A educação floresce

Antigo assentamento rural se transformou em um dos principais polos produtores de alimentos do país. Parte da riqueza extraída da terra está sendo direcionada para a melhoria do ensino, vital à formação de mão de obra qualificada

Criada como um assentamento do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) no início da década de 1980, a cidade de Lucas do Rio Verde (MT) se transformou em um dos principais polos produtores de grãos do país ao investir pesado em tecnologia e planejamento. Dos 360 mil hectares cultivados com tratores, colheitadeiras e pulverizadores de última geração, 242 mil são explorados para o plantio da soja — grão que atingiu preços recordes no mercado mundial. Com a agricultura e os preços das commodities em alta, o município registrou um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 1,65 bilhão em 2012.

Natural de Espumoso (RS), o agricultor Cleiton Bigaton, 36 anos, cultiva mil hectares de soja em uma fazenda no município. Três colheitadeiras modernas são usadas no trabalho para enviar a produção para empresas como Ammagi e Cargill, que compram o que ele produz. “Temos um clima bom, investimento em tecnologia para plantar, colher e corrigir o solo, além de negociar com grandes companhias”, comemora.

A riqueza produzida nas lavouras pode ser vista na cidade por meio da infraestrutura existente. Todas as avenidas possuem pista dupla, não há cruzamentos, as calçadas e praças são limpas e o trânsito flui sem engarrafamentos. Um cinturão verde com árvores e um lago estão localizados no centro do município e são visitados diariamente por moradores para praticar exercícios ou passear. O dinheiro do campo também impulsionou o comércio. As principais redes varejistas de eletrodomésticos estão instaladas na região, além de concessionárias de veículos, caminhões e equipamentos agrícolas. Lojas de roupa e calçados vendem as mesmas peças expostas em vitrines de shoppings de Cuiabá (MT).

Comércio

Pelo menos oito hotéis hospedam, em sua maioria, representantes de empresas agrícolas interessadas em fazer negócios com os produtores locais. Churrascarias, pizzarias, bares, restaurantes japoneses são vistos em todas as esquinas. Construtoras da capital do estado e de cidades vizinhas erguem prédios residenciais com apartamentos de 300 metros quadradros, com preço mínimo de R$ 750 mil. Moradias populares também são construídas para acomodar parte da população que busca emprego e melhores remunerações.

De olho no crescimento de Lucas, o empresário Gismar Frandoloso, 50 anos, fechou os 60 pontos de venda de sorvete que possuía no Paraná e mudou-se há dois anos para Lucas do Rio Verde com a esposa e três filhos para montar uma rede de sorveterias. Em média, são comercializados 900 litros da guloseima por semana nas duas lojas próprias da cidade e na franquia que funciona em Sinop (MT). Os 100 sabores oferecidos são fabricados por Gismar, que possui no cardápio produto à base de soja para clientes com intolerância a lactose. A meta dele é abrir mais uma franquia até o fim do ano.

“Vendo mais nas três lojas do que nos 60 pontos de venda no Paraná. Aqui, o verão dura 12 meses e e a clientela está presente o tempo todo. O único problema é que a riqueza da cidade tornou o custo de vida alto”, alerta o empresário, que emprega nove pessoas nas duas lojas que possui no município.

O ensino público também se destaca como um dos pilares que impulsiona o desenvolvimento de Lucas do Rio Verde. Na escola municipal Olavo Bilac, que atende estudantes que cursam do 6º ao 8º ano, as 16 salas de aula contam com quadros mecânicos que mudam de posição na parede por meio de um motor instalado em uma estrutura metálica. Além disso, projetores digitais e telas estão à disposição de professores e estudantes para tornar o aprendizado mais interativo.

Até o fim do ano, todas as salas devem contar com ar-condicionado. “Os 1,1 mil alunos também têm acesso a ginásio esportivo e piscina. Esse espaço, aliado à tecnologia, nos motiva ainda mais a trabalhar para oferecer um bom ensino para os jovens”, diz a gestora da escola, Luciana de Souza Bauer. Um câmpus da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) deve ser construído na cidade nos próximos três anos e pelo menos duas faculdades particulares oferecem cursos para os moradores.

Todas as escolas com piscina e quadras esportivas passarão a funcionar nos fins de semana para que os moradores da cidade possam usar os bens públicos. De acordo com o prefeito de Lucas do Rio Verde, Otaviano Pivetta, a educação é a base do planejamento que enfrentará problemas de mão de obra da cidade e os oriundos do tráfico de drogas. “Temos só 25 policiais militares na cidade, queremos dobrar esse efetivo com um concurso de guardas municipais”, conta.

Gargalos

Mesmo com a pujança do campo, apenas 30% da cidade tem rede de esgoto. Água e luz estão em todos os domicílios. Com a chegada da BRF ao município, muitas pessoas, sobretudo de origem nordestina, migraram para Lucas em busca de emprego. O bairro Bom Jesus, por exemplo, surgiu como uma invasão e é um retrato da precariedade. Falta asfalto, não há esgoto e muitos gatos são feitos em postes de energia para levar luz até as casas.

Morador do bairro, o trabalhador braçal Ivo Laurentino, 35 anos, reclama que, além da falta de infraestrutura, precisa ligar para a polícia com frequência para alertar que usuários de drogas e traficantes se abrigam em barracos abandonados para usar e comercializar os entorpecentes. “A gente sente um pouco de medo. Tenho medo porque minha filha Karollaine só tem 12 anos e sofre com isso”, desabafa a mulher de Laurentino, Rosana Oliveira, 41.

Buracos

A BR-163 é a única saída para escoamento da safra de Lucas do Rio Verde. Principal via de ligação do estado com as regiões Norte e Sul do país, a rodovia tem crateras no asfalto e as obras de duplicação ainda estão em ritmo lento. Não há acostamentos e é comum encontrar automóveis com pneus furados. O representante comercial João Alves, 33 anos, trabalha em uma empresa de sementes e vai à cidade com frequência. Durante uma dessas viagens, perdeu um pneu e uma roda depois de o carro passar em um buraco. Sem um acostamento adequado, levou uma hora para resolver o problema, porque não sentia segurança no local. “Fiquei com medo de ser atropelado. É a quarta vez que o pneu fura porque o asfalto é de péssima qualidade.”

Fonte: Correio Braziliense

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