Migração forçada dos índios vira tema de curta-metragem intitulado ‘Pranto lunar’

A base do projeto de Dheik Praia, que deverá ter locações em Manaus, visa enfocar, de forma sensível, problemas vivenciados por indígenas

“Pranto lunar”é inspirado na música “Índia Lua”, de Antonio Pereira (Phillip Klauvin/Divulgação )

A índia Tunik viu a sua aldeia ser dizimada quando era ainda só uma criança. Muito tempo depois, já aos 55 anos e vivendo na cidade, ela ainda carrega consigo o trauma daquela noite de lua cheia, mas compartilha as boas memórias da vida na comunidade com a pequena neta, Pamela. A trama é a base de “Pranto lunar”, projeto de curta-metragem que visa enfocar, de forma sensível, os conflitos da migração forçada dos índios para as cidades.

“É um problema que acontece até os dias de hoje, mas ninguém fala ou comenta a respeito”, afirma Dheik Praia, idealizadora, roteirista e diretora do projeto. “Tento trazer essa discussão de forma um pouco mais leve, a partir da relação dessa índia, que viveu a vida toda com o peso de ver sua aldeia dizimada, com uma criança”.

Contemplado com o edital Amazônia Cultural do Ministério da Cultura, o projeto de “Pranto lunar” hoje está em processo de preparação para as filmagens, previstas para acontecer entre novembro e dezembro, com um elenco já quase inteiramente fechado.

O curta deverá ter locações em Manaus – inclusive no bairro de Educandos, onde vive Tunik, e em uma feira popular, onde a personagem vende artesanato – e em uma comunidade indígena da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Tupé, povoada por índios das etnias Dessana e Tukano, entre outras.

Formação

Como parte do projeto, os moradores da comunidade indígena deverão receber uma oficina de audiovisual a ser realizada na segunda quinzena deste mês. Para isso, a realizadora audiovisual amazonense busca apoios e parcerias.

“Já temos apoio da Secretaria Municipal de Educação para deslocamentos da equipe entre a cidade e a comunidade. Agora buscamos apoio para conseguir câmeras para levar até a aldeia”, explica ela.

Mais à frente, com o material finalizado, Dheik tenciona que o curta se transforme numa ferramenta para estimular o debate e o conhecimento sobre as questões indígenas entre jovens de Manaus. Para isso, a realizadora já prevê buscar parcerias para distribuição e difusão entre em escolas da cidade.

“Como ele irá abordar a temática indígena a partir da relação entre uma criança e sua avó, penso que ele pode contribuir para despertar essa reflexão. Pode ser usado em sala de aula para ajudar as crianças a conhecer e a entender de onde vieram”.

Música e inspiração

Apesar da temática crua e conflituosa, a inspiração para o projeto “Pranto lunar” surgiu a partir de uma música, “Índia Lua”, do compositor amazonense Antonio Pereira. “Quando escrevo me inspiro na poesia. Quando ouvi a música de Pereira, já me veio à mente toda a saga de uma índia da aldeia até a cidade, e fiz o roteiro”, conta Dheik.

A realizadora conta ainda que começou a conhecer e se aprofundar na realidade indígena a partir de sua participação no Laboratório de Estudos Pan-Amazônicos, da Universidade Federal do Amazonas. “Essa aproximação me fez começar a observar como ocorre a migração dos indígenas para a cidade, como vivem aqui, como se representam”, conta.

Dheik, que conheceu de perto a realidade dos indígenas de São Gabriel da Cachoeira (a 858 quilômetros da capital), aponta o descaso para com essa população e os prejuízos que decorrem daí, seja para o conhecimento tradicional, seja para a formação de uma identidade coletiva amazônica. “Muita coisa das tradições indígenas se perde porque não há interesse. Um conhecimento de raiz que se deixa ao léu”, lamenta ela. “E o fato de não conhecermos nossas origens faz com que a gente se exclua de certas discussões, ficando à margem de tudo”.

Por: Jony Clay Borges
Fonte: A Crítica 

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