Tecnologia ‘economiza’ pastagens

As séries estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram um avanço mais expressivo da pecuária de corte na região Norte e uma contribuição também relevante de Mato Grosso nesse processo. “O crescimento da agropecuária tem ocorrido tanto pelo ganho de produtividade – ou seja, maior produção em áreas que já eram desmatadas – quanto pelo desmatamento de novas áreas”, afirma Paulo Barreto, pesquisador sênior do Imazon.

Na ausência de estatísticas oficiais sobre a evolução da área ocupada pelos pastos na Amazônia Legal, os indicadores da pecuária levam em conta o desempenho dos abates realizados em estabelecimentos sob inspeção federal, estadual ou municipal, coletados pelo IBGE, e do peso das carcaças dos animais abatidos, além do aumento do efetivo bovino.

Segundo Barreto, tomando emprestados dados do IBGE, o rebanho na região, estimado em 79,6 milhões de cabeças, teve um incremento de 39% entre 2002 e 2012, com acréscimo de 22,5 milhões de cabeças, respondendo por 87% do aumento verificado no plantel de todo o país no período. O avanço ocorreu principalmente no sul do Pará e em algumas regiões de Mato Grosso e Rondônia, diz ele.

Pará e Rondônia, mais nova frente de expansão da pecuária de corte no país, atraindo os grandes grupos do setor, a exemplo do JBS, Minerva e Marfrig, abrigavam em torno de 30,8 milhões de cabeças em 2012, cerca de 10,6 milhões de animais a mais do que uma década atrás, respondendo por 79% de todo o incremento do plantel de bovinos na região Norte e por quase 41% do crescimento acumulado no período em todo o país. Mato Grosso, por sua vez, com a ressalva de que nem toda a área do Estado está localizada na região da Amazônia Legal, foi responsável por um quarto do aumento do rebanho nacional desde 2002.

O total de abates realizados, na soma dos Estados da região Norte e Mato Grosso, evoluiu de 5,286 milhões para 12,272 milhões de cabeças de 2002 a 2013, crescendo 132%, e a fatia sobre o total de animais abatidos no país passou de 26,5% para 35,7%. O peso das carcaças cresceu ainda mais, ao passar de 1,128 milhão para 3,0 milhões de toneladas, num avanço de 166,4%, refletindo o que parece ser tendência de exploração mais intensiva da atividade de corte, diante de um aumento de 14,7% no peso médio por animal abatido.

Com doses de genética aprimorada, técnicas avançadas de nutrição, melhorias sanitárias e novas práticas de manejo de pastagens e de gestão, o esforço para intensificação da produção de carne bovina, feito principalmente pela necessidade de ganhar escala e agregar maior rentabilidade à atividade, segundo Maurício Palma Nogueira, coordenador de pecuária da Agroconsult, permitiu “economizar” uma área equivalente a 251 milhões de hectares entre 1990 e 2014. Este seria o espaço que seria ocupado pela pecuária, esclarece Nogueira, “para produzir o atual volume de carne com a mesma tecnologia de 1990”.

Segundo ele, “as iniciativas dos produtores em busca de melhores resultados já evitaram o desmatamento de área proporcional a 1,5 vez de toda a área de pastagem atualmente em uso, com ganho ambiental é significativo”.

No intervalo analisado, lembra Nogueira, a produtividade da pecuária em todo o país cresceu de 1,65 arroba por hectare/ano para 4,20 arrobas, com avanço mais notável, cita ele, nas regiões do bioma amazônico. A produtividade ali era bem inferior na década de 1990 e, atualmente, “o nível tecnológico alcançado se equipara ao de regiões com pecuária mais desenvolvida”. O peso médio dos animais abatidos evoluiu de 16 a 16,5 arrobas para 18 arrobas, na média brasileira, enquanto a taxa de desfrute saltou de 16% para 22,5%.

“Há 15 anos, a porcentagem de bois abatidos com mais de 36 meses era acima de 30% do total. Atualmente representam menos de 7%. Isso tem forte influência na redução da emissão de metano pela pecuária, tendo em vista que animais abatidos mais jovens têm produção menor de metano ao longo da vida”, sintetiza Nogueira.

A questão, reforça Roberto Smeraldi, diretor da Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) Amigos da Terra – Amazônia Brasileira, está exatamente em ampliar a produção, sem expandir a área já ocupada. O rebanho brasileiro já supera 211 milhões de animais, para uma área, de acordo com os números de Smeraldi, de 200 milhões de hectares, em grandes números, mas o país abate anualmente em torno de 40 milhões de cabeças. “Deveríamos dobrar a produção, matando 80 milhões de bovinos, e concentrar a criação de todo o efetivo em 50 milhões de hectares, liberando 150 milhões de hectares para a agricultura e o reflorestamento, numa tacada só, eliminando o passivo ambiental e dobrando a produção agrícola”, sustenta ele.

Direta ou indiretamente, afirma Francisco Fonseca, coordenador da The Nature Conservancy (TNC) para produção responsável na Amazônia, a pecuária está relacionada a 80% do desmatamento na região, que teve mais de 10% de sua área convertida em pastagens ao longo desde os anos 1970, num processo liderado pelo Pará nos últimos dez anos, num fenômeno registrado de forma mais intensa nas porções sul e sudeste do Estado.

“Apesar disso, o Pará tem se destacado mais recentemente como polo importante de redução do desmatamento”, diz Fonseca. Ele lembra que municípios como Santana do Araguaia e Paragominas deixaram a “lista de desmatamento” do Ministério do Meio Ambiente (MMA), enquanto São Félix do Xingu, que chegou a ocupar o topo da lista, teve queda de 60% no desflorestamento, “graças a um trabalho conjunto da TNC com a prefeitura, os produtores locais, os sindicatos e a cadeia de carne”.

No norte de Mato Grosso, que perdeu mais de 30 milhões de hectares de floresta para a agropecuária, continua Fonseca, num trabalho semelhante, a TNC, prefeituras, sindicatos e grandes empresas do setor de carnes têm estimulado a restauração de áreas degradadas e conseguido a retirada de municípios da relação do MMA.

Segundo Fonseca, muitas empresas vêm aperfeiçoando seus sistemas de monitoramento de produção, como Marfrig e Walmart, em um projeto conjunto com a TNC. A parceria testa em São Félix do Xingu, que tem plantel de 2,143 milhões de cabeças, um modelo de gestão integrada para a produção responsável de carne, envolvendo toda a cadeia de suprimentos.

Por: Lauro Veiga Filho
Fonte: Valor Econômico 

Deixe um comentário