Copa 2014: Futebol indígena feminino mantém viva cultura desportiva na Amazônia

O time indígena Selvagem do Amazonas foi o campeão do Peladão 2013 (Foto: Alberto César Araújo)O time indígena Selvagem do Amazonas foi o campeão do Peladão 2013 (Foto: Alberto César Araújo)

O futebol feminino no Brasil ganhou destaque com a estrela internacional Marta. O esporte é uma verdadeira paixão entre as mulheres indígenas da Amazônia. Elas participam de campeonatos amadores e permanecem conectadas às suas famílias e tradições culturais em torno do esporte.

Quando era criança a índia da etnia sateré-mawé Jucenilda Pena de Souza, 35 anos, jogava futebol com os irmãos no campinho da comunidade na terra indígena Andirá-Marau, que fica no município de Parintins, distante a 369 quilômetros de Manaus, no baixo rio Amazonas.

Hoje Jucenilda mora na periferia da capital amazonense, é artesã e meio-campista da equipe de futebol feminino amador Selvagem do Amazonas F.C.

No mesmo time jogam suas duas filhas, a zagueira Angélica Wururuphort (Flor de puçá, na língua sateré-mawé), 17 anos, e a lateral Rangelma Waikiru (Estrela), 15 anos.

“Jogar com minhas filhas é uma diversão, uma coisa muito boa que valoriza a nossa etnia e nossa cultura”, afirmou Jucenilda Pena de Souza em entrevista à Agência Efe em Manaus, uma das 12 sedes da Copa do Mundo de 2014.

O time Selvagem do Amazonas F.C foi fundado em 2012 pelos índios da etnia sateré-mawé da comunidade Waikiru, localizada no bairro Redenção, na zona centro-oeste de Manaus. No ano passado, o clube ganhou o primeiro título no Campeonato Peladão Indígena, o maior torneio de peladas do Brasil.

O Selvagem é um dos seis clubes de futebol indígena feminino que disputam o campeonato de peladas. Formado com 11 jogadoras titulares e sete reservas, o único homem da equipe é o técnico, o indígena da etnia maraguá Eduardo Rosseti Araújo, 30 anos.

“Elas tinham alguma noção do jogo, mas não conheciam a arte do posicionamento, jogavam muito no chutão”, disse Araújo à Efe.

Mas, o técnico não sabia as regras do futebol. “É o primeiro time que eu treino, eu aprendi as técnicas assistindo jogos na televisão”, admitiu Rosseti Araújo.

A jogadora Angélica (blusa preta) estuda para ser advogada (Foto:Alberto César Araújo/FotoAmazonas)

Fora do período do campeonato de peladas, que começa em julho, as 18 jogadoras do Selvagem do Amazonas treinam aos domingos no campo de futebol do bairro Redenção.

Com seus colares e cocares, elas atraem a atenção dos vizinhos quando passam pelas ruas em direção ao campo. Algumas carregam seus bebês no colo. Outras crianças são transportadas em carrinhos pelos maridos.

“Ser jogadora é mais que um orgulho, é uma conquista, pois o futebol não é só para homens. É um desafio, porque temos que trabalhar e criar os filhos”, disse a zagueira Inara Waty (Lua), 22, que é artesã e mãe de três crianças.

Das 18 jogadoras do Selvagem do Amazonas, cinco continuam estudando, sendo que três estão no ensino médio, como Angélica Wururuphort, filha de Jucenilda Souza. A jovem trabalha na Secretaria de Estado para os Povos Indígenas do Amazonas (Seind). “Este ano vou fazer o vestibular de Direito, quero ser advogada”, disse a zagueira.

Otacilene dos Santos Rodrigues, 23, é a goleira do time e estudante da Faculdade de Letras da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). No ano passado, ela partiu da aldeia São Benedito, no município de Maués, também no baixo rio Amazonas, para jogar em Manaus. “Um time de futebol representa a união das aldeias. Quando estou no campo, é para vencer”, afirmou.

Apesar de buscar a preservação da cultura indígena, apenas uma jogadora do clube Selvagem sabe falar a língua sateré-mawé, que pertence ao tronco lingüístico Tupi. É a lateral Cleane Paz Oliveira At (Sol), 28, estudante do curso de Turismo da UEA.

“A vida na cidade influencia nossa cultura, perdemos o contato com a aldeia e com os parentes mais velhos, que conhecem a língua para transmitir aos mais jovens”, afirmou Cleane Oliveira.

A meio-campista Erijana Cardoso Miquiles, 35 anos, é uma das fundadoras do time Selvagem do Amazonas F.C. Casada, ela tem cinco filhos, entre eles duas jogadoras da reserva do clube, Laís, 13 anos, Taise, 19 anos.

Como muitas mulheres do time, Erijana trabalha como artesã de brincos, pulseiras e colares. Diz que reunir as jogadoras para os treinos não é tarefa fácil. Sem patrocínio, é preciso fazer vaquinha para pagar as passagens de ônibus das jogadoras que moram distante do campo na Redenção e para a comida. “O time precisa de equipamentos, uniforme, chuteiras. Nem todas têm condições condões de comprar o calçado, pagar o transporte”, disse.

Fã da jogadora da seleção brasileira Marta e do goleiro Júlio Cesar, que jogará na Copa do Mundo de 2014, Erijana Miquiles disse que não está totalmente de acordo com a Copa do Mundo em Manaus, única cidade sede na Amazônia Ocidental.

“A Copa do Mundo é uma grande honra para o Brasil, que é a casa do futebol, mas tem um lado negativo. É que estão gastando dinheiro público sem valorizar as questões de educação e saúde dos povos indígenas”, disse Miquiles.

Os times indígenas nas categorias feminino e masculino participam do Campeonato Peladão desde 2005. O torneio reúne em média 230 atletas de 14 clubes de futebol. As partidas são realizadas no campo da Universidade Federal do Amazonas, que apoia o campeonato.

Jogadoras exibem o troféu conquistado pela primeira vez (Foto: Alberto César Araújo/FotoAmazonas)

Futebol indígena feminino surgiu para incentivar jovens

O filósofo e antropólogo João Paulo Barreto, 42 anos, índio da etnia tukano, disse à Agência Efe que a inclusão da categoria indígena no Peladão foi uma iniciativa de Jorge Terena, um dos fundadores do Movimento Indígena Nacional, e do coordenador geral do Campeonato Peladão, cronista Arnaldo Santos.

Terena morreu em 2007 aos 53 anos. “Ele defendia a participação dos jovens indígenas nos movimentos de lutas sociais e incentivou as práticas desportivas como um dos instrumentos de inclusão”, afirmou João Paulo Barreto.

Segundo o IBGE, o Amazonas é o Estado que tem a maior população indígena do Brasil. São 168.680 índios declarados no Censo 2010.

A etnia sateré-mawé, de acordo com a Coordenação Regional da Fundação Nacional do Índio (Funai), tem uma população que varia entre 10 mil a 15 mil índios. Eles moram em terras demarcadas dos municípios de Borba, Barreirinha, Maués, Parintins e Rio Preto da Eva.

Entre os anos 70 e 80, famílias da etnia Sateré-Mawé mudaram para Manaus, algumas atraídas pela possibilidade formar os filhos em escolas públicas ou conseguir empregos nas fábricas da Zona Franca.

Hoje, segundo a Funai, mais de 25.000 índios vivem na cidade, sendo 1.500 sateré-mawé. Eles fundaram as comunidades Waikiru e Wat-Ama (Formiga Tucandeira) depois de embates por posse de terra nos bairros Redenção, Santo Dumont, na zona centro-oeste de Manaus, nos anos 90.

Um estudo do Instituto Socioambiental, organização não governamental que defende os direitos indígenas, diz que o primeiro nome – Sateré – quer dizer “lagarta de fogo”, referência ao clã mais importante da etnia. O segundo nome – Mawé – quer dizer “papagaio inteligente e curioso”. O grupo indígena é conhecido por inventar a cultura do guaraná.

Quem é quem no time Selvagem do Amazonas F.C.

Titulares

1) Rosimara Cardoso, 29 anos, capitã

2) Otacilene dos Santos Rodrigues, 23, goleira

3) Inara Waty (Lua), 22, zagueira

4) Angélica Wururuphort (Flor de puçá), 17, zagueira

5) Rangelma Waikiru (Estrela), 15, lateral

6) Cleane Paz de Oliveira At (Sol), 28, lateral

7) Andreia Rolim, 25, meio campo

8) Erijana Cardoso Miquiles, 35, meio campo

9) Jucenilda Pena de Souza, 35, meio campo

10) Adriana Batista Martins, 28, atacante

11) Sandreia Rolim, 28, atacante

Reservas

12) Taíse Cardoso, 19, goleira

13) Andreia Vieira da Silva, 24, zagueira

14) Edilene Cardoso, 20, zagueira

15) Katiane Vieira, 19, meio campo

16) Andriele Vieira da Silva, 22, atacante

17) Laís Cardoso, 13, atacante

18) Andrezza Vieira da Silva, 20, atacante

Técnico Eduardo Rosseti Araújo, 30 anos, etnia maraguá

Por: Kátia Brasil
Fonte: Agência EFE/ Amazônia Real 

Deixe um comentário

Um comentário em “Copa 2014: Futebol indígena feminino mantém viva cultura desportiva na Amazônia

  • 7 de junho de 2014 em 20:36
    Permalink

    Estou impressionada por saber que os nativos do nosso pais estao conquistando o espaco e os direitos de cidadoes brasileiros. Sou brasileira, moro nos Estados Unidos por quase 10 anos, mas quando Morava no Brasil nao tive muita oportunidade de estudar sobre a cultura indigena desse pais rico e maravilhoso in fauna, flora e de differentes culturas. Estudando English como a segunda lingua tenho a oportunidade de falar sobre nossas riquezas culturais e ambientais para alunos de dez diferentes paises os quais tem o mesmo objetivo que e ao mesmo tempo aprender sobre a cultura deles. Estou fazendo pesquisas para falar sobre as riquezas da fauna e flora do Brazil, especialmente da Amazonia brazileira. Espero que nossas autoridades lutem para preservar a cultura dos primeiros habitants, nossa fauna e flora.

Os comentários estão desativados.