A água em Presidente Figueiredo (AM) e o Golpe de 1964

Na primeira metade da década de 1980 a busca pela posse da água em Presidente Figueiredo, a norte de Manaus/AM, começou a ser negociada mediante a construção de um empreendimento privado que viria a se consolidar a partir da virada do milênio como uma das empresas de maior lucro no ramo do comércio de água potável no Amazonas.

A firma, hoje, explora parcela significativa das fontes existentes no entorno da Hidrelétrica de Balbina, detectadas desde as margens do Uatumã até a entrada a sede do município. O bem natural é retirado a partir da cessão de direitos de exploração e o uso comercial é realizado após beneficiamento na capital amazonense, onde ocorre a adição e/ou calibragem de componentes encontrados na água, como sódio, cloreto, nitrato, sulfato, fluoreto e bicarbonatos, além de bário, estrôncio, cálcio, magnésio e potássio.

Com a apropriação, por parte da iniciativa privada, de grande volume de corpos água naquele município tornou-se evidente que em boa medida a construção da Hidrelétrica de Balbina não trouxe consigo democratização na oferta de água de qualidade à população de Presidente Figueiredo. Pelo contrário, o poder econômico de uma portentosa empresa, a Amazonas Energia, que coordenou os trabalhos de implantação da usina, tendeu a sobrepujar interesses da população.

Hoje, a estatal do setor de fornecimento e manutenção de água potável à população do município de Presidente Figueiredo o faz de modo apenas regular, com falhas na interrupção e redução no tempo diário de abastecimento. O saldo atual do problema recai sobre uma população que sobrevive com severas dificuldades, pouquíssima ajuda governamental e sem perspectivas de melhoria.

Além desses infortúnios, o fluxo de deslocamentos na área da hidrelétrica só acarretou instabilidades sociais e realocações populacionais enormes e erráticas dentro do distrito. Após o enchimento do lago (a montante), a incerteza sobre a instalação em novos ambientes, a preocupação acerca do cotidiano de trabalho em áreas até então não conhecidas e a premente descaracterização social foram evidenciadas.

Em Presidente Figueiredo, diante dessa complexidade, são fomentados descontentamentos por causa da ausência de uma política governamental negociadora, com interlocutores legitimados por parte do governo federal, prontos para recuar a partir de evidências de impactos negativos socioambientais causados pela privatização de um bem comum. A desconsideração de peculiaridades culturais e a falta de planos que gerem cidadania são entraves, também, que fortalecem o sistema de espólio da água.

O que se destaca é que cada vez mais o Estado na Amazônia vem subjugando a sociedade por força coercitiva e distanciando-se exponencialmente daquilo que deveria ser: um organismo a serviço de uma sociedade consciente e pluralista. Isso é mais uma herança do duro Golpe Militar de 1964, que nesta terça-feira atinge seu 50º aniversário, marcado na história como um infortúnio a todos os humanos libertários deste país.

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