Hidrelétrica do Tapajós divide terras e opiniões de um vilarejo

Às margens do rio Tapajós, no Pará, as terras da comunidade Pimental serão cortadas pela barragem de uma das hidrelétricas previstas para a região. Sua população está dividida entre grupos contrários e favoráveis à usina

O futebol é a grande atração dos moradores aos finais de semana em Pimental (Foto: Filipe Redondo/ÉPOCA)

Há pelo cinco anos, uma comunidade erguida às margens do rio Tapajós segue atormentada por um boato que pode, em breve, se tornar realidade: a construção de uma hidrelétrica sobre suas terras. Em meio à floresta amazônica, no sudoeste do Pará, a vila Pimental fica exatamente na área cotada para receber a usina São Luiz do Tapajós, uma das 40 obras previstas para a região no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal. Se a hidrelétrica sair do papel, Pimental será cortada ao meio por uma barragem. Seus moradores darão lugar a toneladas de pedra, ferragem e cimento usados na construção. As ruínas do que um dia foi um vilarejo ficarão submersas pelo imenso lago do reservatório.

Antes mesmo de a obra chegar e dividir a vila no sentido literal, Pimental já se encontra rachada no sentido figurado. Seus moradores travam diariamente uma disputa em torno do tema. Estão organizados em dois grupos com pontos de vista contrários. De um lado, os entusiastas dizem que a usina trará empregos, arrecadação de impostos, melhorias na saúde e na educação. No outro extremo, os contrários afirmam que a barragem virá acompanhada por um falso progresso, transformará a rotina tranquila da região, fará saltar a violência e o custo de vida. Embora tenha se intensificado nos últimos anos, a briga ideológica precede a notícia da construção.

No passado, Pimental pertencia à cidade de Itaituba, uma das maiores da região. A vila então passou a fazer parte de Trairão, um município menor e com menos recursos, sem que a comunidade fosse consultada, sequer avisada. Os moradores vinculados a Itaituba ficaram revoltados; os simpáticos a Trairão não se opuseram. Formou-se, assim, a primeira rixa do vilarejo, uma briga política e por disputa de influência. Mais novo objeto de desavença, a usina tem exaltado os ânimos e aumentado a intolerância local.

O líder CAK diz que não quer a construção da hidrelétrica São Luiz do Tapajós (Foto: Filipe Redondo/ÉPOCA)

Os movimentos rivais são liderados por Silvim, favorável à hidrelétrica, e por CAK, contrário. Seguidores de ambos estão por toda parte e fazem questão de deixar claro, logo numa primeira conversa, de qual lado se posicionam. Os líderes, a despeito de a vila ser pequena, evitam frequentar os mesmos lugares. Se Silvim está na igreja, CAK não entra. Certa vez, os grupos chegaram a sair no braço. Eram meados de 2011. O governo federal havia contratado uma empresa de pesquisas para perfurar as rochas da região e avaliar se o solo é próprio para a construção. Ao saber da chegada dos trabalhadores, a turma do CAK fechou a ponte que dá acesso à vila. Cerca de dez seguidores de Silvim, revoltados com a oposição, invadiram a casa onde seus inimigos se reuniam e partiram para a briga. “Eles não são donos daqui, não podem falar pela comunidade toda”, afirma Silvim. CAK rebate: “Não conheço um lugar do Brasil que melhorou com as hidrelétricas. Se precisar, vamos ser ainda mais radicais. Quem sabe não amarramos alguém da empresa numa próxima vez?”.

Silvim representa os moradores favoráveis à chegada da usina (Foto: Filipe Redondo/ÉPOCA)

Rodeada de floresta, Pimental tem hoje cerca de 750 famílias espalhadas por casas de barro, madeira e alvenaria – todas construídas em ruas de terra e refrescadas diariamente pela brisa do vizinho Tapajós. O acesso difícil, por barco ou estrada de terra, contribui para resguardar seu clima rural e interiorano. A economia gira em torno da pesca de peixes ornamentais no verão, quando o rio está baixo, e do garimpo de metais preciosas, em especial o ouro. Raramente um morador tem trabalho fixo, carteira assinada e dinheiro garantido no final do mês. Com base no extrativismo e na agricultura de subsistência, a alimentação fica ao gosto do que a natureza dá: palmito, açaí, peixe, mandioca, andiroba… A rotina simples – das peladas que fazem a diversão dos moradores, ou ainda dos causos contados na porta de casa à luz do lampião – soa às vezes como precária ao olhar forasteiro. Para muitos que vivem ali, entretanto, não há valor maior do que o da água limpa do rio, das portas e janelas arreganhadas sem o risco de ladrão, do ar fresco e da comida em abundância que cai das árvores direto no quintal.

Como tantos outros vilarejos amazônicos, Pimental surgiu em função de uma atividade econômica ainda no início do século 20. Seus primeiros moradores chegaram do Maranhão, homens atraídos pela esperança de fazer algum dinheiro com uma cultura promissora na época, a seringa. Nessas terras até então desabitadas às margens do Tapajós, os recém-chegados construíram um galpão para guardar a borracha extraída das árvores amazônicas. A clareira aberta na floresta densa logo serviu de porto de embarque e desembarque de passageiros. À medida que o fluxo migratório ganhou corpo, as primeiras casas da comunidade começaram a ser erguidas em barro e sapê.

Aos 105 anos, Maria Bibiana da Silva, a moradora mais antiga de Pimental, tem um racha na própria família. Ela e o neto Edmilson, de 53 anos, querem preservar a comunidade como é hoje. O filho Bernardino, de 84 anos, acha que não há problema no fato de que a vila, no futuro, poderá ir para debaixo d’água. “A gente pode viver na cidade com o dinheiro da aposentadoria. Dá pra viver com mil reais na cidade, não dá?”, diz.

Bibiana, o filho Bernardino e o neto Edmilson. Cada um tem uma opinião diferente sobre a obra (Foto: Filipe Redondo/ÉPOCA)

Bibiana chegou à Pimental com cinco anos. Seus pais, do interior do Ceará, assim como outros migraram seduzidos pela fama dos seringais. Em vez de borracha jorrando das árvores, encontraram índios bravos, quase selvagens. Aos poucos, se conciliaram com os índios e construíram uma vida em torno dos recursos da floresta. Movida pela falta de médicos e de infraestrutura de saúde na região, Bibiana seguiu os passos da mãe e aceitou seu dom de trazer crianças ao mundo. A parteira mais conhecida do Tapajós tem registrado, num caderno de anotações, os 510 bebês que nasceram por suas mãos. “Tinha medo, mas me sujeitei porque não tinha ninguém com coragem e fé em Deus”. Hoje Bibiana sonha em morrer no lugar onde passou um século de sua vida. “Quero fazer a viagem em paz, com a certeza de que os meus vão ficar bem”.

As mulheres usam o Tapajós para lavar roupa, louça e se refrescar nos dias quentes (Foto: Filipe Redondo/ÉPOCA)

Por: Aline Ribeiro
Fonte: Revista Época 

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