Isolados na selva, índios recebem atendimentos médicos no Amapá

Para chegar à aldeia é necessário enfrentar 15 horas de viagem via fluvial. Doenças tem relação direta com o dia a dia dos índios, dizem médicos.

Em três dias foram realizados cerca de 300 atendimentos (Foto: Abinoan Santiago/G1)

Índios da aldeia Kumenê, em Oiapoque, a 590 quilômetros de Macapá, receberam uma ação conjunta de saúde entre os dias 14 e 16 de abril. A iniciativa foi motivada pela dificuldade que os indígenas possuem para se deslocar até a sede do município, que fica a uma distância equivalente a 12 horas de viagem via fluvial, trajeto que pode demorar mais pela influência da maré, que em alguns trechos impossibilita o fluxo de embarcações por causa do baixo nível da água.

“Alguns pacientes chegam ao hospital do município em estado grave. Diante disso, montamos uma ação para trabalhar com a prevenção e atendimento médico nas aldeias”, corroborou o diretor do Hospital Estadual de Oiapoque Diego Lima.

O cacique da aldeia Kumenê Azarias IoioIaparrá, de 50 anos, contou que por causa da dificuldade de acesso, índios em estado grave de saúde acabaram morrendo durante o percurso. Entre a tribo e a sede do município é necessário passar por três rios, o Oiapoque, Uaçá e Urukawá.

“Essa distância até Oiapoque dificulta muito o tratamento das pessoas doentes. Temos um posto de saúde aqui na nossa aldeia, mas quando o caso é mais grave temos que ir até o hospital. Muitos nem conseguiram chegar até lá”, contou o cacique Azarias.

Ao todo, três médicos realizaram 290 atendimentos na aldeia. Algumas doenças encontradas nos índios da Kumenê têm relação direta com o dia a dia da tribo, a exemplo da agricultura, com o cultivo de mandioca; e alimentação, sustentada a base de farinha de mandioca e pimenta.

De acordo com o clínico geral Noel Dusac, a maioria das consultas nos homens diagnosticou dores na coluna. “O trabalho deles na roça é muito forte. Então isso acaba provocando lesões na coluna, que se não forem tratadas a tempo podem se agravar ao longo dos anos”, comentou.

O índio GeôIaparrá, de 39 anos, foi um dos diagnosticados com fortes dores na coluna. Ele diz que desde criança passa o dia na plantação de mandioca que possui na aldeia para produzir farinha para sustento próprio e vender em Oiapoque. “Saio de manhã para roçar e volto somente no fim da tarde. Quando fica noite começo a sentir as dores no meio das costas. Tem dia que até deixo de ir plantar”, relatou.

Nas mulheres, o problema encontrado com maior frequência foi a gastrite, provocada pela má alimentação. “Muitas índias sentem fortes dores no estômago que é algo comum quando a pessoa tem uma dieta irregular, tanto em horário quanto no alimento que consome. Na aldeia, por exemplo, a pimenta e a farinha de mandioca são ingeridas em excesso várias vezes durante o dia”, disse a médica Mirian Luz.

Durante a ação, realizada pelas secretarias estadual e municipal de Saúde e Casa do Índio (Casai) também foi verificado o controle da malária. Antes considerada uma doença comum na aldeia indígena, segundo os órgãos de saúde, ela foi erradicada na Kumenê. Dos 374 exames realizados, todos deram negativo. Apenas uma pessoa foi diagnosticada com leishmaniose. Ela foi medicada na própria aldeia.

Comunidade indígena

Neste sábado, 19 de abril, é comemorado em todo o Brasil, o Dia do Índio, no Amapá, cerca de 8 mil índios estão distribuídos em mais de 100 comunidades, oriundas de oito povos distintos, segundo dados do governo do estado.

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