O Brasil no centro do debate climático

Faltando dois anos para entrar em vigor o novo acordo climático da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, a secretária executiva Christiana Figueres veio ao Brasil, na última semana, pedir a liderança do país nas negociações internacionais, ao se reunir com a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira. O apelo da representante da ONU não acontece à toa. Na semana retrasada, a última rodada da conferência sobre mudanças climáticas em Bonn, na Alemanha, não trouxe esperanças com a insistência da Rússia — acusada de criar políticas para comprometer os acordos para conter a emissão de gases poluentes — em atrasar as negociações.

Na passagem pelo país com “capacidade científica muito impressionante em matéria de mudanças climáticas”, ela participou de uma comissão no Congresso e de um debate na Universidade de Brasília. Em entrevista exclusiva ao Correio, a costarriquenha ainda falou sobre as manifestações que tomam as ruas de várias capitais: “Esses problemas que estão por trás dessas demonstrações, por exemplo, o transporte público insustentável, podem ser solucionados ao mesmo tempo em que se solucionam os problemas de mudanças climáticas”. “Ao melhorar o sistema de transporte e torná-lo um sistema sustentável, o que se está fazendo é beneficiando duas agendas: a nacional e a global”, completou.

A conferência do clima em Bonn, na semana passada, ocorreu enquanto parte da Europa Central, inclusive a Alemanha, era castigada com inundações. Como está a situação da mudança climática no mundo?

Os efeitos extremos da natureza golpearam quase todos os países. E me parece que os governos estão se dando conta de que têm de acelerar uma resposta política às mudanças climáticas. A tendência do volume total de emissões de gases de efeito estufa segue subindo. No momento, as emissões continuam crescendo e já ultrapassaram o limite de 400 partes por milhão, a mais alta concentração de gases na atmosfera da história. Isso significa que está cada vez mais difícil e custoso buscar uma solução para a mudança climática.

Esse assunto tem preocupado até as nações mais poluidoras. A China, por exemplo, decretou que as indústrias do país terão de diminuir as emissões em 30% até 2017. Como a senhora enxerga essa mudança de paradigma?

Alguns países estão se dando conta de que têm de fazer algo tanto pela saúde de seu povo, que é a razão na China, quanto pela qualidade do ar que respiram. Todos percebem que, para seu próprio interesse, é preferível tomar as medidas que também são soluções para as mudanças climáticas.

Na Câmara dos Deputados, a senhora relacionou as manifestações no Brasil com a agenda climática, pois elas reivindicam um transporte público de qualidade.

As manifestações no Brasil são um problema interno que precisa ser solucionado no Brasil. Elas não têm nada a ver com as mudanças climáticas, mas os problemas que estão por trás das manifestações, como o transporte público insustentável, podem ser solucionados ao mesmo tempo em que se solucionam os problemas de mudanças climáticas.

A senhora também destacou a posição privilegiada do Brasil por ter reduzido as emissões mesmo sem ter obrigações internacionais e enfatizou que “o Brasil não escapa da liderança que terá de enfrentar em 2015”. O que se espera do país nas negociações do novo acordo climático?

Espera-se que o Brasil continue com uma liderança nacional e internacional, como já tem tido, e que funcione como uma ponte entre as nações industrializadas e em desenvolvimento. Além disso, que consiga colocar opções sobre a mesa de discussões e as apresente aos outros países.

Sobre as negociações do novo acordo climático, que ocorreram na Alemanha, qual é a expectativa para 2015? Como os países têm se comportado?

A cada conferência, surgem mais detalhes e uma direção mais clara, mas acho que essas negociações não estão se dando com a rapidez que merecem. Espera-se que os países continuem trabalhando em direção a um acordo; e eles têm feito isso. Na última sessão de Bonn, começaram a discutir como pode ser a estrutura desse documento. Espera-se que se desenvolva um rascunho para 2014, e o acordo final para 2015.

Pela primeira vez, o documento pode cobrar reduções de emissões de gases de efeito estufa dos países em desenvolvimento. Como isso vai ser feito?

O novo acordo climático para 2015 será diferente do Protocolo de Quioto, criado somente para os países industrializados. Desta vez, se prevê um acordo universal, em que haverá obrigações diferenciadas, mas para todos. É óbvio que o Brasil não tem responsabilidade histórica em mudanças climáticas, pois essa cai sobre os países industrializados. Porém, a mudança climática é um tema global, e a atmosfera não sabe nada de política. Cada um dos países tem uma responsabilidade futura.

Por: Marianna Rios
Fonte: Correio Braziliense

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