Falta de informação e construção de hidrelétrica ameaçam primata raro no Amazonas

Expedição científica no Sul do Estado busca informações que ajudem a traçar estratégias para conservação da espécie

Mico marcai em um dos poucos registros visuais conhecidos. Foto: Marcelo Santana/Instituto Mamirauá

O Mico marcai, primata raro e com poucos registros visuais conhecidos, é objeto de pesquisa realizada desde 2012 na Amazônia. O biólogo Felipe Ennes Silva está à frente da equipe do Instituto Mamirauá, que corre contra o tempo para coletar mais informações sobre a espécie. A pressa é porque a espécie habita uma das áreas que mais sofrem com desmatamento e pressão antrópica na Amazônia. A construção de uma usina hidrelétrica nas bacias dos rios Aripuanã e Roosevelt também é uma das potenciais ameaças ao animal ainda pouco estudado pela Ciência.

O pequeno primata não figura na lista dos animais ameaçados de extinção da IUCN, sigla em inglês para União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais. Mas nem por isso os estudiosos do assunto deixam de se interessar pela espécie. Entre 15 de janeiro e 9 de fevereiro deste ano, pesquisadores percorreram o Sul do Estado do Amazonas em busca de mais informações sobre o primata. Os biólogos querem levantar informações sobre parâmetros populacionais da espécie, como densidade ou abundância, para então criar estratégias eficientes de conservação.

“Junto com as informações sobre as principais ameaças para as espécies, vamos analisar todos esses dados coletados nas expedições para buscarmos parâmetros dos desafios de conservação de primatas naquela região”, diz Ennes. O pesquisador aponta como problema principal a falta de conhecimento sobre a diversidade da população de primatas na área. “A falta de conhecimento é um problema tão grande quanto a perda de habitat decorrente da pressão antrópica”, explica.

O trabalho teve início no Sul do Amazonas não por acaso. A espécie de primata foi vista pela primeira vez em 1914, durante a ‘Expedição Científica Rondon-Roosevelt’ (1913-1914), liderada pelo Marechal Cândido Rondon com o ex-presidente norte-americano Theodore Roosevelt. A expedição percorreu o então chamado rio da Dúvida, mais tarde rebatizado como rio Roosevelt. Na época não se sabia, mas o curso d’água nasce em Rondônia, passa por Mato Grosso e chega ao Amazonas, onde se torna um dos afluentes do rio Aripuanã. Por isso o antigo nome de ‘Dúvida’.

Na ocasião, três peles de indivíduos de Mico marcai foram levadas para o Museu Nacional do Rio de Janeiro. As poucas informações que se tem sobre a espécie foram descritas, em 1993, com base nestes três exemplares pelo biólogo Ronaldo Alperin.

“É com base nesse histórico que fomos para a região em 2012. O primeiro passo foi verificar a presença de fato do primata na área. Depois, outras expedições delimitaram a área de distribuição do Mico marcai”, revela Ennes. A área engloba os municípios de Manicoré e Novo Aripuanã, ambos no estado do Amazonas. As informações foram levantadas em campo, entre os anos de 2013 e 2014.

A expedição deste ano, verificou dados de abundância da espécie. Os pesquisadores percorram trilhas na floresta, enumerando animais avistados. Um grupo de cinco pessoas esteve mais ao Norte, na região do Manicoré, onde se discute a criação de uma unidade de conservação. Um segundo grupo foi a região de confluência dos rios Roosevelt e Aripuanã, onde existe uma proposta de construção de hidrelétrica.

Além dos dados coletados para os micos, também foram levantadas informações de primatas em geral. “Seguindo a mesma metodologia, conseguimos bons dados sobre os zogue-zogue, um primata do gênero Callicebus, e de parauacus, do gênero Pithecia”, aponta o pesquisador.

A iniciativa também está realizando uma revisão taxonômica do gênero Mico, apontando para novas classificações de algumas espécies. A pesquisa hoje é conduzida pelo Instituto Mamirauá, em parceria com o Conservation Leadership Programme, com a Universidade Federal do Amazonas (Ufam), com o Museu Emílio Goeldi, com a Universidade Federal de Brasília (UnB) e a Universidade de Salford, na Inglaterra.

Por: Izabel Santos
Fonte: Portal Amazônia 

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