Uma cidade que vive à espera de dias melhores

Ninguém duvida do que o olhar poeta repete há anos. Flor do Grão Pará. Cidade das Mangueiras. Menina Morena. Respirando os primeiros ares de um 2013 novinho, Belém cruza o ano altiva, sem abrir mão dos títulos emprestados. Mas há desafios. As mudanças no tempo e no espaço apontam as perdas da ‘senhora bronzeada’ que beira os quatro séculos (serão 397 anos no próximo sábado) e, diante da posse de uma nova gestão administrativa, tem pressa. Crescimento urbano, trânsito e saúde pública. A cidade não estaciona. É preciso ordem.

As primeiras horas de uma manhã com sol preguiçoso lembram quem passa. A chuva cada vez mais displicente com o relógio paraense, em janeiro, está sempre à espreita. Do alto, observa Belém como quem aguarda o momento certo para cair. Abaixo, a alternativa é seguir o curso natural. A cidade aos poucos desperta e se agita.

Um. Dois. Três. Os semáforos abrem e fecham e os carros vão se enfileirando. O ano terminou com a estimativa de 350 mil veículos circulando pela cidade [até setembro eram 340.674]. É a frota do Estado inteiro de 10 anos passados cruzando vias que, apesar das tentativas, ainda compõem um sistema antigo e deficitário que levam quase sempre ao mesmo lugar. Resultado: no meio da manhã, buzinas, lentidão, impaciência.

“O ano de 2012 foi marcado por sucessivas mortes no trânsito. Para caminhar bem em 2013, Belém depende do respeito às regras de trânsito, em termos comportamentais da população, e da educação, fiscalização e planejamento, que cabem à gestão pública. Não há como fugir. É uma ação integrada, sociedade e poder público”, comenta a engenheira de trânsito e professora da Universidade Federal do Pará, Patricia Bittencourt, que aponta outra expectativa. “Não se pode esquecer a necessidade de oferta de um sistema de transporte público eficiente e de qualidade. Trânsito e transporte estão interligados. É importante estimular a utilização de modais não motorizados”.

Urbanismo

Misturados ao aglomerado de carros, ônibus e motocicleta, pessoas e construções – antigas e modernas – imprimem a marca de Belém. De grande dama de uma época onde os túneis de mangueiras marcavam a silhueta da cidade, resumir a urbe é cada vez mais difícil. São grandes instalações e inúmeros formatos que juntos parecem indecifráveis. “Do ponto de vista urbano, Belém precisa ser pensada e ser entendida como um todo. Cada trecho da cidade forma junto um grande corpo, se uma área é esquecida todo o corpo fica debilitado. A nova administração precisa focar em um projeto de desenvolvimento global, privilegiar uma área é um grande erro”, aponta Cláudia Nascimento, arquiteta e urbanista com mestrado em patrimônio e especialização em artes visuais.

Segundo a especialista, o ano passado ficou marcado pela falta de gestão para o setor e ausência de regulamentação das leis complementares ao plano diretor. Em contrapartida, afirma, registrou uma participação popular mais efetiva. “Presenciamos manifestações populares importantes em prol da cidade. Como no caso do Casarão do Ferro de Engomar (invadido, o prédio, apesar de tombado, teve inúmeros azulejos arrancados) e na discussão do controle urbanístico no entorno do centro histórico e na (avenida) Almirante Barroso. Acredito que essa tendência deve continuar em 2013. As pessoas estão cada vez mais preocupadas com as questões da cidade. Belém precisa disso”.

Saúde

A saúde, entretanto, é um dos temas mais delicados. Com dois prontos-socorros sobrecarregados, inúmeros profissionais insatisfeitos e uma população descrente, a primeira semana do ano deve ter demonstrado aos recém-empossados gestores que os desafios não são pequenos.

Para o doutor em cirurgia geral e cirurgia do aparelho digestivo, Paulo Amorim, em Belém, um dos pontos cruciais para que se consiga desatar o nó da saúde pública é a revisão do atendimento de urgência e emergência. “Fica até redundante, mas esse atendimento de urgência precisa ser mesmo tratado com urgência por quem chega, porque as pessoas estão morrendo nas filas”, avalia com a experiência de médico e gestor do Hospital Universitário Bettina Ferro. “É evidente que essa atenção vai evitar as sucessivas mortes, mas também é importante se avaliar a defasagem de leitos de retaguarda oferecidos. Falar de saúde em Belém nunca se limita apenas à capital, há uma falência em todo o Estado e nós sentimos as consequências aqui”, afirma.

Amorim acredita que otimização dos atendimentos com vistas à ampliação da capacidade máxima de atendimento, a implantação de unidades intermediárias – as chamadas Upas – já previstas pelo governo federal e o investimento na qualificação dos servidores sejam fundamentais no percurso de quem vai tratar da saúde pública pelos próximos quatro anos para atender as expectativas do ano que se inicia. “Não existe progresso sem que haja qualificação da recepção ao profissional de saúde e isso é possível através de financiamento externo como o programa HumanizaSus do Ministério da Saúde”.

Fonte: Diário do Pará

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