“Os índios estão com muita raiva do chefe do povo branco do Acre”, diz antropólogo que atua no Estado há 35 anos

O antropólogo Terri Vale de Aquino, 67 anos, criticou duramente o governo do Acre por captar, em nome dos povos indígenas, milhões de dólares em financiamentos junto ao Banco Mundial e BNDES e não repassá-los corretamente em benefício das comunidades. Na semana passada, lideranças indígenas pediram ao Ministério Público Federal para interceder junto ao governo estadual para que haja diálogo contra a situação de abandono em que se encontram.

– A realidade é que estão jogando dinheiro fora. É o que estou vendo no Acre. Existe dinheiro pedido pelo governo do Acre em nome dos índios ao BNDES e ao Banco Mundial que não está sendo bem aplicado – critica, assinalando que verbas são pulverizadas dentro da estrutura burocrática do governo estadual de forma “pouco zelosa”.

Mais conhecido como Txai Terri Aquino, o antropólogo atua nas florestas do Acre há 35 anos. O Acre que se conhece não seria o mesmo sem a perseverança dele em lutar para que 15% dos 164.123,040 km² do território estadual estejam assegurados como florestas pertencentes aos indígenas.

– Os índios estão com muita raiva do chefe do governo do povo branco do Acre. A insatisfação está concentrada no governo Tião Viana – disse o antropólogo.

Pai de oito filhos, sendo quatro indígenas, Txai Terri Aquino é respeitado pelo que fez até aqui por 16 etnias e uma população estimada em 20 mil indígenas no Estado.

Ele disse que “existe muita propaganda enganosa no ar” por parte do governo estadual, que se aproveita de muita coisa que já não continua mais sendo feita em benefício dos indígenas. Segundo o antropólogo, o governo de Jorge Viana, atualmente senador, apontou os rumos, abraçou os índios e os fez sentir orgulho de sua cultura.

– O que temos agora é um abandono e esse abandono está sendo criticado pelo Jorge Viana, irmão do governador. Os índios estão confirmando que realmente existe um abandono. Um índio me disse que quando Tião Viana sobrevoa a floresta de helicóptero não vê a floresta, mas o subsolo. Ele olha para a floresta e vê barris de petróleo, bujão de gás. É dessa maneira que este governo está tratando a floresta. Acho que o governo, se for inteligente, vai chamar os índios para conversar. Os índios querem diálogo com o governo, mas não querem diálogo mentiroso.

Veja os melhores trechos da entrevista exclusiva de Terri Vale de Aquino:

“Em nome desse amor”

Estamos vivendo agora uma lua de fel. O documento entregue ao Ministério Púbico Federal é de uma clareza ímpar, pois pontua os problemas relacionados às políticas públicas para os povos indígenas no Acre. São denúncias sérias e os índios não estão de brincadeira. Estou falando em meu nome pessoal, pois não estou autorizado a falar em nome do movimento indígena ou das pessoas que escreveram o documento. Estou falando como um antropólogo que anda pelas florestas do Acre há 35 anos, colaborando na conquista das terras indígenas. Portanto, estou falando como cidadão acreano e antropólogo. Sou pai de oito filhos, sendo quatro deles indígenas. Estou falando em nome desse amor. O documento trata de assuntos que já foram expostos ao governo. Simplesmente os índios entenderam que a partir de agora necessitam de um aliado maior, que seja capaz de ajudá-los a dialogar com o governo do Acre.

Dinheiro jogado fora

O documento está muito bom, assino embaixo, mas deixou a desejar em relação aos índios isolados no Acre. Não tem uma linha sequer sobre esse situação, que é grave em muitas terras indígenas na atualidade. Em pelo menos 12 terras indígenas do Acre existe a presença de populações de índios isolados. Mas os índios estão preocupados basicamente com as políticas públicas em suas comunidades. Eles não estão falando de desenvolvimento do Acre, mas de suas necessidades, de como estão sendo aplicados recursos que estão sendo pedidos pelo governo do Acre ao BNDES e Banco Mundial em nome de suas comunidades. Esses recursos são pulverizados dentro da estrutura burocrática do governo estadual. Essa arrecadação de recursos vem sendo feita de maneira pouco zelosa. As construções que estão sendo feitas nas aldeias, os açudes, as escolas, tudo está sendo mal feito, ninguém acompanha. As empresas que ganham as licitações usam material de terceira qualidade. Mesmo quando distribuem instrumentos de trabalho, como machados, facões ou motores, tudo é de qualidade inferior. A realidade é que estão jogando dinheiro fora. É o que estou vendo no Acre. Existe dinheiro pedido pelo governo do Acre em nome dos índios ao BNDES e ao Banco que não está sendo bem aplicado. Os índios não estão querendo fazer uma generalização da política. Eles estão expressando o que estão vivendo. É preciso que o governo receba os índios e discuta como podem melhorar a situação.

Abandono da floresta e dos índios

Recentemente, o senador Jorge Viana, ex-governador do Acre, falou do abandono das florestas como projeto de desenvolvimento sustentável para o Acre. O senador tem toda razão e os índios estão expondo o abandono das políticas públicas voltadas para as florestas e populações das florestas no Estado. Quando o senador fala em abandono das florestas também está falando do abandono dos indígenas, que são donos de 15% das florestas do Acre. Se é um abandono, como diz o Jorge Viana, e é verdade, os índios são as maiores vítimas desse abandono. Acho que o Jorge Viana, enquanto governador, avançou muito com os estudos de etnozoneamento em terras indígenas. Os índios tinham espaço e qualquer hora que queriam conversar com o governador o Jorge Viana tinha espaço para recebê-los. Mudou muito.

Secretaria indígena

Em março, por exemplo, acompanhei os índios, quando foram entregar ao governador Tião Viana o mesmo documento entregue ao MPF. Ninguém queria recebê-los. Botaram os índios dentro de uma sala, chamaram um assessor para receber o documento. O governador Tião Viana nem se dignou a recebê-los. Diante disso, é que os índios concluíram que não adianta escrever documento e entregar ao governo e buscaram o apoio do Ministério Público Federal na tentativa de fazer com que o governo melhore. Os índios não querem acabar com o governo, mas que melhore a relação do governo com eles. Deviam levá-los a sério, pois os índios de 22 associações estão apontando o rumo dessa nova política indigenista voltada para suas populações. É preciso que haja humildade. Existe gente tão arrogante que já parte para a crítica, parte para negar que os índios buscam o diálogo com o governo. Os índios têm buscado diálogo desde 1999, quando o PT assumiu o governo. Claro que durante o governo Jorge Viana esse governo era mais efetivo, respeitoso e se traduzia em ações concretas. O Jorge chegou a criar uma secretaria estadual para os povos indígenas, no governo seguinte, Binho Marques retrocedeu, transformando-a numa assessoria. Eles captam dinheiro de bancos, no Brasil e no exterior, em nome dos índios, e aplicam de forma muito desrespeitosa.

Desrespeito

O governo federal instituiu a política nacional para discutir gestão ambiental e territorial em terras indígenas. No Acre, os agentes agroflorestais estão fazendo a gestão ambiental e territorial de suas terras. Cada um desses agentes recebe uma bolsinha de R$ 300,00, que às vezes não tem continuidade ou passam muito meses sem receber. Os índios consideram isso muito desrespeitoso. Por que o governo do Acre não insere esses agentes agroflorestais no contexto novo da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas, que a presidente Dilma Rousseff assinou?

Raiva do chefe branco

Os dois assessores para assuntos indígenas do governado Tião Viana são o indígena Zezinho Kaxinawá e antropólogo Marcelo Piedrafita Iglesias. São duas pessoas muito competentes. O Marcelo talvez seja o antropólogo mais importante do Acre. Escreveu um livro maravilhoso sobre história do Acre. Acho até que está sendo sub-utilizado, pois devia estar ensinando na Universidade Federal do Acre. Pena que a universidade seja um lugar meio fechado. Mas a questão não é pessoal. Não existe nenhuma crítica ao Zezinho ou Marcelo. A questão é de formato de uma assessoria que não dispõe de recursos financeiros, que tem que discutir com outros secretários de governo, alguns dele muito preconceituosos em relação aos índios. O buraco está mais em cima. Os índios não estão com raiva do Zezinho e do Marcelo. Os índios estão com muita raiva do chefe do governo do povo branco do Acre. A insatisfação está concentrada no governo Tião Viana. A assessoria indígena não pode fazer nada. É usada muito mais como uma fantasia, para dizer que no governo existe também existe a presença de índio. O Jorge Viana criou uma secretaria estadual para receber as verbas captadas pelo governo em nome dos povos indígenas. Os recursos que o governo vem recebendo do BNDES e do Banco Mundial em nome dos índios poderia estar naquela secretaria que foi extinta. Os índios iam olhar para o governo do Tião Viana e ver as caras deles. Os índios não têm lugar no atual governo e a assessoria é muito pequena.

Existe muita propaganda enganosa no ar, pois estão se aproveitado de muita coisa que já foi feita pelos indígenas e que agora não está sendo mais atendida. Jorge Viana foi um governo que apontou os rumos, que abraçou os índios e os fez sentir orgulho de sua cultura. O que temos agora é um abandono e esse abandono está sendo criticado pelo irmão do governador. Os índios estão confirmando que realmente existe um abandono. Um índio me disse que quando o Tião Viana sobrevoa a floresta de helicóptero não vê a floresta, mas o subsolo. Ele olha para a floresta e vê barris de petróleo, bujão de gás. É dessa maneira que este governo está tratando a floresta. Acho que o governo, se for inteligente, vai chamar os índios para conversar. Os índios querem diálogo com o governo, mas não querem diálogo mentiroso. Os índios querem uma mudança estrutural no desenho das políticas públicas. Por que Jorge Viana criou uma secretaria indígena e o Binho Marques retrocedeu para uma assessoria? Existe uma porrada de secretarias, entre as quais a dos negros e das mulheres, e por que não existe uma secretaria indígena para receber o dinheiro que é captado pelo governo do Acre em nome dos povos indígenas? O formato que o governo Jorge Viana criou foi abandonado, retrocedeu no governo Binho Marques e esse retrocesso foi radicalizado no governo Tião Viana. Talvez os índios sejam preteridos porque não são numerosos eleitoralmente e o governo prefira concentrar seus esforços na maioria dos eleitores que vivem nas cidades. Parece uma coisa pragmática, mas a riqueza do Acre está lá na floresta – biodiversidade e sociodiverisdade.

Por: Altino Machado
Fonte: Blog da Amazônia/ Terra Magazine 

Deixe um comentário