Academia Acreana de Letras defende uso do gentílico acreano com ‘e’

‘Tradição é superior a decretos’, diz Luisa Karlberg, presidente da AAL. Gentílico passou a ser redigido com ‘i’ após novo acordo ortográfico.

A discussão sobre o uso do gentílico “acreano” – modificado para “acriano” pelo novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, desde 2009 – voltou a ser tema de debate na internet esta semana. Defensora da escrita da palavra com a letra “e”, a presidente da Academia Acreana de Letras (AAL), Luisa Karlberg afirma que nenhum decreto pode modificar uma tradição.

Em entrevista ao G1, Luisa diz que, apesar de alguns defenderem que o gentílico é oriundo da palavra “aquiri”, não existe uma etimologia do “acreano”. Além disso, ela lembra que o acordo, por ser ortográfico, não deve modificar a morfologia das palavras. A escrita do termo com “e”, inclusive, não existe mais na pesquisa de vocabulário da Academia Brasileira de Letras.

“Se veio mesmo do ‘aquiri’, ou de uma língua indígena, é importante lembrar que as línguas indígenas são ágrafas, não há testemunho literário sobre isso. O que temos é a história escrita e existe o registro do uso do ‘acreano’ desde 1878. Com base nos postulados linguísticos e históricos, a tradição e a cultura de um povo é superior a decretos e leis”, declara.

A defesa da presidente da AAL vai além da questão da escrita. Para ela, o gentílico é parte fundamental da construção identitária dos habitantes de determinado local. É o que diferencia, por exemplo, um cearense de um carioca ou de um acreano, diz a estudiosa.

“Quais são os símbolos de um estado? A bandeira, o hino, o brasão e o gentílico. São as marcas da identidade de um povo. O gentílico é o que há de mais sagrado para um povo e nós somos acreanos há 137 anos. Temos uma história e é um equívoco querer amarrar a língua a preceitos etimológicos, ela é dinâmica, móvel”, acrescenta.

Luisa lembra da última reforma ortográfica da Língua Portuguesa, ocorrida em 1971, em que foi determinado a retirada do “h” do nome do estado da Bahia, por não ter som. A presidente explica que, na época, os baianos não aceitaram a modificação.

“Nós vamos aceitar essa mudança, por quê? Temos mais razão para não aceitar. Somos um estado que se fez brasileiro, nos fizemos acreanos. Sou acreano, meu hino é esse, meu território é esse, meus costumes são esses. Isso não muda por decreto”, finaliza.

Primeira mulher como presidente da Academia Acreana de Letras (AAL) em 78 anos, Luisa Galvão Lessa Karlberg tomou posse no dia 19 de junho deste ano, eleita por meio de votação. É a 6ª presidente da história da AAL. Ela é pós-doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montreal (Canadá), doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, membro da Academia Brasileira de Filologia e membro imortal da IWA.

Por: Caio Fulgêncio
Fonte: G1