Pesquisa do Inpa identifica espécie de sapo amazônico que utiliza necrofilia para evitar perda de ovos de fêmeas mortas

Segundo observações dos pesquisadores, a morte de fêmeas durante o acasalamento ocorre em outras espécies de sapos, mas esse caso pode ser o primeiro onde traz um ganho, pois gera descendes da fêmea morta

Pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Estudos Integrados da Biodiversidade Amazonas (Cenbam), coordenado pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI), detectaram que na espécie de sapo Rhinella proboscidea os machos acabam acidentalmente matando as fêmeas por afogamento.

A reprodução dos sapos da espécie R. proboscidea é chamada de reprodução explosiva, não muito comum em outras espécies de sapos. Segundo William Magnusson, pesquisador do Inpa e coordenador do Cenbam, na reprodução explosiva há grande competição entre machos, que se reúnem em grande número de indivíduos por dois ou três dias, em locais de reprodução – geralmente lagos, poças de água e nascente de rios – , disputando às fêmeas do local. “A fêmea está na água, tem muito machos e todos estão tentado subir na fêmea então ela fica embaixo e eles acabam afogando ela. Normalmente, quando a fêmea chega lá, ela desova e vai embora, mas os machos ficam a noite inteira brigando por cada fêmea que chega”, explica.

O estudo foi realizado na Reserva Florestal Adolpho Ducke, do Inpa, Km 26 da AM-010 (Manaus – Itacoatiara), com a coleta de 15 fêmeas em junho de 2001 e cinco fêmeas em junho de 2005 em duas lagoas diferentes durante a reprodução explosiva em que envolvem dezenas de machos.

Cópula

A fecundação dos sapos acontece por meio de estímulo do macho usando as patas dianteiras para segurar a fêmea na região peitoral (amplexo axilar) ou na região pelvina (amplexo inguinal). O amplexo (abraço) pode durar horas ou mesmo dias, antes da desova da fêmea.

O estudo apontou que a necrofilia ocorre durante o acasalamento quando os machos acidentalmente matam a fêmea por meio de afogamento, e depois extraem os ovos da fêmea.

Todos os ovos foram coletados e armazenados até entrarem em estágio embrionário, só então foi confirmada a fertilização, quando começaram a apresentar girinos. “Nesse caso foi notado que quando o macho solta a fêmea, ela já não tem mais ovos na barriga, mesmo que a fêmea morra os ovos saem e então o macho fecunda os ovos”, explica Magnusson.

Seleção natural

Embora em alguns casos a necrofilia possa ser vista como algo negativo, a estratégia dessa espécie serve para evitar a perda de ovos depois da morte acidental da fêmea.

A pesquisa observou que a maioria das fêmeas, após a reprodução, deixa o ambiente. Entretanto, os pesquisadores não podem afirmar se essas fêmeas sobreviventes podem participar de uma próxima reprodução.

Magnusson relata que a dificuldade de acompanhar a reprodução dessa espécie é grande porque é uma espécie não vista com muita frequência. Além de pesquisadores do Inpa, William Magnusson e Albertina Lima, pesquisadores de outras instituições participaram: Thiago Izzo e Domingos Rodrigues, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT); e Marcelo Menin, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

Por Josiane Santos
Fonte: INPA 

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