“Nós não vamos sair sem sermos ouvidos”, afirmam indígenas

Cerca de 170 indígenas ocuparam o canteiro de obras da barragem e voltaram a suspender, por tempo indeterminado, os trabalhos da Usina Hidrelétrica Belo Monte

Foi postada hoje a oitava carta manifesto no blog realizado pelos indígenas que participam da ocupação do canteiro de obras da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. A carta afirma que a ocupação será mantida até que os povos indígenas sejam ouvidos e que não acatarão o pedido de reintegração de posse favorável ao consórcio construtor da usina hidrelétrica.

Segundo a decisão juiz federal Sérgio Wolney de Oliveira Batista Guedes, da Subseção de Altamira, que concedeu a reintegração, a Funai e a União deveriam retirar os 170 indígenas que ocupam os canteiros até hoje (28), caso contrário a Força Nacional seria acionada e os participantes receberiam multa diária de R$ 50 mil.

A Força Nacional já está no local e os manifestantes temem um confronto. “Vocês vão entrar para matar. E nós vamos ficar para morrer. Nós não vamos sair sem sermos ouvidos.”, afirma o documento.

Os indígenas pedem a suspensão das obras de Belo Monte e dos estudos das usinas de Teles Pires, para que sejam realizadas consultas prévias com poder de veto e a presença do ministro Gilberto Carvalho da Secretaria Geral da Presidência da República no local.

Leia a carta da íntegra:

Carta no. 8: o massacre foi anunciado e só o governo pode evitar

Nós ocupamos o canteiro de obras de Belo Monte. Nós estamos defendendo nossa terra. Uma terra muito antiga que sempre foi nossa. Uma parte vocês já tomaram. Outra vocês estão tentando tomar agora. Nós não vamos deixar.

Vocês vão entrar para matar. E nós vamos ficar para morrer. Nós não vamos sair sem sermos ouvidos.

O governo federal anunciou um massacre contra os povos indígenas, os 170 guerreiros, mulheres, crianças e lideranças e pajés que estão aqui. Esse massacre vai acontecer pelas mãos das polícias, da Funai e da Justiça.

Vocês já mataram em Teles Pires e vão matar de novo quando for preciso para vocês. Vocês mataram porque nós somos contra barragens. Nós sabemos do que vocês são capazes de fazer.

Agora quem pediu para nos matar foi a Norte Energia, que é do governo e de empresários. Ela pediu para o juíz federal, que autorizou a polícia a nos bater e matar se for preciso. A culpa é de todos vocês se algum de nós morrer.

Chega de violência. Parem de nos ameaçar. Nós queremos a nossa paz e vocês querem a sua guerra. Parem de mentir para a imprensa que estamos sequestrando trabalhadores e ônibus e causando transtornos. Está tudo tranquilo na ocupação, menos da parte da polícia mandada pela Justiça mandada pela Norte Energia mandada pelo governo. Vocês é que nos humilham e ameaçam e intimidam e gritam e assassinam quando não sabem o que fazer.

Nós exigimos a suspensão da reintegração de posse. Até dia 30 de maio de 2013, quinta-feira de manhã, o governo precisa vir aqui e nos ouvir. Vocês já sabem da nossa pauta. Nós exigimos a suspensão das obras e dos estudos de barragens em cima das nossas terras. E tirem a Força Nacional delas. As terras são nossas. Já perdemos terra o bastante.

Vocês querem nos ver amansados e quietos, obedecendo a sua civilização sem fazer barulho. Mas nesse caso, nós sabemos que vocês preferem nos ver mortos porque nós estamos fazendo barulho.

Canteiro de obras de Belo Monte, Vitória do Xingu, Pará, 29 de maio de 2013

O blog do movimento é: http://ocupacaobelomonte.wordpress.com/

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