Uso de térmicas está próximo do teto

O alívio do sistema energético brasileiro depende diretamente do quanto choverá no país. Por causa do nível baixo dos reservatórios das hidrelétricas, a geração de energia pelas usinas termelétricas subiu para 13.700 megawatts médios, número próximo do total da capacidade instalada do país, que é de 16.228 MW, de acordo com dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Segundo o ONS, todas as termelétricas disponíveis estão ligadas para atender a demanda, que cresceu acima do aumento da oferta de energia na última década.

O quadro se agravou muito nas últimas semanas. Por causa de um dezembro seco, mais usinas térmicas foram acionadas. No último mês do ano, o uso médio de energia dessa fonte atingiu 10.980 MW. Assim, apenas entre dezembro e janeiro o uso de geração térmica aumentou cerca de 20%. Os volumes são muito maiores do que em igual período do ano anterior. Em dezembro de 2011 e janeiro de 2012, período em que o regime de chuvas foi generoso, a utilização média de usinas a óleo, carvão e gás ficou em 2.459 MW e 3.490 MW respectivamente, sempre segundo dados do ONS.

Como consequência do racionamento de 2001, a geração de energia térmica passou a ocupar um espaço maior na oferta do insumo. Naquele ano, a capacidade instalada de geração de energia do país alcançava 69 mil MW, dos quais 9% eram de origem térmica. Em 2011 (último ano com dados consolidados no ON S) esse peso já atingia 15%. Entre 2001 e 2011, a disponibilidade de energia por termeletrétricas (não sujeitas ao regime de chuvas, porém mais cara) passou de 6,3 mil MW para 16 mil MW. Em 2012, segundo o ONS, nenhum megawatt médio foi adicionado ao sistema por essa fonte.

Ainda compõem a atual estrutura de capacidade instalada brasileira outros 84,6% de energia, divididos entre hidrelétrica, nuclear, eólica, biomassa e outros.

Para ajudar a “aposta do governo”, a meteorologia prevê um período de chuvas dentro da média histórica neste ano para a região Sudeste/Centro-Oeste, responsável por cerca de 70% de toda a geração. Por outro lado, o Nordeste, com 20% de peso, está com previsão de chuvas em um volume até 40% menor do que a média histórica até março, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

Para Nivalde de Castro, coordenador do Grupo de Estudos do Setor de Energia Elétrica (Gesel), da UFRJ, é necessária calma para avaliar como será a oferta de energia ao longo deste ano. Segundo ele, este ainda é o segundo mês do período úmido, que vai até abril. Em 2008, ocorreu situação parecida, que foi contornada com chuvas dentro da média em fevereiro.

“O PLD (Preço de Liquidação de Diferença das Diferenças) bateu no teto naquele ano e logo em seguida choveu bastante. Falar agora que vai haver algum tipo de racionamento é muito prematuro”, diz.

Mesmo que os céus contribuam, as termelétricas devem ficar funcionando em um nível elevado ao longo do ano para garantir a segurança do sistema, o que encarecerá a energia, já que elas são mais caras do que as hidrelétricas.

“Como a situação está mais crítica, o governo pode tomar algumas iniciativas preventivas e pontuais neste ano para ampliar a oferta, como uma força-tarefa para resolver as linhas de transmissão, contratar geração de energia solar de distribuidoras e colocar em funcionamento termelétricas que estão paradas, como a de Uruguaiana”, diz Castro.

Além da seca, o país passou pela última década com um crescimento da demanda acima do aumento da oferta. Enquanto de 2001 a 2011 a capacidade instalada aumentou 41%, a geração teve acréscimo de 55%.

Cristopher Vlavianos, presidente da Comerc, comercializadora de energia, considera que a capacidade de acionamento de térmicas já foi esgotada. “Estamos no limite de térmicas”, diz. Ele lembra que as usinas hidrelétricas em construção e com projetos previstos para os próximos anos devem ser “fio d”água”, sem reservatórios, o que acaba causando diminuição da geração. “A situação deve piorar nos próximos anos e precisaremos de mais térmicas. Os novos empreendimentos estão vindo com potência alta e geração mais baixa, já que não conseguem gerar o mesmo em períodos de seca”, ressalta.

De 2013 a 2017, a Comerc estima diferentes cenários de crescimento de oferta e demanda. Mesmo com a variável de chuvas e de possíveis novos leilões, todos mostram aumento maior da demanda em relação a oferta. “Em condições mais críticas a demanda ultrapassaria a oferta, mas como não é possível consumir uma energia que não existe, o governo poderia fazer novos leilões ou incentivar a redução do consumo de energia, que é uma difícil decisão política”, avalia Vlavianos.

Por: Rodrigo Pedroso e Guilherme Soares Dias
Fonte: Valor Econômico

Deixe um comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*