Até os líderes erram, às vezes.

De Roberto Smeraldi*

Lembro que era véspera de Natal, lá em 1988. As primeiras páginas dos jornais – sim, na época não havia internet – se preocupavam quase exclusivamente do chocante atentado que derrubara um avião de uma empresa chamada Pan Am, em cima do vilarejo de Lockerbie, na Escócia. A tragédia havia tirado dos holofotes a discussão sobre o que o recém eleito presidente dos EUA, G.W. Bush (pai), faria com os equipamentos anti-espionagem instalados pelo seu antecessor Ronald Reagan na embaixada americana, num país chamado União Soviética. E ninguém havia reparado que numa ilha do Caribe acabava de nascer uma menina chamada Robyn Rihanna Fenty.

Neste contexto, o New York Times resolveu usar sua primeira página para alertar o mundo – incluindo o Brasil – sobre o que significava, num longínquo reduto da Amazônia brasileira localmente conhecido como Acre, o assassinato de uma peculiar figura de morador e utilizador da floresta, tal de Chico Mendes. E, em particular, ressaltava como aquele assassinato tivesse a ver com a vida e o futuro de muita gente, planeta afora. Depois disso, ao longo dos anos, o diário novaiorquino manteve um histórico de grande impacto – e diga-se, de referência e qualidade – na análise de opinião sobre esta região. O que lhe outorga uma legitimidade que grande parte da imprensa – estrangeira com certeza, mas nacional também – não tem para palpitar sobre o tema.

Eis porque (mais) um editorial do New York Times sobre Amazônia merece análise atenta e comentários. Inclusive porque este editorial – para usarmos uma expressão da língua inglesa – parece confundir um pouco a floresta com as árvores, frase que remete ao conceito de que listar várias coisas procedentes nem sempre permite ter uma visão adequada do conjunto. O editorial do New York Times, que pode ser lido na íntegra abaixo, cita uma série de informações e opiniões verdadeiras, sem porém oferecer ao mundo aquela percepção estratégica de onde estamos e para onde vamos que, em outros momentos, soube apontar e até antecipar.

O jornal parece inicialmente endossar a tese de que a freada na queda dos índices de desmatamento dever-se-ia principalmente à aprovação, em 2012, do novo código florestal. Ora, com certeza a aprovação do código – pela forma em que se deu, mais do que pelo seu conteúdo – repassou para a sociedade uma percepção (certa ou errada que fosse) de impunidade. Como já comentamos, esta percepção foi originada tanto pela virulência e arrogância do discurso ruralista, que extrapolava o próprio teor da norma, quanto por uma autoflagelação pessimista em parte da sociedade civil, que para gritar sua angústia atribuia ao código efeitos além do que ele poderia ter. Dessa forma, o impacto negativo do novo código sobre desmatamento não dizia respeito à norma em si, e mais ao impacto psicológico e de comunicação: “se todos dizem que esta é a festa da impunidade, então vamos fazer a festa”, é com certeza um raciocínio que deve ter passado pela cabeça de participantes de eventos de muitos sindicatos rurais da fronteira amazônica, entre um leilão de nelore e um repasse de chimarrão.

Não devemos subestimar os impactos psicológicos e comunicativos no desmatamento, claro: vale lembrar que o momento da inversão de tendência histórica, ou seja junho de 2005, foi viabilizado pela exibição por 18 dias seguidos, pelo Jornal Nacional, de imagens impressionantes de caminhões repletos de toras sequestrados na Operação Curupira. Mas a realidade hoje nos mostra que, paradoxalmente, quem está brigando para a implementação daquele código são justamente os ambientalistas, mesmo que insatisfeitos com seu conteúdo, enquanto os desmatadores parecem fazer de tudo para atrasá-lo. Independentemente disso, as razões da atual freada na queda do desmatamento – e até de alguns repiques que aparecem – vão muito, muito além do que a momentânea percepção sobre uma lei aprovada em Brasília, tratando-se de questões estruturais e mais preocupantes. O fato é que – mais uma vez usaremos uma expressão inglesa, para facilitar a leitura por parte dos amigos do NYT – a política de redução do desmatamento já colheu, há tempo, os low hanging fruits, os frutos pendurados na parte inferior da árvore e portanto facilmente acessíveis. A árvore estava carregada deles, e isso permitiu colheitas volumosas e rápidas. Mas ninguém se preocupou, enquanto isso, de construir uma escada para subir entre os galhos mais altos, com frutos mais espalhados e menores. Fora talvez em alguns casos tópicos e específicos, entre os quais despontam Paragominas e mais algumas experiências.

A razão pela qual estamos estancados na redução do desmatamento é que não fizemos o dever de casa para, em primeiro lugar, permitir que os pequenos produtores familiares e, em geral, os grupos de baixa aversão ao risco ganhem instrumentos e razões para passar a fazer parte desta tarefa nacional. Todos repitem o refrão de que “não é preciso desmatar para produzir”. Se isso é até óbvio do ponto de vista sistêmico, do país, ou de umas cadeias produtivas, não é verdadeiro na perspectiva individual de alguns atores que estão à margem delas. Da mesma forma, pouco fizemos para que as cadeias econômicas relevantes da nossa economia se integrassem no esforço, dando assim sustentabilidade, e uma agenda positiva, a algumas iniciativas que possuiam uma perspectiva emergencial e uma agenda apenas negativa. E finalmente, nada fizemos para que o comando e controle ganhassem moral e credibilidade, num cenário em que se passe a cobrar pelas multas, em vez de apenas lavrá-las, com escasso efeito prático (mais uma vez, hoje elas possuem basicamente efeito psicológico, de constrangimento). São essas três, portanto, as razões não-conjunturais pelas quais a redução do desmatamento deixou de progredir e, em certos momentos e regiões, pode até regredir.

Em seguida, o NYT passa a analisar os agentes do desmatamento, e se limita a tratar da soja. Mais uma vez, como no caso anterior não se nega que a dinâmica de expansão do cultivo deste grão tenha impacto, principalmente indireto e por conta do deslocamento de atividades pecuárias. Mas destacar este como fator principal da conjuntura extrapola, em muito, a realidade.

Enfim, se as mesmas considerações do NYT viessem de veículos que olham normalmente a Amazônia como o exótico mundo do inferno verde, ou do paraíso verde, não estaríamos aqui a questionar as vírgulas. Mas se elas vêm do NYT, temos a obrigação de questionar, pelo respeito que temos por um jornal que normalmente pesa devidamente cada vírgula, especialmente quando se trata de Amazônia. Desta vez, a impressão é de que olharam só algumas árvores, em vez de olhar a floresta, e daí sai um retrato distorcido. Embora a puxada de orelhas aos países desenvolvidos no final do editorial seja mais do que oportuna. Em geral precisa reconhecer que, mesmo quando falha, o NYT presta um serviço importante, ao levantar o tema e pautâ-lo tempestivamente. Algo que só os líderes costumam fazer, mesmo quando não acertam.

* Roberto Smeraldi, 54, jornalista, é diretor de políticas da OSCIP Amigos da Terra – Amazônia Brasileira.

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Leia abaixo o editoral do New York Times (em inglês)

The Opinion Pages|Editorial

Losing Ground in the Amazon

A global forest mapping system developed by a team of scientists from the University of Maryland, Google and the United States government is now able to pinpoint exactly where and at what rate deforestation is occurring around the world. The results are alarming. The world is losing the equivalent of 50 soccer fields of forest every minute. In Brazil — home to 60 percent of the Amazon rain forest and a major component of the planet’s climate system — the rate of deforestation jumped 28 percent during 2012-13. Environmentalists say a 2012 change in Brazil’s regulations governing forest conservation is partly responsible.

Brazil had been making good progress. From a high of 10,588 square miles in 2004, deforestation dropped to 1,797 square miles in 2011; the number of metric tons of carbon dioxide released into the atmosphere dropped as well, from 1.1 billion metric tons in 2004 to 298 million metric tons in 2011. These successes resulted from aggressive enforcement of the country’s 1965 Forest Code, and a 2006 soy moratorium, a voluntary pledge brokered by the Brazilian government, agribusiness and environmental groups to prevent trade in soybeans cultivated on deforested land.

Soybeans aren’t the only cause of deforestation in Brazil, but they are a major factor. Brazil is now the world’s second-largest producer of soybeans after the United States. Soybeans have been a boon to Brazil’s economy, and global demand is growing. Under intense pressure from agricultural interests, Brazil’s Chamber of Deputies approved legislation in July 2012 that rolled back many provisions of the 1965 Forest Code, reduced the amount of reserve areas in the Amazon and gave amnesty to past violators. To her credit, Brazil’s president, Dilma Rousseff, thwarted some of the most damaging provisions of the new legislation, but the rate of deforestation still rose.

The soy moratorium has been extended until the end of 2014, by which time Brazil plans to have in place new mechanisms to monitor soybean cultivation on deforested land. These mechanisms must be backed by credible enforcement. And developed countries need to do more to help Brazil, Indonesia and other nations whose forests are at risk protect a resource in which everyone has a stake.

A version of this editorial appears in print on April 16, 2014, in The International New York Times.

Fonte: Amazônia.org.br

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