Coleta do látex é retomada

Pedro da Silva: com kits para os produtores, a borracha atualmente sai pronta para ser processada pela indústria

“Seringueiro fede, ninguém quer chegar perto. E a mulher então? Manda a gente dormir na sala. Por isso tanta gente largou a atividade.” Com um sorriso encabulado, Pedro Flor da Silva, 42 anos, conta que produzir borracha nunca foi das tarefas mais fáceis. O mau cheiro do processo de transformação do látex, aliado aos baixos preços do produto na virada da década de 2000, fez com que muitos abandonassem a atividade em Feijó, a cerca de 350 km de Rio Branco.

Para garantir o alimento da família, os produtores se voltaram para o trabalho nos roçados de mandioca e milho e compraram algumas cabeças de gado.

“Houve momentos em que ‘cortar seringa’ virou um mau negócio”, conta Antônio Flor da Silva, pai de Pedro e líder comunitário do seringal Parque das Ciganas, em Feijó, onde vivem 45 famílias. ‘Seu’ Antônio chegou à região em 1958, aos oito anos de idade, e logo aprendeu o ofício com o pai, que era cearense e se mudou para o Acre para começar vida nova.

Por volta de 2002, o preço pago ao produtor pelo quilo da borracha chegou ao seu patamar mais baixo: R$ 0,50. Isso sem falar na dificuldade logística: a estrada asfaltada só chegou à região em 2010.

Mas coletar o látex está voltando a ser atrativo para as comunidades tradicionais de Feijó. Um arranjo entre governo do Estado, a ONG WWF Brasil e empresas, como a fabricante de calçados franco-brasileira Vert e a fabricante de artefatos de borracha Mercur, tirou os atravessadores da negociação e elevou os preços pagos ao produtor. Com subsídios do governo, o preço do kg da borracha chegou a R$ 10. Há a expectativa de que a Câmara de Vereadores do município aprove o pagamento de um subsídio municipal, o que daria mais R$ 1,50 no preço ao produtor.

“É o maior valor pago pela borracha nos últimos anos, e já melhorou muito a vida dos seringueiros”, afirma Edivilson Gomes, técnico da Secretaria de Extensão Agroflorestal e Produção Familiar do Acre (Seaprof). No total, 12 toneladas de borracha foram comercializadas este ano pelos seringueiros de Feijó e Tarauacá. Com esse arranjo, cada produtor consegue aferir, em média, renda mensal de R$ 1.000 com a borracha.

Além dos incentivos governamentais, outra novidade que animou os extrativistas foi a chegada de tecnologia da folha de defumação líquida (FDL), desenvolvida pela Universidade de Brasília (Unb). O sistema, desenvolvido pelo professor Floriano Pastore, do Instituto de Química da universidade, permite que o látex seja transformado em folhas finas de borracha nas casas dos próprios seringueiros, o que envolveu também as mulheres na atividade.

Com o apoio do WWF Brasil, que financiou a compra de kits para os produtores, a borracha atualmente sai pronta para ser processada pela indústria. Isso pôs fim ao mau cheiro típico do processamento do látex. E Pedro nunca mais precisou dormir na sala.

Por: Andrea Vialli
Fonte: Valor Econômico

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Um comentário em “Coleta do látex é retomada

  • 28 de julho de 2018 em 18:41
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    Tá aí um grande projeto: a retomada do ciclo da borracha amazónica, um alivio para os descendentes dos nossos Herois Soldados da Borracha. Um dos oucos subsídios que deveriam existir para defendermos ainda melhor a fronteira norte. O Mito deveria olhar melhor para essa questão.

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