Aventura na fronteira do Brasil com o Peru é garantida

Há treze anos, ex-seringueiro trabalha como canoeiro na balsa “Três Fronteiras”, no Porto dos Peruanos, no rio Solimões e coleciona histórias de vida

Juvenal, que trabalhava como seringueiro, mudou de ramo e há 13 anos transporta pessoas pelo rio, entre o Brasil e o Peru (Florêncio Mesquita)

As águas do rio Solimões na fronteira do Brasil com o Peru, na região de Tabatinga, são repletas de histórias de brasileiros e peruanos que utilizam o rio como sustento e que vivem em alerta devido ao perigo na travessia. As águas são constantemente utilizadas por narcotraficantes que tentam introduzir, no Brasil, a cocaína produzida no Peru. Há treze anos, o ex-seringueiro Manoel Juvenal Dias, 59, trabalha como canoeiro, na balsa “Três Fronteiras”, no Porto dos Peruanos, no rio Solimões, levando pessoas de Tabatinga para a ilha de Santa Rosa, no Peru.

Em apenas dez minutos, Juvenal atravessa as águas barrentas do rio Solimões e chega ao Peru. As águas do Solimões podem esconder “muitas coisas”, além de histórias, como o próprio Juvenal costuma dizer. Em mais de uma década de navegação, um fato em especial chamou atenção dele. Há aproximadamente oito anos, durante uma travessia, o motor da embarcação de Juvenal parou depois que a palheta do equipamento ficou presa a uma corda.

Quando o canoeiro levantou o motor e começou a puxar a corda, viu que na outra extremidade tinha algo preso. Para a surpresa dele, eram três corpos, já em estado de decomposição, consumidos por peixes. Os corpos seguiam a corrente de descida do rio, provavelmente, vindos do Peru.

Para Juvenal, a hipótese mais clara é que os três tenham sido vítimas de narcotraficantes. O relato reforça as histórias reais de perigo na região da tríplice fronteira, e outras que passam a fazer parte do imaginário dos moradores, por não terem confirmação. Fato é que, em uma viagem, mesmo que curta, com Juvenal ou com um dos outros 20 canoeiros que trabalham na balsa Três Fronteiras, é possível ouvir histórias, relatos de personagens curiosos, sendo alguns de turistas, mas principalmente de moradores locais. Muitas pessoas que moram no Peru atravessam para o Brasil nas canoas porque trabalham em Tabatinga.

Fora do período da operação Ágata, que começou dia 8 de maio, as embarcações que passam naquele trecho não são 100% vistoriadas. A “brecha na travessia” faz com que a entrada de drogas, principalmente, cocaína e de produtos contrabandeados, seja uma realidade na região. Contudo, durante a Ágata, toda e qualquer embarcação é abordada pela Marinha e Exército. Nada suspeito de favorecer o narcotráfico, como insumo para drogas, tais como cimento, gasolina e água sanitária, passam pelo pente fino realizado pelos militares no meio do rio.

“A fiscalização é boa para todos nós. Dá para se sentir mais seguro. Assim evita esse negócio de droga. Até se o colete salva vidas estiver aberto ou irregular a Marinha nos para”, contou.

Os fiscais verificam a documentação da embarcação e se o condutor tem habilitação. “Tudo é muito rígido, mas deveria ser o ano todo. Durante a operação, nada passa despercebido ou sem que os militares não vejam”, disse Juvenal.

Canoeiro, ex-soldado da borracha

Juvenal é um dos muitos brasileiros com o “pé” no Peru. Ele deixou de ser seringueiro, atividade que exercia desde a adolescência, porque a extração da seringa na região de Benjamin Constant e Atalaia do Norte passou a ser restringida. Ele fala com nostalgia dos tempos de seringueiro e do processo de extração e produção da borracha.

O material foi responsável pelo crescimento de Manaus, Porto Velho e Belém no que até hoje é chamado de “ciclo da borracha”. Juvenal realiza entre 10 e 15 travessias por dia e cobra R$ 3 por pessoa do público que procura o serviço. O canoeiro chega a transportar 40 pessoas por dia, das 7h às 18h, de domingo a domingo.

Ele faz questão de esclarecer que a embarcação dele é uma canoa com motor 15 HP e não uma voadeira. “Toda hora tem gente indo e vindo, mas nem sempre a canoa vai cheia. As voadeiras são mais potentes e vão para Benjamin. Meu motor é 15 HP e serve bem para atravessar para o Peru”, disse.

Se aparecer apenas uma pessoas ele faz a travessia cobrando o mesmo valor. Juvenal contou que em 13 anos, nunca viu um acidente relacionado a naufrágio no rio Solimões. “Teve apenas uma vez que duas canoas se chocaram no meio da noite quando uma vinha do Peru e outra de Tabatinga e uma senhora morreu. Mas não aconteceu de afundar porque quem navega aqui é experiente”, explicou.

Por: Florêncio Mesquita
Fonte: A Crítica 

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