Amazônia: mulheres negras protagonizam a luta popular

O capitalismo patriarcal e machista é um dos indicativos da invisibilidade da mulher na historiografia oficial. Na Amazônia do século XX, o Centro de Estudos e Defesa do Negro no Pará (Cedenpa) no início dos anos 1980 serviu de catalisador das iniciativas contra o racismo num país em reconstrução democrática. No conjunto de ativistas são reconhecidas pelo engajamento e seriedade as militantes Nilma Bentes (foto) e a professora Zélia Amador.

O seio da Tia Ciata (Hilária Batista de Almeida) o samba alimentou, exclamava a canção de Aluísio Machado, de 1983, defendida pela Escola Império Serrano. A baiana de Santo Amaro da Purificação é personagem histórica da afirmação da cultura de matriz africana no Rio de Janeiro. A cozinheira e também mãe de santo é reconhecida por abrigar sambistas em sua casa. Relatos jornalísticos e acadêmicos a imortalizam como fundamental na consolidação do gênero no bairro da Saúde, Praça Onze e na Pedra do Sal.

Mãe Andresa teve importância similar nas terras do Maranhão. Ela dirigiu a Casa das Minas em São Luís. O espaço é uma referência ao culto afro no estado. Ela foi a última princesa da linhagem direta Fon, originária do Benin e Togo. Ambas viveram no fim do século XIX e começo do século XX.

A escritora mineira de Sacramento, Carolina Maria de Jesus nasceu no ano do começo da I Grande Guerra, 1914. O livro mais conhecido, Quarto de Despejo, escrito na década de 1950, denuncia as mazelas do processo de exclusão social. Ao longo dos anos a obra foi traduzida para 13 idiomas. A mãe solteira Jesus morou na favela Canindé, em São Paulo, no momento de modernização da metrópole. Ela defendeu os dias como catadora de sucata. O livro é um diário de bordo de quem sobreviveu no olho do furacão da miséria.

Em Belém, as talheiras, grupo de mulheres lavadeiras, configurou uma espécie de sociedade informal, contam relatos do historiador paraense Vicente Salles na obra O Negro na Formação da Sociedade Paraense. O pesquisador falecido em março deste ano é uma fonte reconhecida sobre a temática no estado. Salles explica que além das taieiras existiam as irmandades, que gravitavam em torno da igreja do N. S. do Rosário dos Pretos, localizada no bairro da Campina, entre os séculos XVII a XIX.

Negros e negras livres e escravizados\as compunham a musculatura das irmandades. Os Irmãos de Rosário e a Confraria do Glorioso São Benedito são sublinhadas pelo investigador, que lembra que elas concluíram a obra da igreja iniciada pelo arquiteto italiano Antônio Landi. Salles destaca que no fim do século XIX uma das associações, a Estrela do Oriente, tinha na direção as mulheres Maria Emília Torres e como vice a Francisca Maria da Conceição. No conjunto de 11 assinaturas da fundação da organização, havia somente um nome masculino.

O capitalismo patriarcal e machista é um dos indicativos da invisibilidade da mulher na historiografia oficial. Negra ou não. No entanto, elas sempre existiram. Na Amazônia do século XX, o Centro de Estudos e Defesa do Negro no Pará (Cedenpa) no início dos anos 1980 serviu de catalisador das iniciativas contra o racismo num país em reconstrução democrática. No conjunto de ativistas são reconhecidas pelo engajamento e seriedade as militantes Nilma Bentes e a professora Zélia Amador.

Dra Zélia – Filha de Nanã não foge a luta

Ela não é bijagó como afirmava a avó, é jita, corpo franzino. Os bijagós – grupo étnico que habitava o arquipélago da costa da Guiné Bissau – possuem corpo forte. A rebeldia a acompanha desde menina, também sendo filha de Nanã, como poderia deixar de ser. Orixá da chuva e da lama, na religião de matriz africana, e mãe de todos os orixás determina a personalidade forte, uma das características de Zélia Amador de Deus.

Talvez seja por isso que a professora da Universidade Federal do Pará (UFPA) e uma das fundadoras do Centro de Estudos de Defesa do Negro no Pará (Cedenpa) tenha dado um puxão de orelha no aluno estrangeiro com quem conversava. “Deixa dessas brasilidades! A tua namorada não tem nome? Então, que negócio é esse de chama-la de ‘minha morena’. Eu sei o que há por trás desses argumentos e você também”. Ele rebate, “Mas no meu país todos são negros, aqui não professora”. E a conversa prolonga-se ainda mais, envolvendo as questões de identidade do negro no Brasil.

De acordo com antropólogo Kabengele Munanga, professor-titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), no Brasil desenvolveu-se o desejo de branqueamento por algumas pessoas negras, assim não é fácil definir quem é negro ou não, o que torna a questão da identidade do negro um processo doloroso. Para o pesquisador os conceitos de negro e branco têm por base fundamentos etno-semântico, politico e ideológico, mas não biológico. Nos EUA não existe pardo, mulato, ou mestiço. Pessoas descendentes de negros se declaram negras, por mais que tenha uma aparência de branco, o que não ocorre no Brasil.

Entre um argumento e outro, o resumo do debate é que o estudante originário da República Democrática do Congo veio ao Brasil para estudar, e assim galgar melhores oportunidades. Ao conhecer Universidade de Campinas (Unicamp) tenta convencer a professora para que seja transferido, e argumenta: “A universidade de lá professora tem outra estrutura, comparada com as faculdades de primeiro mundo. Acredito que lá posso ter melhores oportunidades do que aqui”. Ela, com ar paciente e sereno, mas com voz firme mostra mais uma vez de quem é filha: “Falando assim você agora está nos colocando como uma universidade de terceiro mundo! É isso mesmo? Não pode. Veja no que você está falando”, diz com rispidez.

Nos dias atuais as oportunidades são outras. No entanto, os percalços ainda existem. E eram bem maiores quando a professora Zélia Amador, ainda nos tempos do Marajó do romancista Dalcídio Jurandir (1909-1979) rememora a história dos avós, Manuel Faustino de Deus e Francisca Amador de Deus, “Meus avós saíram do Marajó depois que a minha mãe engravidou. Quando eu nasci ela tinha acabado de festejar 16 anos. Eles ficaram muito desgostosos porque não era isso que eles desejavam para ela. Assim, partiram para Belém, para que eu pudesse ter outra sorte, diferente do destino da minha mãe”.

O Marajó dos avós

As lembranças que Zélia tem do arquipélago foram herdadas dos avós. “Negro no Marajó sabia onde era o seu lugar”, diziam eles a neta. Eles trabalhavam em uma fazenda. O avô era vaqueiro e a avó fazia a comida para os empregados. A família morava no rancho, enquanto os proprietários brancos na casa grande. O arquipélago é terra de sesmarias. O escambo era a forma de pagamento pelo trabalho prestado. Dona Francisca, a avó de Zélia, nunca tinha visto dinheiro até chegar a Belém. Não sabia contar. Menos ainda conhecia o valor da moeda.

Zélia foi educada pelos avós que, na medida do possível, tentaram proporcionar a neta condições para que tivesse melhores oportunidades. A presença deles foi essencial em sua educação, e principalmente na construção e reconhecimento de sua identidade enquanto mulher negra. Foi dona Francisca que transmitiu através da oralidade os mitos africanos da cultura Fanthi-Ashanti, proporcionando à neta a descoberta de sua ancestralidade. “’Não! Não se deve matar uma aranha! Essa aranha pode ter mãe. A mãe dela pode ser uma deusa. Ela pode ser filha de Anansia: Cresci ouvindo minha avó contar essa história. E eu pensava com meus botões: minha avó e essas histórias do Marajó…”.

Fantasia – Não na infância

Após enfrentar um pedregoso caminho Zélia Amador hoje ocupa lugar de destaque na cena dos ativistas negros e negras no país no campo acadêmico. A doutora em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Pará (UFPA) coordena o Grupo de Trabalhos Afro-Amazônicos e integra a Comissão Técnica Nacional de Diversidade para Assuntos Relacionados à Educação dos Afro-Brasileiros (Cadara), este vinculado ao Ministério da Educação.

No período de infância não existia espaço para fantasia nos dias de Amador de Deus. O ensino fundamental foi realizado no Instituto Catarina Labouré. Um colégio de freiras, onde foi monitora quando cursava a 5ª série. Era a melhor da turma. Ajudava os demais alunos em matemática, e por isso não sofreu tantos problemas com os colegas de sala de aula. “Eu tinha uma vantagem em relação aos outros alunos, era craque em matemática, por isso ninguém mexia comigo. Oh, não mexe com ela não, porque ela pode passar cola pra gente, sussurravam os pares de série”, recorda.

Poupada pelos colegas de classe, o mesmo não ocorreu com as freiras. Para muitas crianças o primeiro contato com as artes cênicas é feito ainda na escola. Não com Zélia. Ela conta que adorava dançar a música ‘La Bamba’, e foi por meio das artes que a menina jita aprendeu o que significa a palavra discriminação. Ela narra que as freiras foram de sala em sala convidar os alunos que queriam dançar a música. Apaixonada pela dança prontamente levantou a mão. A freira foi escolhendo os alunos, e apontado os selecionados. Passou por ela e não a escolheu. Zélia pediu explicação. “Fiquei triste e com raiva. A religiosa explicou que foram selecionadas as meninas mais bonitinhas.

Eu questionei porque a menina com cara de cavalo – era esse o apelido dela – tinha sido, e eu era mais bonita que ela”, diz com o ar de rebeldia.

A professora argumenta que naquele momento não tinha noção do real motivo de não ter sido escolhida. Descobriu em um segundo episódio o peso da discriminação. No colégio houve a apresentação de uma peça de teatro, as pastorinhas. Ela relata a lembrança: “Eu pensei que nesse evento eu poderia participar, pois havia um personagem da minha cor. Mas elas não me chamaram. Eles escolheram outra menina, e para ela ficar preta, igual a do personagem, pintaram o corpo dela utilizando cortiça. Na minha infância não teve espaço para fantasia”.

Orgulho de ser Amador

Em 1974 a menina jita que não participou da peça da escola fez o curso de formação de ator, se fez atriz e diretora de teatro. Escreveu as próprias peças depois de adulta. As memórias que encenam a vida de Zélia se concentram na identidade e no orgulho de ser mulher negra. A origem está na própria história dos Amador.

A história da família é recheada de episódios de aventuras e lutas. Em sua tese de doutorado Os herdeiros de Ananse: movimento negro, ações afirmativas, cotas para negros nas universidades, defendida em 2008, no curso de Pós Graduação de Ciências Sociais da UFPA, relata: “Cresci ouvindo a história de Bento Amador. Os Amador, conforme as histórias que eu ouvia, eram donos de terras, muitas terras. Os brancos não se conformaram, queriam as terras dos pretos. Os Amador lutaram, mataram branco. Quem matou? Ninguém sabe. O preto fugiu. Quem terá sido como terá acontecido? Lá estava a faca. E lá estava escrito gravado e cravado: “Bento Amador”. Cadê o preto Bento? Preto Bento fugiu. Nunca mais ninguém viu. “Preto Danado”! Deve ter ido para as bandas do Xingu. Bento Amador ficou na lembrança. E Bento Amador foi sempre minha inspiração para a luta cotidiana. Eu era Amador e Amador não nega a raça, dizia minha avó.”

Políticas de ações afirmativas

A inquietação da filha de Nanã a levou a rua e foi lutar pelos direitos dos negros. Em 1995 participou da primeira Marcha Zumbi contra o Racismo, pela Cidadania e pela Vida, que reuniu perto de 300 mil pessoas em Brasília. Elas buscavam o fim do racismo, a ação urgente do Estado brasileiro contra as desigualdades raciais e a melhoria das condições de vida da população negra.

Um ano após a marcha o presidente da época Fernando Henrique Cardoso cria o Grupo Interministerial de Valorização da População Negra (GTI) para debater e criar politicas públicas que proporcionassem conquistas sociais ao negro. Zélia foi uma das quatros mulheres que integraram o GTI como representante da Região Norte e do Cedenpa, assim como Vera Triunfo do Rio Grande do Sul, Abigail Páscoa do Rio de Janeiro e Dulce Pereira de São Paulo, além de quatro homens. O grupo cria o primeiro conceito de políticas de ações afirmativas que tem por objetivo combater a discriminação e os efeitos negativos acumulados ao longo da história contra a população negra. Para a professora Zélia Amador o desafio atual é a implementação das políticas de ações afirmativas dentro das universidades de modo a atender a todos os sujeitos de direitos.

O vestibular deste ano na UFPA cumpriu com as determinações das cotas raciais, e destinou parte das vagas de graduação para negros de comunidades quilombolas, indígenas e pessoas com deficiência física. O Grupo de Estudos Afro-amazônicos, na qual coordena, lutou pela reserva de vaga para negros de comunidades quilombolas desde 2003. As cotas raciais e o processo seletivo especial para quilombolas são propostas elaboradas pelo grupo.

A inscrição do vestibular da UFPA é feito somente pela internet. Contudo, algumas comunidades quilombolas no Pará não possuem energia elétrica. A dificuldade de acesso à universidade para os alunos que vivem em quilombos começou pela inscrição. A professora Zélia chama tal fato como uma prática de racismo institucional, e explica que sendo a sociedade racista, a universidade não foge a regra, e explana: “Quando você tem uma política pública, e essa politica pública é para alcançar determinado sujeito, ela deve ser dotada de mecanismos que permitam o alcance daqueles sujeitos específicos. Se ela não vem com esses mecanismos, ela não vai conseguir alcançar 100% do publico a quem se destinam as ações afirmativas”.

Nilma Bentes – A guerreira da linha de frente

Avessa a entrevistas Bentes milita há mais de 30 anos no Cedenpa. É par de Amador e outros pioneiros e pioneiras pela ampliação de direitos da população negra no estado. Ela nasceu nos fundos da sede do Clube de Futebol Santa Cruz, no bairro da Pedreira, numa família de oito irmãos. Tem fama de ativista raivosa. No entanto, na manhã do dia 25 de maio, na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Belém, durante o quarto dia de um encontro com mulheres do Maranhão, Pará e Amapá sobre Formação Política e Advocay, parecia a mais bem humorada.

Ela ironiza o símbolo do feminino. Aquele com o círculo com a cruz para baixo. “Tem de ser assim, a cruz para baixo. Carregado de culpa e simbologia de inferioridade”? Ela se esquiva das perguntas a todo tempo. Pondera que ocorreram avanços como a agenda positiva e umas garantias no campo jurídico. Em 1993 a agrônoma publicou o livro Negritando, onde ela mesma fez as perguntas e as respondeu. A obra tem perto de 300 páginas.

A luta parece ser o caminho natural para a efetivação de um horizonte menos ruim para as gerações futuras, analisa em um momento do livro sobre a atuação das mulheres na linha de frente. Bentes advoga no livro que os mais velhos deveriam contar histórias sobre as referências do movimento negro, entre elas Bob Marley, Negro Cosme, Luiza Mahin e Agostinho Neto, com vistas a reforçar o ego da criança negra. Preparar os jovens para enfrentar os desafios.

Sobre o processo de enfrentamento ao longo dos anos, ela lembra que o mais delicado foi um em que era acusada de racismo por um policial, após tomar partido em uma situação de conflito na rua de Belém. “Bentes é uma filha de Ogum. É uma guerreira da linha de frente. Ao mesmo tempo uma pessoa dócil, capaz de gestos generosos“ enfatiza a professora Zélia Amador no prefácio de Negritando. A trajetória de Nilma Bentes e de Zélia Amador, outros atores, instituições e redes faz germinar outras organizações e modos de luta entre as novas gerações.

Casa Preta – Thiane Neves – Uma nova geração

Graduada em Comunicação Social pela Universidade Federal o Pará (UFPA) Thiane Neves é uma negra paraense de Belém, com parentes no interior do Maranhão. Morou por um tempo em São Paulo, onde cursou especialização na Escola de Comunicação e Arte (ECA\ USP), e frequentava espaços relacionados com a cultura de matriz africana. A publicitária é filha de Jane Neves, professora do Curso de Enfermagem na Universidade Estadual do Pará (UEPA).

Na década 1980 a mãe trabalhou em Guiné Bissau no pós guerra. As fotos sobre as realidades do país arrasado pelo conflito, enviadas pela mãe chocava a ainda criança, que não compreendia a meninada tendo aula sob árvores, desprovida de qualquer material escolar e sem carteiras. A mãe é uma referência lembrada quando Thiane reflete sobre a identidade negra. “A mãe chega chegando. Ela se impõe, choca com cabelo black que adota, e os turbantes e adereços que usa”, festeja uma orgulhosa filha. Atualmente a novata na fronteira da militância enfrenta o desafio de encerrar uma dissertação em Comunicação Social na UFPA.

Neves promove os primeiros passos junto ao movimento. Outro dia descobriu que Oxóssi é o seu guia. Num festejo dedicado ao orixá no terreiro da mãe Yacira, localizado na região metropolitana de Belém, por mais de uma vez lagrimou com a celebração. Ela integra o coletivo Casa Preta, uma associação de jovens ativistas. O grupo combina a transferência de informação sobre a cultura negra e a militância em torno do software livre.

A Casa, que fica na Rua Roso Danim, no bairro de Canudos, aglutina migrantes da capital e interior do estado, um paulista (Don Perna) e um maranhense (Lamar). Perna discoteca em festa black e ministra oficina para a construção de instrumentos de percussão. Lamar é rapper. Eles são os articuladores do projeto.

O coletivo mobiliza esforços a partir da cultura para sensibilizar os jovens dos bairros periféricos. Na agenda de atividades consta a promoção de debates, produção de projetos, oficinas para a construção de instrumentos e percussão. “Encontrei-me aqui. A turma consegue fazer um trabalho interessante que combina o aspecto combativo e generoso” enfatiza Neves. A direção da casa é equilibrada, 10 pessoas. Metade masculina e a outra feminina.

Nega Suh- A artesã da luta

“Se eu quero pixaim, deixa / se eu quero enrolar, deixa / se eu quero assanhar, deixa / se eu quero cobrir, deixa / Deixa, deixa a madeixa balançar” – Chico Cesar falou e disse. Assumir a cabeleira é o primeiro passo para o reconhecimento do ser negra ou negro. Suhellen Sena (Nega Suh), 29 anos, expõe com orgulho a beleza da mulher negra. Camaleoa, ela circula na cidade em alguns momentos com o cabelo Black Power, noutros com Trança Nagô ou com turbantes coloridos.

Assim como Thiane Neves, Nega Suh é militante da Casa Preta. Faz parte da nova geração de mulheres negras envolvidas em coletivos e movimentos sociais. Artesã, ela produz colares e pulseiras pautadas na estética afro. Desenvolve uma linha de pesquisa com a simbologia africana, e faz questão que seja identificada como tal. Desta forma acredita contribuir na valorização da estética da mulher negra nas oficinas em que realiza em comunidades quilombolas em áreas urbanas ou rurais no Pará.

Sena tem mais duas irmãs. Em família grande de condição monetária limitada a labuta inicia cedo. Aos 15 anos começou a trabalhar. Segundo ela, momento de lazer era algo esporádico. Curti a adolescência não foi tão proveitoso, “pirar aos 18 anos” como ela mesma diz foi algo que não aconteceu. Por trabalhar muito cedo os estudos acabaram ficando em segundo plano, mas ela ainda pensa em fazer vestibular em Ciências Sociais.

A identidade do ser negra dessa mulher com sorriso de menina percorreu caminho inverso ao da companheira de luta no Coletivo Casa Preta. A família não foi o molde da construção da personalidade de se ver como negra. Seja no aspecto cultural, o social ou politico. Quando se assumiu e passou a expor através do pensamento, atitude e estética, a mãe custou a aceitar. “Minha mãe demorou muito para me aceitar dessa forma. Até então não foi fácil, demorou muito pra sair da porta da minha casa com o turbante na cabeça, e a minha mãe não achar aquilo horripilante” conta.

Suh explica que a razão do preconceito por parte dos familiares está na falta de conhecimento sobre a cultura e luta do negro no Brasil, e destaca que o principal motivo reside na questão religiosa. A família é de tradição evangelista e avalia, “Quando tu te deparas como um ser humano negro, como uma pessoa negra, tu carrega toda uma história do que é ser negro: da tua religião, da cultura, da tua condição, do teu pensamento, e eu vim de uma família que tem uma cultura evangelista, que são pessoas que vieram da religião cristã. Eu sou cristã também, não sou da umbanda ou do candomblé, mas nada me impede de participar dessa realidade. Isso faz parte da minha história também”.

Suh trabalhou como vendedora em um shopping durante cincos anos. Ela lembra que alguns clientes queriam ser atendidas por outras vendedoras de pele parda. “Teve momento que muitas mulheres brancas não queriam ser atendidas por mim, pela fato de ser negra. Eu usava Black, usava trança. Aquilo na cabeça delas eu era algo inferior e eu não poderia ajuda-las. Mas enfim tu precisas do bagulho, ai tu vai engolindo, vai aturando”.

Este ano Nega Suh sofreu injúria racial por parte do vizinho que mora ao lado de sua casa. Ele é líder evangélico e a difamava a chamando de ‘macumbeirazinha’ por ela usar turbantes e tranças. O termo além de ser pejorativo tem como objetivo demonizar a religião de matriz africana.

Sena reflete que o primeiro comentário você releva, como eu fiz. Fiz em consideração a minha família. Para não envolver ninguém. Na segunda vez a porrada foi maior, dele bater no peito e dizer “tu é macumbeirinha sim!”. Por conta da injúria entrou com uma ação judicial contra o religioso. Em agosto será realizado a segunda audiência do processo.

(*) Lilian Campelo é jornalista freelancer e Rogério Almeida é autor do livro Territorialização do campesinato no sudeste do Pará, lançado em 2013 pela UFPA\NAEA.
Fonte: Agência Carta Maior 

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