Campos usa Marina e gestão no ministério em campanha no AM

Ao lado de sua vice, Marina Silva, o presidenciável Eduardo Campos começou a se apresentar ao eleitorado do Amazonas, que deu mais de 1 milhão de votos a Dilma Rousseff em 2010 – o que neutralizou a vantagem do tucano José Serra na região Sul. Em dois dias de agenda em Manaus, procurou exibir vínculos com Marina, reforçar as críticas ao governo petista e, de forma indireta, pontuar diferenças com Aécio Neves (PSDB), especialmente com relação à Zona Franca.

Segunda mais votada no primeiro turno da eleição presidencial de 2010 no Amazonas (com 26% dos votos), Marina acredita no voto do seu eleitorado em Campos. “Estamos trabalhando para convencer as pessoas”, afirma, rejeitando a expressão “transferência de votos”. Da agenda, constou a obrigatória visita à Zona Franca de Manaus, rápido passeio de barco pelo Rio Negro, conversa com pescadores e jantar com lideranças políticas e empresários, com apresentação de dança do Boi Bumbá.

Em debate com jovens, a maioria do movimento Rede Sustentabilidade -embrião do partido que Marina quer criar-, Campos apresentou sua biografia, comparou o início de sua militância política com o avô, Miguel Arraes, ao início da militância de Marina com Chico Mendes e lembrou a atuação do PSB em defesa da criação do partido de Marina. “Eles vão perder a cabeça, agredir mais, jogar Marina contra mim. Não podemos cair nesse jogo dos desesperados. Nosso caminho é o da unidade. ”

Marina mostrou as razões pelas quais uniu-se a Campos, citou o convite a Sérgio Xavier, um dos fundadores do PV, para a secretaria do Meio Ambiente de Pernambuco e disse que, na discussão do programa de governo, a aliança tem sido “corretíssima”. Na abertura do seminário sobre propostas de governo para o Norte, principal agenda da visita, a ex-ministra afirmou que, “mesmo sem ser vice, estaria fazendo sua campanha”.

Além de mostrar a união com Marina, compõe a estratégia de Campos no Amazonas divulgar ações que adotou a favor da Zona Franca de Manaus (ZFM), como ministro da Ciência e Tecnologia do governo Lula e governador de Pernambuco. Esse é seu principal diferencial com relação a Aécio, pré-candidato à Presidência da República pelo PSDB, partido visto como inimigo número 1 da ZFM.

“Como ministro ele desburocratizou os processos produtivos básicos e, como governador de Pernambuco, fez o entreposto de Ipojuca, que muda a logística da ZFM. Contribui com o escoamento da produção por meio do Porto de Suape”, diz o ex-prefeito de Manaus Serafim Corrêa, principal liderança do PSB no Estado.

Para ele, Dilma “não tem condições morais de falar da ZFM”, porque prometeu prorrogar os benefícios e até hoje não conseguiu. A Proposta de Emenda Constitucional que amplia por 50 anos foi aprovada apenas em primeiro turno e ainda na Câmara. “E o Aécio pode até vir aqui e defender a Zona Franca, mas tem um carimbo difícil de se livrar”, completa.

Constrangimentos causados pelo duplo palanque da aliança no Estado também marcaram a visita. Aliados na chapa nacional, PPS e PSB têm pré-candidatos a governador no Amazonas. Gestos de Marina de apoio exclusivo ao nome PSB, o deputado estadual Marcelo Ramos, irritaram o PPS, que tem na disputa o vice-prefeito de Manaus, Hissa Abrahão. Ramos foi lançado por iniciativa de Marina.

Durante o debate de sexta-feira, Marina postou em sua página no twitter foto do evento, na qual aparecem ela, Campos e Ramos. Postou também declaração de apoio ao deputado. Em reação, lideranças do PPS decidiram não comparecer a jantar oferecido, logo depois, pelo vereador Marcelo Serafim (PSB) a Campos e Marina. Lideranças de vários partidos estavam presentes, até o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio (PSDB). Mas não havia ninguém do PPS.

Uma queixa pública foi feita pelo presidente nacional do PPS, deputado Roberto Freire (SP), no sábado, na abertura do seminário programático. “Não estamos unidos no Amazonas. O PPS tem um candidato e tem outra candidatura [da aliança]. Não sei se esse é o ideal. Não podemos desperdiçar nada. Não podemos ser diletantes. Precisamos derrotar esse bloco político que está aí”, afirmou.

Em seguida, Marina respondeu. “Numa eleição em dois turnos, é bom que cada projeto apresente candidato. Não podemos sufocar brilho nenhum”, disse. Na véspera, em cerimônia de homenagem a Campos na Câmara Municipal, Ramos e Hissa disputaram um lugar mais próximo do presidenciável.

As divergências políticas locais não tiraram o foco da coordenação da campanha. Serafim Corrêa acredita no êxito da estratégia de unir o projeto de Campos à identidade amazônica da Marina, que é do Acre, mas morou em Manaus e tem forte ligação com a região também pela questão ambiental. “Ela se criou em Manaus. Foi lavadeira no Igarapé do 40, morou no Morro da Liberdade. A primeira vez que foi ao cinema foi no Cine Popular em Manaus. A primeira vez que andou de elevador foi aqui. A chapa vai brigar para ficar em primeiro lugar aqui.”

Embora a capital, que concentra 60% do eleitorado do Estado, seja comandada por um aliado de Aécio, o tucano Arthur Virgílio, cuja popularidade está alta, um bom desempenho de Dilma é esperado, por causa do apoio de 60 dos 62 prefeitos do Estado e do palanque do governador, José Melo (Pros), postulante à reeleição, além daquele que abrigará o senador Eduardo Braga (PMDB), líder do seu governo no Senado e pré-candidato a governador. Ele exerceu o cargo por dois mandatos e lidera a disputa, mas ainda não conseguiu construir sua aliança eleitoral. A meta de aliados de Campos é conseguir 30% dos votos no Estado.

O pré-candidato a presidente pelo PSB reforçou, em Manaus, o discurso contra a gestão Dilma, que tem levado pelo país. Criticou o projeto do PT de “manter o poder pelo poder”, defendeu o fim da “política do presidencialismo de coalizão” e repetiu que as mudanças realizadas pela gestão petista “perderam a velocidade e a consistência”. Para ele, as conquistas estão sendo “derretidas”. No seminário, disse que a preocupação eleitoral do governo fez com que ele tente “disseminar o medo” na população mais necessitada de que perderá seus benefícios, caso a presidente não seja reeleita.

Campos e Marina foram ao porto gravar cenas para o programa do PSB local. Conversaram com pescadores, feirantes e vendedores do local. Ao relatar reivindicações do setor, defendeu um polo naval, o turismo, cadeia produtiva para a pesca e uma ação de apoio ao artesanato. “Quando a gente sobe no barco e vê aquele mundo d’água nota que as conversas de lá [Brasília] não têm nada a ver com a realidade daqui e quem olha o Brasil daqui não se vê em Brasília”.

Marina lembrou a pecha que carrega de ser “contra o progresso” e disse que defende o desenvolvimento da região amazônica, mas protegendo a biodiversidade. “A sustentabilidade não é o verde pelo verde. É uma ideia que chegou”. Como Campos, defendeu a adoção de uma “nova política”, que não seja marcada pelo fisiologismo e patrimonialismo e sim por uma aliança programática.

Por: Raquel Ulhôa
Fonte: Valor Econômico 

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