Mulheres na luta e resistência contra as mazelas de Belo Monte

Acabou sexta-feira (13), em Altamira, o II Encontro de Mulheres Campo e Cidade. A atividade reuniu mulheres de diferentes municípios em torno de discussões sobre os impactos provocados por Belo Monte nas questões sociais femininas, movimentando durante dois dias os corredores do Instituto de Etnodesenvolvimento da Universidade Federal do Pará, praticamente soturnos devido a abertura da Copa. Foram dois dias de músicas, poesias e debates horizontais.

Elas são artesãs, professoras, donas de casa, cabeleireiras, camponesas, pescadoras, artistas e indígenas da etnia Assurini, Arara e Kayapó. Se reuniram para expor as principais problemáticas que as afligem atualmente e para pensar ações conjuntas visando o fortalecimento da luta das mulheres na região da Transamazônica e Xingu.

“O encontro de mulheres é fundamental para construir outras possibilidade. Você reflete sobre sua vida e sua existência, compartilha e descobre que outras passam pelo mesmo processo. Isso é muito importante”, explica Cristiane Faustino, assistente social, integrante do Instituto Terramar, relatora do Direito Humano ao Meio Ambiente da Plataforma Dhesca Brasil e militante do Fórum Cearense de Mulheres e da Articulação de Mulheres Brasileiras.

Cristiane foi convidada para participar do encontro e acredita que a lógica dos grandes projetos acentuam ainda mais as violações, principalmente as relacionadas às populações mais pobres, causando, inclusive, vários distúrbios psicológicos. “O aumento da violência com cara de violência urbana, como criminalidade, consumo de drogas industriais, criminalização da pobreza, violência policial, tem um agravo geral na condição de vida dos jovens, principalmente dos jovens indígenas, negros e pobres. Tudo isso é fator de muito sofrimento para as mulheres, muitas mulheres enlouquecem mesmo. Causa muitas dores”.

Faustino também ressalta que, com a migração de milhares de homens, aumentam os casos de violência sexual. “As mulheres perdem a liberdade de ir e vir, porque aumentam os estupros disparadamente. No caso das usinas de Jirau e Madeira, por exemplo, houve um aumento de quase 200% de estupro. É um número muito grande”.

Entre as presentes estava Maria da Penha Feu Federucci, agricultora e viúva de Ademir Federicci, o Dema, grande liderança da luta rural na região da Transamazônica e Xingu, sempre denunciando as fraudes da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônica (SUDAM) e a extração ilegal de madeira em terras indígenas.

Dema teve sua militância interrompida em agosto 2001, quando no calar da noite foi covardemente assassinado em Altamira na frente da mulher e dos filhos. Dema participava ativamente da luta e resistência contra a Hidrelétrica de Belo Monte. “Quando alguém morria, ele dizia que a luta não pode parar. Que a vida segue, então estou aqui, seguindo na luta. Essa foi a lição que aprendi com ele”, reitera Maria Federucci. O encontro reuniu mulheres de Anapú, Altamira, Senador José Porfírio, Uruará, Brasil Novo, Medicilândia, Vitória do Xingu e Placas e terá sua terceira edição no ano que vem, na cidade de Uruará.

Texto e fotos: Larissa Saud
Fonte: Movimento Xingu Vivo para Sempre 

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