Produzir sem derrubar mais floresta

É interessante viajar pelo interior do Mato Grosso e ver como a produção agrícola é parte da paisagem (se não é a totalidade dela). Lavouras de soja, algodão, milho e plantéis de gado ao longo das cercas substituíram, em algumas áreas, árvores que marcam a transição do cerrado para floresta.

Todavia, se olharmos para a história, é possível compreender o quê motivou para tamanha mudança. “’Plante que o João garante’, esse era o slogan do presidente João Batista Figueiredo, na década de 1980. Nessa época, os produtores sentiam-se obrigados a plantar”. Essa é a explicação do produtor Darci Ferrarin, para ele não existia outra via se não plantar. Gaúcho, como a maioria dos produtores do norte do estado, comprou uma área de 13.300 hectares na região de Sorriso, completamente degradada, segundo ele conta.

“Os produtores daquela época gostavam de trabalhar com o gado e, por isso, iam atrás de água e derrubavam tudo, tiravam a proteção das cabeceiras”. Perto de completar 70 anos, o senhor Darci viveu a transformação do Mato Grosso e acompanhou o crescimento do município de Sorriso. Descendente de italianos de Veneza, ele carrega as características físicas “clichês” como pele branca e olhos verdes e um acentuado e sonoro “ere”.

100% de aproveitamento da terra

Acostumado com a produção no sul, Darci conta que o ritmo da natureza mato-grossense dificultou as atividades. As chuvas torrenciais, os “pancadões”, lavavam a terra e intensificavam a erosão. Segundo ele, o Tele Pires era só bancos de areia.

O que fazer então? O proprietário adquiriu a fazenda em 1998 e desde então começou o trabalho de recuperação de solo, de cabeceiras d’água e reflorestamento. Além disso, adotou uma prática que para ele é o melhor sistema de conservação de solo: o plantio direto. “Eu mandei jogar fora o arado, grade e tudo que mexia no solo”.

O Ministério da Agricultura apresenta o plantio direto como a mesma lógica das florestas. “Assim como o material orgânico caído das árvores se transforma em rico adubo natural, a palha decomposta de safras anteriores macro e microrganismos, transformando-se no ‘alimento” do solo’”. Dentro de sua principal propriedade, a Santa Maria da Amazônia, essa técnica é aplicada juntamente com a rotação de culturas. “O clima nos permite que façamos duas safras cheias, sem necessidade de pivô de irrigação”.

“Hoje fazemos duas safras. A primeira é soja na totalidade da área, plantando em outubro e colhendo em janeiro e entrando com algodão. Depois de janeiro, a gente entra com o milho. Na segunda quinzena de fevereiro, entramos com feijão. Terminando o feijão, entramos com milheto sorgo e girassol. E, por fim, a área que sobra fica com pastagens, fazendo a rotação dentro da propriedade e produzindo os 12 meses do ano”, explica orgulhoso.

Na Santa Maria, 180 km de estrada de chão cortam os campos que acabam no rio Teles Pires (considerado porta de entrada da Amazônia) que abraça a fazenda por 35 km. Com orgulho, Darci ressalta que cinco mil hectares são de mata nativa e faz questão de mostrar as áreas que ele reflorestou e onde hoje tem água. “O ser humano consegue substituir qualquer coisa, até energia fóssil. Mas para água não há substituição”, afirma com veemência.

Criando um movimento e liderando iniciativas

Todo esse conhecimento, é claro, não veio do dia para noite. O setor produtivo do Mato Grosso, e talvez brasileiro, é organizado, politicamente fortalecido e tecnologicamente preparado – principalmente os de médio e grande porte. Com o tempo, eles compreenderam que a troca de experiências e os movimentos associativos são eficazes e baratos.

Dias de campo e feiras agroindustriais são acontecimentos importantes nessas regiões. Esses eventos são momentos de exposição de resultados e casos de sucesso. Grandes empresas do meio unem-se aos proprietários rurais e à sua equipe (veterinários, agrônomos, etc.) para testar e mostrar o que vem dando certo nas fazendas, seja em tecnologia ou técnicas aplicadas, visando sempre alta rentabilidade e baixo custo.

O senhor Darci percebeu cedo a eficácia desses dois fatores. E não demorou muito para que ele começasse um movimento organizado na região pela profissionalização da atividade e de aplicação de técnicas para melhorias ambientais. “Ou você é um empresário rural ou você é peão”.

Deve ser desafiador comandar 60 funcionários, duas grandes safras e plantio de seis culturas diferentes de forma amadora. Não é o caso de Darci. Ele leva a administração da fazenda com afinco e faz questão de envolver os herdeiros na atividade. Os três filhos participam dos negócios e cada um gerencia uma área específica da fazenda. O pai acredita que desta forma vai perpetuar não apenas as riquezas da família, como também a consciência de sustentabilidade que aplica.

Ele e seu filho, Darci Ferrarin Júnior, são conhecidos como agricultores sustentáveis por estimular e fomentar a criação do Clube Amigos da Terra (CAT) em 2002, uma organização não governamental que busca “a harmonia do agronegócio com o meio ambiente, primando pelo desenvolvimento tecnológico aplicado às técnicas do plantio direto, integração lavoura, pecuária e floresta e reflorestamento de áreas de preservação permanente (APP)” – ou seja, tudo que ele vem realizando em sua propriedade, mas em maior escala.

“Nós provamos que não é necessário mais derrubar mata e sim agregar valor às áreas já abertas”. Com essa frase, Darci crava o objetivo maior do CAT. Com seu carisma e experiência, ele agrega cada vez mais produtores de diferentes portes a essa ideia. E além disso, consegue comandar importantes empreendimentos. A rodovia que leva à Santa Maria da Amazônia foi pavimentada por alguns produtores que detém a concessão rodoviária por 30 anos. Um acordo realizado com o governo estadual (na época sob o comando de Blairo Maggi) e liderado por Darci.

“E o senhor nunca pensou em ser político?”. O agricultor conta que quando ainda morava Santa Bárbara do Sul foi vice-prefeito numa chapa vitoriosa e que por dois anos assumiu a administração da cidade. “Eu não sou formado em nada, mas essa foi a melhor faculdade que eu tive”, responde deixando claro que não pretende seguir essa carreira.

Rumo à certificação RTRS

A história deste produtor e sua maneira de gerenciar, primando pela profissionalização, rentabilidade da área e legalidade da atividade fazem dele um personagem à parte no cenário do agronegócio brasileiro. E, naturalmente, seu caminho cruzou com o do WWF-Brasil. Darci Ferrarin é um dos produtores que fazem parte do Gente que Produz e Preserva (GPP). Um projeto concebido em 2013 pelo Panda juntamente com o Clube Amigos da Terra (CAT), grupo Bel, IDH (The Sustainable Trade Initiative), Solidaridad e Instituto Centro de Vida (ICV).

O objetivo é fomentar na região a produção de soja certificada RTRS (Mesa Redonda da Soja Responsável, em inglês). “Esse projeto veio ao encontro da nossa necessidade, pois ele está orientando o produtor para produzir com sustentabilidade”, avalia.

Atualmente, o GPP tem nove fazendas que serão certificadas em julho. Isso representa em torno de 21.300 hectares e de 71 mil toneladas de soja (estimativa). Durante um ano, essas propriedades passaram por uma série de adequações individuais para receber a certificação.

Com otimismo, Darci afirma que com ações como o GPP, é possível reescrever uma nova história na produção agrícola do estado. “Hoje o produtor mato-grossense está bem mudado. É importante que ele tenha consciência sobre o que está certo e errado, o que está fora ou dentro da Lei dentro da propriedade, pois eu acredito que sem sustentabilidade e qualidade não tem como produzir”, finaliza.

Por: Maria Fernanda Maia
Fonte: WWF Brasil

Deixe um comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*