Projeto revela relação indígena com o conhecimento

Indígenas da Escola Baniwa participantes de um projeto de piscicultura na região noroeste da Amazônia, além de aprenderem as técnicas, conseguiram desenvolver métodos de reprodução mais eficientes. O Projeto de Piscicultura no alto Rio Negro tinha como meta garantir a segurança alimentar. Mas, a relação dos Baniwa com os peixes de cativeiro resultaram em laços que evitaram o seu consumo. “O projeto gerou um efeito diferente do esperado, tornou mais claras algumas ideias indígenas a respeito dos peixes e a relação que esses povos estabelecem com o conhecimento”, afirma a antropóloga Milena Estorniolo.

Ela conta que a ideia de troca de perspectivas é comum entre os índios do projeto. “A partir dela, os peixes são equiparados a seres humanos, capazes de formar uma sociedade complexa”, descreve Milena, ressaltando que “o controle da quantidade de animais caçados e pescados estaria baseado no temor e no respeito, mais do que em uma propensão natural em proteger a natureza”.

No estudo de mestrado Laboratórios na floresta. Os Baniwa, os peixes e a piscicultura no alto rio Negro, desenvolvido na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, a antropóloga acompanhou, em 2011, as atividades de piscicultura na Escola Indígena Baniwa e Coripaco Pamáali, sendo que a pesquisa completa se desenvolveu entre 2010 e 2012.

O Projeto de Piscicultura no alto Rio Negro, localizado no noroeste Amazônico, surgiu a partir de uma parceria entre a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) e o Instituto Socioambiental (ISA), uma ONG brasileira que trabalha, entre outros aspectos, as relações entre os povos indígenas e o meio ambiente. O projeto foi proposto em 1998, após a demarcação da Terra Indígena Alto Rio Negro, com o objetivo de reduzir uma escassez de peixes que os índios da região vinham alegando há alguns anos.

A ideia foi tornar os indígenas responsáveis por três estações de piscicultura, onde se tornaram técnicos e estavam encarregados de cuidar dos peixes, desde a sua alimentação e reprodução em cativeiro, até a distribuição para aldeias, famílias e escolas.

Na região, a pesca (assim como os rios e peixes) tem papel principal na cultura, não apenas como forma obtenção de alimentos, mas também em aspectos sociais. “Os rios e os peixes podem nos ajudar a compreender as relações que os indígenas estabelecem com os animais e com o que nós chamamos de natureza, que para eles têm um significado completamente diferente”, explica Milena.

Os mitos e as conquistas

Para os indígenas, os peixes seriam semelhantes aos humanos, capazes de constituírem uma sociedade complexa, como a que vivemos. Para eles, os animais e plantas enxergam a si mesmos como seres humanos e enxergam os seres humanos como animais ou espíritos.

“Essa possibilidade de troca de perspectivas é algo muito elaborado e difundido no pensamento indígena, e foi batizado pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro de perspectivismo ameríndio, ideia que nos ajuda a entender as relações entre os índios do alto rio Negro e os peixes.”

Os Baniwa são cuidadosos com a atividade da pesca visando evitar a ira das grandes serpentes, para eles, as responsáveis por dar a vida aos peixes. Muitos deles afirmam que os animais criados em cativeiro não são iguais aos dos rios e há, até mesmo, piscicultores que evitam matar e comer os peixes que eles mesmos criaram por possuírem laços afetivos com os animais.

Algumas lideranças dos Baniwa defendem que o projeto foi um sucesso, mesmo que ele tenha passado longe de abastecer as pessoas das aldeias da região: “Os indígenas estão mais interessados em domesticar os nossos saberes e conhecimentos do que em domesticar os próprios peixes”, diz a antropóloga. “Além de não pensarem que estão sofrendo de problemas de ‘segurança alimentar’, querem nos mostrar que são tão capazes quanto nós de lidar com as tecnologias e conhecimentos científicos”. As técnicas desenvolvidas pelos indígenas passaram a ser a utilizadas pelas outras estações.

A aquisição de novas técnicas não levou a uma substituição ou a perda dos costumes indígenas. Ao contrário, a ciência acabou por se encaixar no sistema de conhecimento indígena e atuar em conjunto para uma melhor adaptação na piscicultura, no caso estudado.

Fonte: Agência Usp

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