Parintinenses constroem o espetáculo do carnaval paulistano

Todos os anos, normalmente entre os meses de agosto e fevereiro, uma onda migratória ocorre de Parintins (AM) em direção à cidade de São Paulo. O movimento, já conhecido de pessoas que saem da cidade natal em busca de trabalho no Sudeste, no entanto, não explica por completo esse êxodo anual. O deslocamento é justificado, na verdade, pela fama que os artistas parintinenses, responsáveis pela festa do boi na região, ganharam nas escolas de samba do Sudeste. Esculturas gigantes com proporções perfeitas, movimentos sincronizados e cores vibrantes, que encantam os espectadores do carnaval, têm origem nas mãos habilidosas dos artesãos amazonenses.

Essa é a sexta vez que o artista plástico Denildo Batista de Castro, 30 anos, sai do Amazonas para trabalhar no carnaval paulista. Ele é convidado a construir a principal estrutura visual da festa: os carros alegóricos. “O boi [como é conhecido o Festival Folclórico de Parintins] é vitrine. As pessoas olham e perguntam: quem fez esse serviço? Foi assim que vim parar em São Paulo há seis anos”, relatou. Ele chegou em novembro do ano passado para trabalhar na escola de samba Leandro de Itaquera.

Até 80% dos artistas saem da cidade para trabalhar nas escolas de samba de São Paulo e do Rio de Janeiro nesse período, informou o coordenador de eventos da prefeitura de Parintins, Edwan Oliveira. “Agora, o festival de Parintins está na fase de elaboração de projeto e desenho das estruturas. Não haveria como fazer trabalho de galpão [estrutura similar ao barracão das escolas], porque os artistas estão fora. Aqui só começa depois do carnaval”, relatou.

Segundo o coordenador, a maioria das escolas de samba conta com a mão de obra parintinense. “Isso começou no final da década de 1990. Varia a quantidade, mas todas têm. Este ano foram contratados até para o carnaval de Santa Catarina”, destacou. De acordo com a prefeitura, cerca de 2 mil profissionais trabalham para as agremiações folclóricas Caprichoso e Garantido, entre março e junho, quando ocorre o festival.

Os parintinenses fizeram fama, principalmente, pelo trabalho com ferragem, escultura, pintura e movimentação das alegorias, apontaram os artesãos entrevistados pela Agência Brasil. “Sou conhecido pela questão da robótica, que é movimentar as esculturas”, explicou Denildo. Ele conta que aprendeu o ofício observando a articulação de bonecos. “Não fiz curso, fui aprendendo com minha própria observação, montando e desmontando brinquedos”, relatou.

Na avaliação de Rodrigo Catete, carnavalesco da Leandro de Itaquera, seria difícil encontrar profissionais tão qualificados e com atuação tão específica quanto a dos parintinenses. “A cada ano, eles se superam no trabalho que fazem”, elogiou. Ele não desconsidera, no entanto, o fato de que se trata de uma mão de obra mais barata, em comparação com a contratada em São Paulo. “Os profissionais daqui assumiram mais o ramo de eventos, que tem bala na agulha para pagar melhor”, avalia.

Além dos artistas autodidatas, o aprendizado com artesãos mais antigos também é uma prática entre as agremiações de Parintins, de acordo com o líder da equipe que está trabalhando na escola de samba Vai-Vai, Júnior Augusto da Silva, 35 anos. “Se há um pouco de conhecimento, vai ter de explorar das pessoas mais experientes. Não um curso teórico propriamente, tem que aprender na prática com quem sabe mais. Comigo aconteceu isso”, declarou.

Para reforçar essa prática, as agremiações subvencionam escolas para possibilitar o repasse de conhecimento. Foi assim que Miguel Barbosa, 27 anos, conseguiu a oportunidade de ingressar como artista do festival. “As escolinhas ensinam desenho, pintura. A gente começa sempre como ajudante e vai progredindo”, relatou. Há 9 anos no Caprichoso, ele sentiu necessidade de se aprofundar no tema: está cursando a faculdade de artes plásticas na Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

“Queria entender um pouco mais do que a gente faz. Não a nossa arte especificamente, mas essas que são expostas aí fora, como as esculturas de Rodin. Entender o que é arte no contexto mundial. Eu já sabia muito na prática”, declarou. Este ano, no entanto, Miguel vai perder o semestre na faculdade por conta no trabalho em São Paulo. “Estava precisando de grana e resolvi ficar aqui. Depois recupero”, lamentou.

De acordo com Miguel, o valor recebido em São Paulo é pelo menos cinco vezes mais do que o de Parintins. A questão financeira também é o que motiva Denildo, líder da equipe da Leandro de Itaquera, a ficar tanto tempo longe da família. “A gente fica mais tempo aqui do que lá, mas prefiro me sacrificar a sacrificar minha família. Faz três anos que passo o Natal e o Ano Novo longe”, justificou. Ele e sua equipe, formada por seis pessoas, recebem R$ 80 mil pelos quatro meses de trabalho.

“Lá [em Parintins] é diferente: cada um tem o seu valor”, declarou. Segundo o artesão, ele recebe cerca de R$ 6 mil por três meses de trabalho. “Agora esse é o meu valor, porque eu já tenho um nome. Lá o pessoal é tudo assalariado. Ganham cerca de R$ 1,6 mil pelo mesmo tempo”, explicou.

Em São Paulo, a escola de samba é responsável por custear passagens, alojamento e alimentação. Os contratos de prestação de serviço, no entanto, são fechados apenas com os líderes de cada equipe, que ficam responsáveis por pagar os demais. “Com eles aqui, [os outros trabalhadores] é na confiança”, declarou.

Apesar do esvaziamento de artesões na cidade nesse período, Edwan Oliveira considera que essa migração é positiva, inclusive, para o aprimoramento do festival. “Esse conjunto de artistas que trabalha Brasil afora, quando volta sempre tem uma ideia a mais na cabeça. É uma forma deles se capacitarem também”, declarou. O artesão Júnior Augusto concorda, pois avalia que o trabalho no carnaval permite mais experimentações. “Lá [em Parintins] tem a comissão de arte e tem que seguir o que está no projeto. Aqui tem o projeto, mas a gente pode sugerir coisas que facilitem, levando em conta nossa experiência, desde que não fuja da proposta”, explicou.

O coordenador destaca que o deslocamento é uma solução viável para absorção da mão de obra que se forma com o festival, mas que ficaria ociosa em outros períodos do ano. “Lógico que todo mundo sonha um dia sobreviver da arte só em Parintins, mas hoje é difícil. Eu mesmo sou artista e só consegui ficar aqui porque busco outras atividades”, destacou. Ele informou ainda que o festival é o principal motor da economia da cidade. “Nesse período, a população dobra e gera uma grande demanda para todos os setores, não só o artístico”, apontou.

Por: Camila Maciel
Fonte: Agência Brasil – EBC
Edição: José Romildo

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