada, conservando a mesma capacidade instalada. Isto mostra quão pouca importância têm reservatórios de usinas de fio d’água e de foz, como é o caso.
    “O tempo de o Brasil construir hidrelétricas com grandes reservatórios, como fez durante as décadas de 70 e 80, já passou” (Altino Ventura).

    Agora – depois de 4 meses de térmicas funcionando plenamente – os reservatórios continuam esvaziando até atingir o nível mínimo, que é quando deveriam estar iniciando. Mesmo com a permanência de térmicas ligadas pelo ano todo não há mais tempo para enchimento neste verão que está terminando. Chegaremos ao próximo verão com os reservatórios quase vazios.
    Isto não é nada “normal”. A situação difere daquela de 2001: apagão seguido de racionamento por falta de energia. Hoje, sobra energia hidroelétrica – segundo o próprio ONS – e existe alternativa térmica, eólica e de biomassa, mas falta chuva para encher os poucos reservatórios. A demanda cresceu e o sistema se tornou mais complexo: precisa haver redundância de linhas para reduzir o risco no transporte de energia distante ou falta gás para acionar termoelétricas. O preço da energia pode ficar mais caro por uns tempos, mas é a melhor maneira de afastar provável racionamento e ingressar em um sistema hidrotérmico com geração distribuída: cada um gerando a sua própria energia. Esta é maneira dos empresários contribuírem com sua parcela.
    Assim como ousou rever concessões e reduzir encargos sobre tarifas – uma ação constrangedora para suas próprias empresas – deveria condicionar a redução a uma contrapartida daquilo que foi um pedido dos próprios empresários (da FIESP), ou seja: a aquisição de térmicas de reserva.

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  • 15 de março de 2013 em 22:36
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    USINAS SEM RESERVATÓRIOS
    A opção por hidroelétricas sem reservatórios (fio d’água) é uma decorrência natural do relevo da última fronteira Amazônia e não uma questão apenas ambiental (também importante). Não são os ambientalistas que impedem: é a geografia. Os ambientalistas se opõem com justa razão. Não podemos brigar com a física.
    Construir ou não mais reservatórios não é uma questão objetiva. Primeiro, é preciso que existam locais apropriados que vão se tornando cada vez mais escassos. Não podemos menosprezar o trabalho dos ambientalistas, pois foi graças à ação dos mesmos que se tornou possível a redução do reservatório de Belo Monte para ridículos 516 km² de área alagada, conservando a mesma capacidade instalada. Isto mostra quão pouca importância têm reservatórios de usinas de fio d’água e de foz, como é o caso.
    “O tempo de o Brasil construir hidrelétricas com grandes reservatórios, como fez durante as décadas de 70 e 80, já passou.”

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  • 18 de maio de 2013 em 14:10
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    RESERVATÓRIOS PERMANECEM CHEIOS
    Em maio 18, – com acréscimos decrescentes (derivada) – os reservatório atingem o nível satisfatório de 70%, maior possível, mas ainda inferior a 2012. Daí segue o mesmo padrão, agora com todas as térmicas ligadas, desta vez permanente.
    –Porque os reservatórios devem permanecer cheios todo o tempo?
    Reservatórios cheios permitem suprir picos de demanda por períodos prolongados a qualquer hora, independente do clima. À medida que a demanda por energia cresce, hidroelétricas são cada vez mais solicitadas para atender picos maiores.
    Não compensa suprir picos de demanda (MW) através de usinas térmicas: sua potência seria maior do que a necessária para suprir energia (MW x hora).
    Do lado do consumo o maior crescimento da demanda ocorre no setor de serviços, residencial e comercial, com diminuição da atividade industrial– reflexo do incremento da renda e do avanço do emprego – são razões que explicam o aumento da demanda para fins térmicos.
    A incorporação de eletrodomésticos às residências tais como chuveiros elétricos, condicionadores, refrigeração e iluminação contribuem para a curva de carga no momento do pico, justifica manter os reservatórios quase cheios como reserva estratégica para atendimento de surtos inesperados ou mesmo o aumento dos picos de demanda proporcionalmente à demanda por energia (Kwhora).
    Essas são razões que justificam a geração distribuída, cada um gerando sua própria energia produzindo, ao mesmo tempo, os dois tipos de energia: calor e eletricidade.
    È muito mais barato adicionar unidades para incrementar a capacidade instalada de usinas prontas do que construir novas. Especialmente se houver provisão (slots). Equivale a baixar o fator de capacidade, tal como acontece nos países nos quais predominam térmicas. Ou, países que já esgotaram todo seu potencial hidroelétrico.

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