Marfim da Amazônia, semente de jarina é usada em alianças no Acre

O artesão César Farias aprendeu a arte da ourivesaria com o pai.  Casal escolheu simbolizar a união com a aliança de semente e ouro.

Casal decidiu usar anel de jarina para simbolizar a união (Foto: Veriana Ribeiro/G1)

“Foi uma surpresa”, lembra Emanuelly Falqueto, técnica da Universidade Federal do Acre (Ufac), sobre o pedido de noivado feito pelo fotógrafo e estudante de veterinária Victor Mattos, no último Dia dos Namorados. Na ocasião, ele escolheu uma aliança diferente para representar a união.

O anel, confeccionado por um artesão de Rio Branco, é feito de ouro e uma semente comum na Amazônia, a jarina, conhecida popularmente como marfim da Amazônia. “Quando ele me entregou, disse que escolheu exatamente pela questão regional. A semente era algo bruto, da natureza. Já o ouro era algo sofisticado. Segundo ele, esses dois elementos representavam a nossa união”, lembra.

Junto há seis anos, o casal se conheceu na sala de aula, quando estudava no curso de jornalismo da Ufac. “Ele era o rapaz que ficava sempre me pedindo trabalhos e anotações”, conta Emanuelly. Foi em uma viagem para Brasiléia (AC) que o rapaz decidiu investir em algo além da amizade. “Ele pediu para ficar comigo. Eu disse que aquilo nunca iria ocorrer, porque ele não fazia o meu tipo”, ri a noiva.

Emanuelly admite que sempre sonhou com um casamento, e após anos junto o casal começou a pensar sobre o futuro. “Depois de seis anos, você questiona se o relacionamento vai avançar ou ficar aquilo mesmo, ele sabia que eu sonhava com um casamento, então me pediu. Por enquanto ainda somos namorados, não moramos juntos. Ainda estamos tentando colocar nossos caminhos no mesmo rumo para construir nossa família”, diz.

Victor conta que chegou a procurar alianças tradicionais, mas, quando conheceu os anéis de semente, se encantou. “Até pesquisei anéis de ouro e prata, mas então vi na internet esses de sementes e gostei. Fui atrás do César, que é o artesão, para conhecer (o trabalho)”, disse.

César Farias é um conhecido artista de Rio Branco, famoso por seu trabalho como cantor, repentista e artesão. A criação de biojoia começou em 1984, na época em que servia o Exército. “Eu era da infantaria de selva e passava muito tempo na mata, então colhia as sementes para fazer artesanato e me distrair. Comecei a desenvolver esse trabalho em uma época que ainda não existia esse conceito de biojoias. Quem fazia anéis, colares e pulseiras com sementes eram apenas os índios”, diz.

O artesão começou a unir o conhecimento adquirido no meio da floresta com a arte da ourivesaria, que havia aprendido com o pai. “Ele conheceu minha mãe em Tarauacá e resolveu fazer um par de alianças. Um ferreiro que ele conhecia tinha os materiais e ele decidiu fazer a aliança. Minha mãe, é claro, se apaixonou e, dos oito filhos, eu sou o que deu continuidade a esse trabalho de fazer joias, inclusive os anéis”, conta.

Os anéis de ‘Zé Jarina’

Artesão César Farias uniu sementes da Amazônia e a ourivesaria para criar anéis (Foto: Veriana Ribeiro/G1)

Para divulgar o trabalho de artesanato, César Farias decidiu criar um personagem chamado Zé Jarina. “Achava muito estranho falar sobre mim. Então, criei o Zé Jarina. Só que ele acabou ficando mais famoso do que o próprio César”, ri.

Através do Zé Jarina, um repentista que adora contar histórias, o artesão começou a divulgar as peças, realizando exposições em diversos lugares, desde seringais no interior do Acre até cidades como Barcelona, Madri e Lisboa. Com o tempo, a profissão de cantor também ganhou espaço. “Tenho vários trabalhos, um vai segurando o outro. Mas ultimamente eu vivo mesmo dos shows e da minha venda de Cds e joias”, diz.

Preço das peças

O preço das peças varia de acordo com os metais utilizados e do tempo de trabalho. Um par de alianças varia entre R$ 250 e R$ 300. O artesão também cria colares, brincos e pulseiras, aplicando as técnicas de ourivesaria em sementes.

“Eu fazia todo o trabalho. A colheita e seleção das sementes, depois lapidava e fazia o trabalho de ourives. Agora fiz uma parceria com os índios apurinãs, de Boca do Acre (AM). Pego os anéis de semente prontos e trabalho em cima da peça. É uma forma de ajudar a comunidade e, como eles fazem um trabalho exclusivo para mim, o preço é um pouco maior do que no mercado”, explica César.

Metais preciosos são trabalhados na criação das peças (Foto: Veriana Ribeiro/G1)

Mas o artesão salienta que uma aliança de semente tem cuidados especiais. “Quando você bate em algum lugar com uma aliança normal, o ouro amassa. Já a semente quebra. Tem que ter muito cuidado, porque quando a semente quebra tem que fazer a peça toda de novo”, adverte.

Para César, a originalidade é a palavra-chave de seu trabalho. “Eu não consigo me repetir. Uma peça nunca sai completamente igual à outra. Ainda existe a opção de construir junto comigo, o que acho até bom. É diferente de algo que você compra na vitrine, dessa forma a alma da pessoa vai junto”, diz.

Fonte: G1

 

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3 comentários em “Marfim da Amazônia, semente de jarina é usada em alianças no Acre

  • 31 de julho de 2014 em 21:14
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    Como faço pra comprar um par de aliança de jarina com ouro?

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  • 24 de junho de 2017 em 11:19
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    Eu também gostaria de comprar um par destas alianças, como devo fazer ? Obrigado

    Resposta
  • 17 de julho de 2017 em 17:21
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    Boa tarde,
    Acho o seu trabalho muito bonito.
    Fiquei encantada com a possibilidade de usar uma semente e um metal precioso. Procurávamos um anel de marfim mas não tencionamos perpetuar o comércio ilegal de marfim. Poderia fazer alianças mesmo estando nós em Portugal?

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